A falta que não pede nome.

539 Words
Isadora percebeu a falta antes de admitir. Nos primeiros dias, disse a si mesma que era apenas costume. Afinal, Márcio havia aparecido de forma intensa, inesperada, ocupando espaços que ela nem sabia que estavam vazios. Era natural estranhar o silêncio. Natural… mas doloroso. O celular permaneceu quieto sobre a mesa da cozinha enquanto ela lavava a louça. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. O som da água caindo parecia mais alto do que deveria. — Ele deve estar ocupado — murmurou. Repetiu isso tantas vezes que começou a soar como desculpa. No caminho para o trabalho, sentiu o impulso de olhar para o outro lado da rua, como se ele pudesse surgir a qualquer instante. Não surgiu. Na farmácia, cada cliente que entrava fazia seu coração acelerar por um segundo inútil. “Ridículo”, pensou. “Você m*l o conhece.” Mas conhecia o suficiente para sentir a ausência. À noite, sentada ao lado da avó, Isadora tentou se concentrar na televisão. As imagens passavam, mas não ficavam. A mente insistia em lembrar do jeito calmo dele, da forma como ouvia sem pressa, como se o mundo pudesse esperar. — Tá tudo bem, minha filha? — Dona Alzira perguntou. — Tá sim, vó — respondeu rápido demais. Não estava. A ausência de Márcio tocava em algo antigo, uma ferida que ela conhecia bem demais: a sensação de ser deixada para trás sem explicação. O pai que nunca veio. A mãe que foi embora. Pessoas que desapareciam sem olhar para trás. — Eu não vou sentir isso — sussurrou, fechando os olhos. — Não de novo. Mas o coração não obedeceu. Ela não queria cobrar. Não queria parecer frágil. Não queria dar nome a algo que talvez nem existisse. Ainda assim, desejava ouvir a voz dele, nem que fosse por um minuto. Só para saber que não estava sozinha. Em outro ponto da cidade, Márcio também sentia o silêncio pesar. Não por escolha, mas por sobrevivência. Precisava resolver tudo antes de voltar a ser alguém para alguém. Pegou o celular várias vezes, leu mensagens antigas, digitou e apagou respostas que não enviou. “Quando eu falar com ela, tem que ser inteiro”, pensou. Isadora, naquela noite, deitou mais cedo. Virou-se de um lado para o outro, o coração inquieto. Pela primeira vez, permitiu-se a pergunta que vinha evitando: “E se isso for sentimento?” O pensamento assustou. Sentimento significava risco. Entrega. Possibilidade de dor. — Não… — sussurrou para o escuro. — Eu só sinto falta da presença. Mas a verdade era mais funda. Ela sentia falta de ser vista. De ser ouvida. De alguém que ficava. O celular vibrou na mesa de cabeceira. Uma única mensagem. Márcio: “Desculpa o silêncio. Não foi ausência. Foi luta. Posso te ligar?” O peito de Isadora apertou e aliviou ao mesmo tempo. As lágrimas vieram sem aviso. Não de tristeza. De reconhecimento. Ela respirou fundo antes de responder. “Pode.” Não disse que sentiu falta. Não disse que teve medo. Não disse que algo estava nascendo. Mas o silêncio entre eles, agora, era diferente. Não era abandono. Era espera. E às vezes, a paixão começa assim: no espaço entre uma ausência e o alívio de ainda ser lembrada.
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