Quando a verdade aperta.

658 Words
Márcio sabia que não era coincidência. Nada daquele tipo era. O e-mail chegou cedo demais, seco demais, educado demais para esconder a ameaça. Uma auditoria interna. Questionamentos sobre contratos antigos. Um pedido formal para que ele “esclarecesse condutas”. Ele leu tudo em silêncio. Não sentiu medo. Sentiu cansaço. — Então é assim — murmurou, passando a mão pelo rosto. Dona Solange o chamou ainda naquela manhã. — Eu não vou fingir que isso não está acontecendo — disse ela, direta. — Estão pressionando forte. Gente grande. — O pai da Cíntia — Márcio respondeu, sem hesitar. Ela assentiu. — Exatamente. Márcio respirou fundo. — Eu não fiz nada errado. — Eu sei — respondeu Solange. — Mas agora é hora de você decidir se vai recuar… ou enfrentar. Ele pensou nos pais. Na lanchonete simples. Na vida honesta que sempre teve. — Eu enfrento — disse, firme. — Com a verdade. Dona Solange o olhou com respeito. — Então eu vou com você. Enquanto isso, do outro lado da cidade, Isadora sentia o corpo inquieto desde cedo. Nada de concreto tinha acontecido. Nenhuma ligação. Nenhuma notícia. Ainda assim, o peito apertava. Um pressentimento incômodo, como se o ar tivesse mudado de densidade. Ela atendia clientes automaticamente, mas a mente estava longe. “Alguma coisa vai acontecer”, pensou. Na pausa do almoço, tentou ligar para Márcio. Chamou. Chamou. Nada. O desconforto virou medo. — Tá tudo bem, minha filha? — perguntou Dona Alzira, pelo telefone. — Tá… — Isadora mentiu. — Só um aperto bobo. Mas não era bobo. Cíntia, por sua vez, observava tudo como quem assiste a um jogo que acredita controlar. Sentada no escritório do pai, girava a taça de vinho com um sorriso frio. — Ele vai ceder — disse. — Sempre cedem. — Talvez — respondeu o pai. — Mas se não ceder… — Ele vai perder — completou ela. — E vai aprender. O pai a observou com atenção. — Você está indo longe demais. Cíntia ergueu o olhar, ofendida. — Longe demais foi ele ter me deixado. — Isso não é amor, Cíntia. Ela sorriu. — Nunca foi. É orgulho ferido. E orgulho ferido, quando tem poder, vira vingança. Na imobiliária, Márcio passou horas reunindo documentos, contratos, e-mails. Cada papel era uma prova de quem ele era. De como sempre trabalhou limpo. Mesmo assim, o peso era grande. Não era só o emprego. Era a tentativa de apagar sua dignidade. No fim do dia, saiu do prédio com a cabeça pesada e o coração inquieto. Pegou o celular e viu as chamadas perdidas de Isadora. Ligou imediatamente. — Márcio? — a voz dela saiu tensa. — Tô aqui — ele respondeu. — Desculpa não ter atendido. Ela soltou o ar, aliviada. — Eu senti… eu senti que tinha algo errado. Ele fechou os olhos por um instante. — Tem. Mas eu tô lidando. — Quer que eu vá até você? — perguntou ela, quase sem perceber o quanto se importava. — Não — ele respondeu com cuidado. — Mas obrigada por se importar. Ela ficou em silêncio. — Só… não some. — Não vou — prometeu. — Não dessa vez. Cíntia, naquela mesma noite, deu o passo que mudaria tudo. Ligou para um jornalista antigo, conhecido da família. — Eu tenho uma história interessante — disse. — Sobre um corretor que subiu rápido demais. A mentira começou a ganhar forma. Isadora, em casa, sentiu um arrepio sem saber por quê. Abraçou a avó com força, como se o corpo pedisse p******o. — O que foi? — Dona Alzira perguntou. — Nada… — respondeu. — Só um medo estranho. Longe dali, Márcio encarava a própria imagem no espelho. — Eu não vou quebrar — disse para si mesmo. — Não agora. A verdade estava apertando. E quando isso acontece, quem joga sujo costuma perder o controle. Cíntia tinha ido longe demais. E o impacto… ainda estava por vir.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD