A casa que ele ainda era inteiro.

499 Words
A casa dos pais tinha o mesmo cheiro. Café forte, pão quente e algo invisível que só existe onde o amor nunca foi negociado. Márcio parou na porta por alguns segundos antes de entrar, como se temesse quebrar aquele lugar com a dor que carregava. Ali, ele ainda era inteiro. O relógio antigo na parede marcava o tempo sem pressa. O sofá gasto permanecia no mesmo lugar. Nada havia sido substituído por status ou aparência. E isso doeu. — Filho, senta. O café já tá pronto — disse Melissa, com a naturalidade de quem nunca deixou de esperar por ele. Márcio se sentou à mesa pequena e sentiu o peito apertar. Quantas vezes recusara aquele convite? Quantas desculpas inventara? “Cíntia não gosta de lugar simples.” “Hoje não dá.” “Outro dia.” O outro dia nunca vinha. Ele olhou ao redor e as lembranças vieram como um filme silencioso. A infância correndo pela casa. O pai chegando cansado, mas presente. A mãe fazendo milagre com pouco. Ali ele fora feliz. E havia trocado tudo isso por um mundo que nunca o quis de verdade. — Você tá quieto — observou Osvaldo, sentado à sua frente. Márcio respirou fundo. — Eu me afastei demais… por causa dela. A palavra dela saiu pesada. — Eu deixei de vir aqui. De almoçar com vocês. De ouvir histórias que já conhecia. — A voz falhou. — Eu coloquei meu mundo inteiro numa pessoa só. Melissa apertou a mão dele. — A gente percebeu. — E nunca me cobraram — ele continuou, com os olhos marejados. — Porque amor não cobra — respondeu Osvaldo, firme. — Amor espera. A frase o atravessou. Márcio levantou-se e foi até o quarto antigo. O quarto que nunca deixou de ser dele. As paredes simples. O guarda-roupa antigo. O cheiro de infância. Sentou-se na cama e deixou as lágrimas caírem. Lembrou-se de quando Cíntia torcia o nariz ao ouvir falar da lanchonete. — Seus pais trabalham demais… isso é meio… ultrapassado. E ele não a confrontava. Lembrou-se das vezes em que ela dizia: — Não combina comigo. E ele aceitava. Ali, sentado naquela cama, entendeu tudo o que perdeu por tentar caber no mundo dela. Amigos. Raízes. A si mesmo. — Nunca mais — sussurrou. À noite, sentaram-se à mesa para jantar. Simples. Arroz, feijão, conversa honesta. Risadas tímidas. Márcio sentiu algo que não sentia havia muito tempo: paz. Não a paz da conquista, mas a da pertença. Ao deitar, ouviu os sons da casa. O pai fechando portas. A mãe organizando a cozinha. Sons pequenos, mas inteiros. Antes de dormir, pensou: Fui feliz aqui. E fui embora achando que felicidade era outra coisa. Mas ali, naquela casa pequena, ele começava a entender que amor não é o mundo que você constrói para alguém… É o lugar onde você pode ser quem é, sem medo. E, pela primeira vez em muito tempo, Márcio dormiu sem sonhar com a traição. Dormiu com memória. Dormiu inteiro.
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