A manhã chegou devagar.
A luz entrou pelas janelas do hospital sem pedir licença, clara demais para uma noite tão longa. Isadora abriu os olhos com o corpo dolorido, o pescoço rígido da cadeira dura. Por alguns segundos, não lembrou onde estava.
Até ouvir o som dos aparelhos.
O coração disparou.
Ela se levantou num pulo e foi até a porta do quarto. Dona Alzira dormia, respirando melhor, o rosto mais sereno. A médica explicou, com calma, que a crise tinha passado e que a observação continuaria por mais algumas horas.
— Ela respondeu bem — disse. — Pode ficar tranquila.
Isadora encostou a mão no peito, sentindo o ar voltar aos pulmões.
Quando se virou, encontrou Márcio sentado do outro lado do corredor, o rosto cansado, os olhos atentos a cada movimento dela.
— Ela tá melhor — disse Isadora.
O alívio no rosto dele foi imediato. — Que bom.
Nenhum dos dois falou mais nada por alguns instantes. O silêncio agora não era pesado. Era diferente. Era seguro.
— Você passou a noite inteira aqui — Isadora disse, percebendo o detalhe pela primeira vez.
— Passei — ele respondeu, simples. — Não parecia certo ir embora.
Ela sentou ao lado dele. — Ninguém nunca ficou.
Não havia cobrança na frase. Apenas constatação.
Márcio respirou fundo. — Eu sei como é esperar sozinho.
Isadora olhou para ele com atenção. Pela primeira vez, não viu apenas o homem ferido, mas alguém que carregava dores parecidas com as dela.
— Obrigada — disse, com a voz firme. — Não só por hoje… por ter estado.
Ele deu um meio sorriso. — Às vezes estar já é tudo que dá pra oferecer.
Mais tarde, quando Dona Alzira acordou, a primeira coisa que fez foi procurar a neta.
— Você não saiu daqui, né? — perguntou.
— Não — Isadora respondeu, segurando-lhe a mão.
— Ainda bem — disse a avó, olhando rapidamente para Márcio. — Não ficou sozinha.
Isadora sentiu algo diferente naquele momento. Não era euforia. Era leveza.
Quando finalmente puderam ir embora, o céu estava limpo, azul como há muito tempo ela não reparava. Caminharam juntos até a saída do hospital.
— Eu posso te levar em casa — Márcio ofereceu.
— Pode — Isadora respondeu, sem hesitar.
No caminho, conversaram pouco. Não era falta de assunto. Era respeito pelo que ainda estava se ajeitando por dentro.
Ao chegar em casa, Isadora parou na porta e respirou fundo.
— Eu achei que depois de tudo… eu nunca mais ia sorrir sem medo — confessou.
Márcio a olhou com atenção. — E agora?
Ela sorriu.
Um sorriso simples. Verdadeiro. Sem defesa.
— Agora eu percebi que o medo não manda mais o tempo todo.
Ele retribuiu o sorriso, contido. — Fico feliz de ver isso.
Isadora abriu a porta, depois se virou. — Você não precisa carregar ninguém… mas hoje você me ajudou a continuar.
— Você se ajudou — ele respondeu. — Eu só caminhei do lado.
Ela assentiu.
Quando entrou, sentiu algo novo se acomodando dentro do peito. Não era amor. Ainda não.
Era esperança sem pressa.
O dia seguinte não era igual.
Porque, pela primeira vez em muito tempo, Isadora acordava não apenas sobrevivendo —
mas sentindo que podia, sim, sorrir… sem medo