Quando o passado se repete.

537 Words
Márcio tentou seguir a vida como se nada tivesse acontecido. Mas havia algo errado. Desde o encontro na praça, a imagem daquela moça não saía da sua mente. Não era o rosto. Era o jeito. O silêncio pesado, o olhar cansado, como se carregasse um mundo inteiro sozinha. “Ela precisa de ajuda”, pensou mais de uma vez. O problema é que ele também precisava. Sentia uma pressão constante na cabeça, como se o corpo estivesse pedindo pausa. Dor de cabeça, cansaço, noites m*l dormidas. Ele sabia que era o peso de tudo que não tinha sido digerido. — Você não é salvador de ninguém — murmurou para si mesmo, sentado no sofá do apartamento vazio. Mesmo assim, sentia que a vida estava repetindo algo. Como se já tivesse ignorado sinais antes. Como se, outra vez, estivesse diante de alguém machucado… e tivesse medo de chegar perto. A dor apertou mais forte no fim da tarde. Márcio respirou fundo, pegou as chaves e saiu. Precisava de um remédio. Precisava de qualquer coisa que aliviasse. A farmácia estava quase vazia. Ele entrou distraído, segurando a cabeça com a mão, e caminhou até o balcão. — Boa tarde — disse uma voz suave. Ele levantou o olhar. E o mundo parou. Era ela. A moça da praça. Por um segundo, Márcio achou que estava imaginando coisas. — É você… — escapou. Isadora o reconheceu na mesma hora. O coração acelerou sem aviso. — Oi — disse, surpresa. — Você tá bem? Ele riu de leve, sem humor. — Acho que não muito. — Dor de cabeça? — ela perguntou, já pegando um analgésico. — Forte. Isadora entregou o remédio e explicou com cuidado como tomar. O jeito atencioso, simples, fez Márcio sentir algo estranho no peito. — Obrigado — disse. — Eu… eu fiquei pensando em você depois daquele dia. Ela baixou os olhos. — Eu também pensei… mas não sabia nem seu nome. — Márcio. — Isadora. O nome ecoou nele como algo conhecido. — Eu sabia que te conhecia de algum lugar — disse. — Só não sabia de onde. Isadora sorriu, tímida. — Às vezes a gente reconhece a dor, não a pessoa. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. — Você parecia precisar de ajuda. Ela respirou fundo. — E você também. Os dois sorriram fraco. — Engraçado — Márcio disse. — Eu não te perguntei nada naquele dia. Nem como te encontrar. Foi como se eu soubesse que, se fosse pra te ver de novo, aconteceria. Isadora sentiu um arrepio. — Eu pensei o mesmo. O silêncio se instalou outra vez. Mas, diferente do primeiro encontro, não havia tanto medo. Ainda havia dor. Mas agora havia presença. — Se quiser… — Márcio começou, hesitando. — A gente pode conversar outro dia. Sem pressa. Sem promessa. Isadora pensou na mãe, no medo, nas feridas abertas. Pensou também na avó. E, mesmo assustada, respondeu: — Sem promessa… eu consigo. Eles trocaram um olhar demorado. Quando Márcio saiu da farmácia, a dor de cabeça ainda estava lá. Mas o peso no peito… tinha diminuído um pouco. O passado estava se repetindo. A diferença era que, desta vez, ele não estava disposto a ignorar os sinais.
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