Quando todos olham.

603 Words
Eles m*l tinham dado cinco passos para fora do café quando a voz de Cíntia rasgou o ar. — Tá vendo só? — ela gritou, saindo atrás deles. — Márcio nunca prestou! Nem terminou comigo direito e já tava passeando com outra qualquer! Algumas pessoas que estavam nas mesas externas se viraram. Outras pararam de andar. O silêncio curioso começou a se formar, pesado, desconfortável. Isadora sentiu o corpo enrijecer. — Você tá mentindo — Márcio respondeu, sem se virar. — A gente acabou no dia em que eu descobri a traição. — Acabou nada! — Cíntia riu alto, uma risada f**a, provocativa. — Homem é tudo igual. Cansa de uma, já procura outra mais fácil. Ela apontou para Isadora. — Essa aí deve ter adorado, né? Achou que ganhou um prêmio. O coração de Isadora afundou. Ela sentiu como se todas as pessoas estivessem olhando só para ela. Avaliando. Medindo. Julgando. O som das próprias batidas do coração parecia alto demais. — Cíntia, chega — Márcio disse, agora virando-se. — Chega nada! — ela retrucou. — Você me humilhou, agora aguenta! Um casal cochichou perto da porta. Uma senhora balançou a cabeça em desaprovação. Um homem murmurou algo que Isadora não conseguiu ouvir — mas sentiu. Ela apertou os próprios dedos, tentando não chorar. Na mente dela, o velho pensamento voltou, c***l, conhecido: Claro que isso ia acontecer. Eu não pertenço a esse tipo de lugar. Eu nunca sou a escolhida. Cíntia continuou, sentindo que estava vencendo. — Olha pra ela, Márcio! — disse com desprezo. — Toda simples, toda sem graça… você sempre teve gosto duvidoso mesmo. As palavras não eram só palavras. Eram lâminas. Isadora abaixou o olhar. Viu seus sapatos gastos. A barra da roupa simples. Sentiu o corpo encolher, como se pudesse desaparecer ali mesmo, entre as pessoas e os olhares. Ela não queria estar ali. Não queria ser vista. Não queria ser comparada. — Vamos embora… — murmurou, a voz quase inexistente. Márcio percebeu na hora. Ele viu o jeito como ela se fechou. Como os ombros caíram. Como o brilho tinha sumido dos olhos dela. Aquilo não era só vergonha. Era ferida antiga sendo reaberta. — Não fala mais com ela — Isadora pediu, sem encará-lo. — Por favor. Ele respirou fundo. — Escuta bem, Cíntia — disse firme, alto o suficiente para todos ouvirem. — A única coisa errada aqui foi você. Eu não devo explicação nenhuma sobre seguir minha vida. — Ah, segue mesmo! — ela debochou. — Vamos ver quanto tempo essa aí aguenta antes de você cansar também. Aquilo foi o limite. Márcio deu um passo à frente. — Não projeta em outra mulher o que você fez comigo. Cíntia ficou em silêncio por um segundo — e depois riu, nervosa, percebendo que os olhares agora estavam voltados para ela. Isadora não aguentava mais. — Márcio… eu só quero ir pra casa — disse, com os olhos marejados. — Eu não quero que todo mundo fique olhando pra mim assim. Ele envolveu os ombros dela com cuidado, protetor, como quem segura algo frágil demais para cair. — Vamos — respondeu baixo. — Você não precisa passar por isso. Enquanto se afastavam, Isadora sentia o peito apertado. Não era só Cíntia. Era o medo antigo de ser deixada. Era a sensação de nunca ser suficiente. Era o pavor de estar, mais uma vez, ocupando um lugar que não era dela. E mesmo com Márcio ao lado, ela se sentia pequena. Pequena demais para aquele mundo. Pequena demais para o amor. Mas, sem saber, alguém ali já tinha decidido que não deixaria isso acontecer.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD