Cíntia sorriu quando recebeu a mensagem do pai.
— Está feito.
Ela leu e releu aquelas duas palavras como quem saboreia uma vitória rara. Caminhava pelo apartamento com passos lentos, calculados, o telefone na mão, os olhos brilhando.
— Eu disse que ele não aguentaria — murmurou. — Nunca aguentam.
Do outro lado da cidade, o jogo era outro.
Márcio estava sentado diante de uma mesa longa demais para um homem que começava a se sentir pequeno. Não por culpa, mas pelo peso da injustiça. Os diretores trocavam olhares, cochichavam. O ambiente estava contaminado.
— Senhor Márcio — disse um deles, com a voz rígida — o volume das acusações é grave. Há indícios de fraude, desvio de conduta e quebra de confiança.
— Indícios plantados — respondeu Márcio, com firmeza contida. — Nada disso se sustenta.
— O senhor Augusto apresentou documentos — outro diretor interveio. — Registros, transferências, testemunhos.
Márcio sentiu o estômago revirar.
— Ele está mentindo — disse. — E sabe disso.
Dona Solange bateu a mão na mesa. — Eu acompanhei cada processo citado aqui. Cada um! Vocês sabem disso.
— Mesmo assim — respondeu o diretor — a pressão é enorme. O nome da empresa já está sendo associado ao escândalo.
Márcio entendeu naquele instante:
não importava a verdade.
importava o poder.
— Então é isso? — perguntou, erguendo-se. — Vão me condenar sem provas reais?
O silêncio foi a resposta.
Um dos diretores pigarreou. — Diante da gravidade… estamos considerando acionar as autoridades para apuração imediata.
A palavra polícia caiu como um tiro.
Dona Solange empalideceu. — Vocês não podem fazer isso!
— Podemos — respondeu o homem. — E talvez devamos.
Márcio respirou fundo. O coração batia forte, mas a mente estava clara. Ele pensou nos pais, na vida simples, no orgulho que sempre carregou por nunca ter passado por cima de ninguém.
— Se for preciso — disse, com a voz firme — eu encaro. Porque sou inocente.
Quando a porta da sala se abriu de repente.
— Esperem!
Todos se viraram.
Arnaldo entrou com passos rápidos, o rosto tenso, os olhos marcados por noites sem dormir. Trazia uma pasta grossa nas mãos.
— Isso aqui prova que ele é inocente — disse, sem rodeios.
Cíntia, do outro lado da cidade, ainda não sabia.
Mas a queda começava ali.
— Quem é o senhor? — perguntou um diretor.
Arnaldo engoliu em seco. — Fui… fui cúmplice de uma mentira. Mas não de um crime.
Ele colocou os documentos sobre a mesa. — E-mails, gravações, transferências manipuladas. Tudo partiu do senhor Augusto… e da filha dele.
Um murmúrio atravessou a sala.
Márcio sentiu o chão se mover sob seus pés. Olhou para Arnaldo com um misto de raiva e incredulidade.
— Por quê? — perguntou, a voz carregada. — Por que agora?
Arnaldo abaixou os olhos. — Porque já tirei tudo de você uma vez. Não vou tirar sua dignidade também.
Os diretores analisavam os documentos com rapidez. Um deles levantou-se, sério.
— Isso muda completamente o cenário.
— Muda tudo — confirmou outro.
Dona Solange fechou os olhos, aliviada.
Márcio, porém, não se aproximou de Arnaldo. Não estendeu a mão. Não agradeceu.
— Você não fez isso por mim — disse, frio. — Fez porque não aguentou o peso do que se tornou.
Arnaldo assentiu. — Eu sei. E não espero perdão.
Márcio respirou fundo. — Mas fez algo útil. Depois de tudo… isso importa.
Naquele mesmo instante, o telefone de Cíntia tocou.
Ela atendeu sorrindo. — Já acabou?
Do outro lado, a voz do pai veio tensa, quebrada. — Não. Deu tudo errado.
O sorriso dela morreu.
— O que você quer dizer com errado?
— Alguém falou. Trouxe provas. A polícia agora… pode ser para nós.
Cíntia deixou o telefone cair da mão.
Pela primeira vez, o jogo virou rápido demais para ela acompanhar.
E Márcio, ainda em pé naquela sala, sentiu algo raro atravessar o peito:
A verdade não o salvou sem dor.
Mas o manteve de pé.
E isso… ninguém mais podia tirar.