Márcio tentou seguir a vida como se nada tivesse acontecido.
Mas havia algo errado.
Desde o encontro na praça, a imagem daquela moça não saía da sua mente. Não era o rosto. Era o jeito. O silêncio pesado, o olhar cansado, como se carregasse um mundo inteiro sozinha.
“Ela precisa de ajuda”, pensou mais de uma vez.
O problema é que ele também precisava.
Sentia uma pressão constante na cabeça, como se o corpo estivesse pedindo pausa. Dor de cabeça, cansaço, noites m*l dormidas. Ele sabia que era o peso de tudo que não tinha sido digerido.
— Você não é salvador de ninguém — murmurou para si mesmo, sentado no sofá do apartamento vazio.
Mesmo assim, sentia que a vida estava repetindo algo. Como se já tivesse ignorado sinais antes. Como se, outra vez, estivesse diante de alguém machucado… e tivesse medo de chegar perto.
A dor apertou mais forte no fim da tarde.
Márcio respirou fundo, pegou as chaves e saiu. Precisava de um remédio. Precisava de qualquer coisa que aliviasse.
A farmácia estava quase vazia.
Ele entrou distraído, segurando a cabeça com a mão, e caminhou até o balcão.
— Boa tarde — disse uma voz suave.
Ele levantou o olhar.
E o mundo parou.
Era ela.
A moça da praça.
Por um segundo, Márcio achou que estava imaginando coisas.
— É você… — escapou.
Isadora o reconheceu na mesma hora. O coração acelerou sem aviso.
— Oi — disse, surpresa. — Você tá bem?
Ele riu de leve, sem humor. — Acho que não muito.
— Dor de cabeça? — ela perguntou, já pegando um analgésico.
— Forte.
Isadora entregou o remédio e explicou com cuidado como tomar. O jeito atencioso, simples, fez Márcio sentir algo estranho no peito.
— Obrigado — disse. — Eu… eu fiquei pensando em você depois daquele dia.
Ela baixou os olhos. — Eu também pensei… mas não sabia nem seu nome.
— Márcio.
— Isadora.
O nome ecoou nele como algo conhecido.
— Eu sabia que te conhecia de algum lugar — disse. — Só não sabia de onde.
Isadora sorriu, tímida. — Às vezes a gente reconhece a dor, não a pessoa.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Você parecia precisar de ajuda.
Ela respirou fundo. — E você também.
Os dois sorriram fraco.
— Engraçado — Márcio disse. — Eu não te perguntei nada naquele dia. Nem como te encontrar. Foi como se eu soubesse que, se fosse pra te ver de novo, aconteceria.
Isadora sentiu um arrepio. — Eu pensei o mesmo.
O silêncio se instalou outra vez. Mas, diferente do primeiro encontro, não havia tanto medo. Ainda havia dor. Mas agora havia presença.
— Se quiser… — Márcio começou, hesitando. — A gente pode conversar outro dia. Sem pressa. Sem promessa.
Isadora pensou na mãe, no medo, nas feridas abertas.
Pensou também na avó.
E, mesmo assustada, respondeu: — Sem promessa… eu consigo.
Eles trocaram um olhar demorado.
Quando Márcio saiu da farmácia, a dor de cabeça ainda estava lá.
Mas o peso no peito…
tinha diminuído um pouco.
O passado estava se repetindo.
A diferença era que, desta vez, ele não estava disposto a ignorar os sinais.