Márcio sabia que não era coincidência.
Nada daquele tipo era.
O e-mail chegou cedo demais, seco demais, educado demais para esconder a ameaça. Uma auditoria interna. Questionamentos sobre contratos antigos. Um pedido formal para que ele “esclarecesse condutas”.
Ele leu tudo em silêncio.
Não sentiu medo.
Sentiu cansaço.
— Então é assim — murmurou, passando a mão pelo rosto.
Dona Solange o chamou ainda naquela manhã.
— Eu não vou fingir que isso não está acontecendo — disse ela, direta. — Estão pressionando forte. Gente grande.
— O pai da Cíntia — Márcio respondeu, sem hesitar.
Ela assentiu. — Exatamente.
Márcio respirou fundo. — Eu não fiz nada errado.
— Eu sei — respondeu Solange. — Mas agora é hora de você decidir se vai recuar… ou enfrentar.
Ele pensou nos pais.
Na lanchonete simples.
Na vida honesta que sempre teve.
— Eu enfrento — disse, firme. — Com a verdade.
Dona Solange o olhou com respeito. — Então eu vou com você.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Isadora sentia o corpo inquieto desde cedo.
Nada de concreto tinha acontecido. Nenhuma ligação. Nenhuma notícia. Ainda assim, o peito apertava. Um pressentimento incômodo, como se o ar tivesse mudado de densidade.
Ela atendia clientes automaticamente, mas a mente estava longe.
“Alguma coisa vai acontecer”, pensou.
Na pausa do almoço, tentou ligar para Márcio. Chamou. Chamou. Nada.
O desconforto virou medo.
— Tá tudo bem, minha filha? — perguntou Dona Alzira, pelo telefone.
— Tá… — Isadora mentiu. — Só um aperto bobo.
Mas não era bobo.
Cíntia, por sua vez, observava tudo como quem assiste a um jogo que acredita controlar.
Sentada no escritório do pai, girava a taça de vinho com um sorriso frio.
— Ele vai ceder — disse. — Sempre cedem.
— Talvez — respondeu o pai. — Mas se não ceder…
— Ele vai perder — completou ela. — E vai aprender.
O pai a observou com atenção. — Você está indo longe demais.
Cíntia ergueu o olhar, ofendida. — Longe demais foi ele ter me deixado.
— Isso não é amor, Cíntia.
Ela sorriu. — Nunca foi. É orgulho ferido.
E orgulho ferido, quando tem poder, vira vingança.
Na imobiliária, Márcio passou horas reunindo documentos, contratos, e-mails. Cada papel era uma prova de quem ele era. De como sempre trabalhou limpo.
Mesmo assim, o peso era grande.
Não era só o emprego.
Era a tentativa de apagar sua dignidade.
No fim do dia, saiu do prédio com a cabeça pesada e o coração inquieto. Pegou o celular e viu as chamadas perdidas de Isadora.
Ligou imediatamente.
— Márcio? — a voz dela saiu tensa.
— Tô aqui — ele respondeu. — Desculpa não ter atendido.
Ela soltou o ar, aliviada. — Eu senti… eu senti que tinha algo errado.
Ele fechou os olhos por um instante. — Tem. Mas eu tô lidando.
— Quer que eu vá até você? — perguntou ela, quase sem perceber o quanto se importava.
— Não — ele respondeu com cuidado. — Mas obrigada por se importar.
Ela ficou em silêncio. — Só… não some.
— Não vou — prometeu. — Não dessa vez.
Cíntia, naquela mesma noite, deu o passo que mudaria tudo.
Ligou para um jornalista antigo, conhecido da família. — Eu tenho uma história interessante — disse. — Sobre um corretor que subiu rápido demais.
A mentira começou a ganhar forma.
Isadora, em casa, sentiu um arrepio sem saber por quê. Abraçou a avó com força, como se o corpo pedisse p******o.
— O que foi? — Dona Alzira perguntou.
— Nada… — respondeu. — Só um medo estranho.
Longe dali, Márcio encarava a própria imagem no espelho.
— Eu não vou quebrar — disse para si mesmo. — Não agora.
A verdade estava apertando.
E quando isso acontece, quem joga sujo costuma perder o controle.
Cíntia tinha ido longe demais.
E o impacto… ainda estava por vir.