Eles m*l tinham dado cinco passos para fora do café quando a voz de Cíntia rasgou o ar.
— Tá vendo só? — ela gritou, saindo atrás deles. — Márcio nunca prestou! Nem terminou comigo direito e já tava passeando com outra qualquer!
Algumas pessoas que estavam nas mesas externas se viraram. Outras pararam de andar. O silêncio curioso começou a se formar, pesado, desconfortável.
Isadora sentiu o corpo enrijecer.
— Você tá mentindo — Márcio respondeu, sem se virar. — A gente acabou no dia em que eu descobri a traição.
— Acabou nada! — Cíntia riu alto, uma risada f**a, provocativa. — Homem é tudo igual. Cansa de uma, já procura outra mais fácil.
Ela apontou para Isadora.
— Essa aí deve ter adorado, né? Achou que ganhou um prêmio.
O coração de Isadora afundou.
Ela sentiu como se todas as pessoas estivessem olhando só para ela. Avaliando. Medindo. Julgando. O som das próprias batidas do coração parecia alto demais.
— Cíntia, chega — Márcio disse, agora virando-se.
— Chega nada! — ela retrucou. — Você me humilhou, agora aguenta!
Um casal cochichou perto da porta. Uma senhora balançou a cabeça em desaprovação. Um homem murmurou algo que Isadora não conseguiu ouvir — mas sentiu.
Ela apertou os próprios dedos, tentando não chorar.
Na mente dela, o velho pensamento voltou, c***l, conhecido:
Claro que isso ia acontecer.
Eu não pertenço a esse tipo de lugar.
Eu nunca sou a escolhida.
Cíntia continuou, sentindo que estava vencendo.
— Olha pra ela, Márcio! — disse com desprezo. — Toda simples, toda sem graça… você sempre teve gosto duvidoso mesmo.
As palavras não eram só palavras. Eram lâminas.
Isadora abaixou o olhar. Viu seus sapatos gastos. A barra da roupa simples. Sentiu o corpo encolher, como se pudesse desaparecer ali mesmo, entre as pessoas e os olhares.
Ela não queria estar ali.
Não queria ser vista.
Não queria ser comparada.
— Vamos embora… — murmurou, a voz quase inexistente.
Márcio percebeu na hora.
Ele viu o jeito como ela se fechou. Como os ombros caíram. Como o brilho tinha sumido dos olhos dela.
Aquilo não era só vergonha.
Era ferida antiga sendo reaberta.
— Não fala mais com ela — Isadora pediu, sem encará-lo. — Por favor.
Ele respirou fundo.
— Escuta bem, Cíntia — disse firme, alto o suficiente para todos ouvirem. — A única coisa errada aqui foi você. Eu não devo explicação nenhuma sobre seguir minha vida.
— Ah, segue mesmo! — ela debochou. — Vamos ver quanto tempo essa aí aguenta antes de você cansar também.
Aquilo foi o limite.
Márcio deu um passo à frente.
— Não projeta em outra mulher o que você fez comigo.
Cíntia ficou em silêncio por um segundo — e depois riu, nervosa, percebendo que os olhares agora estavam voltados para ela.
Isadora não aguentava mais.
— Márcio… eu só quero ir pra casa — disse, com os olhos marejados. — Eu não quero que todo mundo fique olhando pra mim assim.
Ele envolveu os ombros dela com cuidado, protetor, como quem segura algo frágil demais para cair.
— Vamos — respondeu baixo. — Você não precisa passar por isso.
Enquanto se afastavam, Isadora sentia o peito apertado.
Não era só Cíntia.
Era o medo antigo de ser deixada.
Era a sensação de nunca ser suficiente.
Era o pavor de estar, mais uma vez, ocupando um lugar que não era dela.
E mesmo com Márcio ao lado, ela se sentia pequena.
Pequena demais para aquele mundo.
Pequena demais para o amor.
Mas, sem saber, alguém ali já tinha decidido que não deixaria isso acontecer.