quando dois silêncio se reconhece

568 Words
Isadora saiu de casa sem saber para onde ir. O ar parecia pesado demais para ficar ali dentro. O coração ainda doía com a imagem da mãe sendo colocada para fora, não por crueldade, mas por sobrevivência. Mesmo assim, doía. Andava pela rua como quem carrega um cansaço antigo. Os olhos ardiam, mas ela não chorava. Já tinha chorado o suficiente por pessoas que não ficaram. Sentou-se no banco da praça. A mesma praça onde tantas vezes havia observado casais de mãos dadas, se perguntando se um dia aquilo também seria para ela. Naquela tarde, nem isso parecia possível. “Amor não é pra mim”, pensou. Foi então que ele passou. Márcio caminhava distraído, perdido nos próprios pensamentos. Tinha saído do trabalho mais cedo, sem rumo, tentando respirar fora da dor. Quando viu Isadora sentada ali, encolhida, algo nele parou. Ele a reconheceu antes mesmo de entender por quê. Havia algo no jeito dela — uma tristeza quieta que não pedia atenção, mas gritava por dentro. Isadora levantou o olhar e seus olhos encontraram os dele. O tempo desacelerou. — Oi… — ele disse, com cuidado, como se pudesse assustá-la. Ela demorou a responder. — Oi. — Você tá bem? — perguntou, já sabendo a resposta. Isadora deu de ombros. — Acho que não sei mais responder isso. Ele sentou no outro lado do banco, mantendo uma distância respeitosa. — Às vezes não saber já é uma resposta — disse ele. Ela o olhou, surpresa. Não esperava compreensão. Nunca esperava. — Parece que tudo que toca em mim quebra — confessou, baixinho. — Eu não tenho referências de amor… só da minha avó. E mesmo assim, eu acho que amar não é pra mim. Márcio engoliu em seco. Cada palavra dela parecia espelhar as próprias feridas. — Eu achei que tinha — respondeu. — Achei que sabia exatamente o que era amor. Hoje… eu não sei mais nada. O silêncio caiu entre eles. Mas não era vazio. Era cheio de entendimento. — Desculpa — Isadora disse de repente. — Eu não devia falar essas coisas pra você. — Devia, sim — ele respondeu. — Tem gente que só aparece pra ouvir. Ela sorriu de leve, sem acreditar muito. — Você fala como se não tivesse nada quebrado aí dentro. — Tenho — ele admitiu. — Só aprendi a fingir que não. Isadora abaixou a cabeça. — Eu não espero nada de ninguém… fica mais fácil assim. Márcio a observou com atenção. — Às vezes, a gente não precisa esperar. Só sentir o momento. Sem promessa. Ela respirou fundo. — Eu não sei sentir sem medo. — Eu também não — ele respondeu. — Mas talvez… a gente possa errar devagar. Isadora levantou-se. — Eu preciso ir. — Tudo bem — disse ele, sem insistir. — Posso te acompanhar até o ponto? Ela hesitou. O coração dizia “não confia”. Mas algo nela, cansado de fugir, concordou. — Pode. Caminharam lado a lado, em silêncio. Antes de se despedirem, Isadora o olhou pela última vez. — Obrigada… por não tentar consertar nada. Márcio sorriu, triste. — Às vezes, o que mais cura é não tentar. Ela foi embora. Mas, pela primeira vez em muito tempo, Isadora não se sentiu completamente sozinha. Dois silêncios tinham se reconhecido. E isso, mesmo sem esperança, já era o começo de algo que nenhum dos dois estava pronto para nomear.
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