A casa dos pais tinha o mesmo cheiro.
Café forte, pão quente e algo invisível que só existe onde o amor nunca foi negociado. Márcio parou na porta por alguns segundos antes de entrar, como se temesse quebrar aquele lugar com a dor que carregava.
Ali, ele ainda era inteiro.
O relógio antigo na parede marcava o tempo sem pressa. O sofá gasto permanecia no mesmo lugar. Nada havia sido substituído por status ou aparência.
E isso doeu.
— Filho, senta. O café já tá pronto — disse Melissa, com a naturalidade de quem nunca deixou de esperar por ele.
Márcio se sentou à mesa pequena e sentiu o peito apertar. Quantas vezes recusara aquele convite? Quantas desculpas inventara?
“Cíntia não gosta de lugar simples.”
“Hoje não dá.”
“Outro dia.”
O outro dia nunca vinha.
Ele olhou ao redor e as lembranças vieram como um filme silencioso. A infância correndo pela casa. O pai chegando cansado, mas presente. A mãe fazendo milagre com pouco.
Ali ele fora feliz.
E havia trocado tudo isso por um mundo que nunca o quis de verdade.
— Você tá quieto — observou Osvaldo, sentado à sua frente.
Márcio respirou fundo. — Eu me afastei demais… por causa dela.
A palavra dela saiu pesada.
— Eu deixei de vir aqui. De almoçar com vocês. De ouvir histórias que já conhecia. — A voz falhou. — Eu coloquei meu mundo inteiro numa pessoa só.
Melissa apertou a mão dele. — A gente percebeu.
— E nunca me cobraram — ele continuou, com os olhos marejados.
— Porque amor não cobra — respondeu Osvaldo, firme. — Amor espera.
A frase o atravessou.
Márcio levantou-se e foi até o quarto antigo. O quarto que nunca deixou de ser dele. As paredes simples. O guarda-roupa antigo. O cheiro de infância.
Sentou-se na cama e deixou as lágrimas caírem.
Lembrou-se de quando Cíntia torcia o nariz ao ouvir falar da lanchonete. — Seus pais trabalham demais… isso é meio… ultrapassado.
E ele não a confrontava.
Lembrou-se das vezes em que ela dizia: — Não combina comigo.
E ele aceitava.
Ali, sentado naquela cama, entendeu tudo o que perdeu por tentar caber no mundo dela. Amigos. Raízes. A si mesmo.
— Nunca mais — sussurrou.
À noite, sentaram-se à mesa para jantar. Simples. Arroz, feijão, conversa honesta. Risadas tímidas.
Márcio sentiu algo que não sentia havia muito tempo: paz.
Não a paz da conquista, mas a da pertença.
Ao deitar, ouviu os sons da casa. O pai fechando portas. A mãe organizando a cozinha. Sons pequenos, mas inteiros.
Antes de dormir, pensou:
Fui feliz aqui.
E fui embora achando que felicidade era outra coisa.
Mas ali, naquela casa pequena, ele começava a entender que amor não é o mundo que você constrói para alguém…
É o lugar onde você pode ser quem é, sem medo.
E, pela primeira vez em muito tempo, Márcio dormiu sem sonhar com a traição.
Dormiu com memória.
Dormiu inteiro.