O silêncio não chegou de uma vez.
Ele foi se instalando devagar, como poeira depois de um desabamento.
A sala de reuniões esvaziou-se aos poucos. As cadeiras ficaram fora do lugar, os copos de água pela metade, os papéis esquecidos sobre a mesa. Tudo parecia igual, mas nada estava.
Márcio permaneceu sentado por alguns minutos, imóvel. O corpo ainda sentia o eco da tensão, como se o perigo pudesse voltar a qualquer instante. Quando se levantou, as pernas estavam pesadas. Não era fraqueza. Era exaustão.
Dona Solange se aproximou em silêncio. Não havia discursos naquele momento.
— Você pode ir para casa — disse por fim, com suavidade. — Amanhã conversamos.
Márcio assentiu.
Pegou o paletó, passou a mão pela mesa uma última vez, como quem se despede de um campo de batalha.
No elevador, o espelho devolveu uma imagem diferente da que ele conhecia. Os olhos cansados, a barba por fazer, o semblante sério demais para a idade. Ainda assim, havia algo novo ali: dignidade intacta.
Quando saiu do prédio, o ar da noite pareceu mais frio. A cidade seguia seu ritmo indiferente. Pessoas riam, carros buzinavam, a vida acontecia como se nada tivesse sido colocado em risco.
Márcio caminhou até o carro sem ligar o rádio. Precisava do silêncio.
Dirigiu sem pressa, observando ruas que conhecia desde sempre. Cada esquina trazia uma memória: o começo da carreira, os primeiros sonhos, os erros que cometeu por confiar demais.
Pensou em Cíntia.
Não com raiva.
Com um vazio estranho.
“Como alguém que dizia amar pode querer destruir?”, pensou.
Ao chegar à casa dos pais, a luz da cozinha estava acesa.
Melissa estava sentada à mesa, descascando laranjas. Osvaldo assistia televisão sem realmente prestar atenção. A cena simples fez o peito de Márcio apertar.
— Filho? — Melissa levantou-se assustada. — Aconteceu alguma coisa?
Ele largou as chaves sobre o aparador e abriu os braços. Não disse nada. Só a abraçou.
O gesto disse tudo.
— Vem sentar — Osvaldo falou, desligando a TV. — Você tá magro.
Márcio sorriu de leve. Sentou-se, aceitou o suco que a mãe lhe ofereceu, respirou fundo.
Ali, naquele espaço pequeno e honesto, ele ainda era inteiro.
— Eu quase perdi tudo hoje — disse enfim. — Mas não perdi quem eu sou.
Os pais se entreolharam, orgulhosos.
— Isso ninguém tira — Osvaldo respondeu.
Mais tarde, sozinho no quarto da infância, Márcio sentou-se na cama. O silêncio ali era diferente. Não era ameaça. Era abrigo.
Pegou o celular, viu mensagens não lidas, mas não respondeu. Não agora.
Precisava sentir.
Do outro lado da cidade, Arnaldo também encarava o próprio silêncio. Sentado no carro, mãos apoiadas no volante, a testa encostada no vidro frio.
Não houve alívio completo. Apenas um peso um pouco menor.
— Não apaga — murmurou para si mesmo. — Mas conserta um pedaço.
Em um apartamento luxuoso e vazio, Cíntia caminhava sem rumo. Tudo estava quieto demais. Nenhuma ligação. Nenhuma confirmação de vitória.
Ela encarou o reflexo no espelho e não gostou do que viu. Não era fraqueza. Era consequência.
E consequência não se negocia.
Márcio apagou a luz do quarto e se deitou. Pela primeira vez em dias, o corpo permitiu o cansaço chegar. Antes de dormir, um pensamento cruzou sua mente:
“Sobreviver não é o fim. É o começo.”
A tempestade tinha passado.
E no silêncio que ficou, algo novo começava a se formar.