o jogo sujo

676 Words
Cíntia sorriu quando recebeu a mensagem do pai. — Está feito. Ela leu e releu aquelas duas palavras como quem saboreia uma vitória rara. Caminhava pelo apartamento com passos lentos, calculados, o telefone na mão, os olhos brilhando. — Eu disse que ele não aguentaria — murmurou. — Nunca aguentam. Do outro lado da cidade, o jogo era outro. Márcio estava sentado diante de uma mesa longa demais para um homem que começava a se sentir pequeno. Não por culpa, mas pelo peso da injustiça. Os diretores trocavam olhares, cochichavam. O ambiente estava contaminado. — Senhor Márcio — disse um deles, com a voz rígida — o volume das acusações é grave. Há indícios de fraude, desvio de conduta e quebra de confiança. — Indícios plantados — respondeu Márcio, com firmeza contida. — Nada disso se sustenta. — O senhor Augusto apresentou documentos — outro diretor interveio. — Registros, transferências, testemunhos. Márcio sentiu o estômago revirar. — Ele está mentindo — disse. — E sabe disso. Dona Solange bateu a mão na mesa. — Eu acompanhei cada processo citado aqui. Cada um! Vocês sabem disso. — Mesmo assim — respondeu o diretor — a pressão é enorme. O nome da empresa já está sendo associado ao escândalo. Márcio entendeu naquele instante: não importava a verdade. importava o poder. — Então é isso? — perguntou, erguendo-se. — Vão me condenar sem provas reais? O silêncio foi a resposta. Um dos diretores pigarreou. — Diante da gravidade… estamos considerando acionar as autoridades para apuração imediata. A palavra polícia caiu como um tiro. Dona Solange empalideceu. — Vocês não podem fazer isso! — Podemos — respondeu o homem. — E talvez devamos. Márcio respirou fundo. O coração batia forte, mas a mente estava clara. Ele pensou nos pais, na vida simples, no orgulho que sempre carregou por nunca ter passado por cima de ninguém. — Se for preciso — disse, com a voz firme — eu encaro. Porque sou inocente. Quando a porta da sala se abriu de repente. — Esperem! Todos se viraram. Arnaldo entrou com passos rápidos, o rosto tenso, os olhos marcados por noites sem dormir. Trazia uma pasta grossa nas mãos. — Isso aqui prova que ele é inocente — disse, sem rodeios. Cíntia, do outro lado da cidade, ainda não sabia. Mas a queda começava ali. — Quem é o senhor? — perguntou um diretor. Arnaldo engoliu em seco. — Fui… fui cúmplice de uma mentira. Mas não de um crime. Ele colocou os documentos sobre a mesa. — E-mails, gravações, transferências manipuladas. Tudo partiu do senhor Augusto… e da filha dele. Um murmúrio atravessou a sala. Márcio sentiu o chão se mover sob seus pés. Olhou para Arnaldo com um misto de raiva e incredulidade. — Por quê? — perguntou, a voz carregada. — Por que agora? Arnaldo abaixou os olhos. — Porque já tirei tudo de você uma vez. Não vou tirar sua dignidade também. Os diretores analisavam os documentos com rapidez. Um deles levantou-se, sério. — Isso muda completamente o cenário. — Muda tudo — confirmou outro. Dona Solange fechou os olhos, aliviada. Márcio, porém, não se aproximou de Arnaldo. Não estendeu a mão. Não agradeceu. — Você não fez isso por mim — disse, frio. — Fez porque não aguentou o peso do que se tornou. Arnaldo assentiu. — Eu sei. E não espero perdão. Márcio respirou fundo. — Mas fez algo útil. Depois de tudo… isso importa. Naquele mesmo instante, o telefone de Cíntia tocou. Ela atendeu sorrindo. — Já acabou? Do outro lado, a voz do pai veio tensa, quebrada. — Não. Deu tudo errado. O sorriso dela morreu. — O que você quer dizer com errado? — Alguém falou. Trouxe provas. A polícia agora… pode ser para nós. Cíntia deixou o telefone cair da mão. Pela primeira vez, o jogo virou rápido demais para ela acompanhar. E Márcio, ainda em pé naquela sala, sentiu algo raro atravessar o peito: A verdade não o salvou sem dor. Mas o manteve de pé. E isso… ninguém mais podia tirar.
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