Arnaldo nunca imaginou que o silêncio pudesse pesar tanto.
O celular estava mudo havia dias. Nenhuma mensagem de Márcio. Nenhuma chance de explicação. Nenhuma brecha para remendo. A amizade tinha acabado do jeito mais definitivo que existe: quando o outro decide que você não existe mais.
Ele tentou trabalhar, tentou sair, tentou fingir normalidade. Nada funcionava.
Perdera o amigo.
E começava a perceber que nunca tivera a mulher.
Sentado sozinho no apartamento, Arnaldo passou as mãos pelo rosto e respirou fundo. As lembranças vinham em sequência c***l: as risadas com Márcio, os planos antigos, a confiança cega.
— Como eu pude fazer isso? — murmurou.
A resposta doía porque era simples: desejo. Ego. Vaidade.
E Cíntia.
No começo, ele acreditou que era amor. Ela dizia sentir-se incompreendida, negligenciada, presa a um homem que só trabalhava. Ele acreditou em cada palavra. Quis ser o herói. O diferente. O escolhido.
Mas agora… agora ele via.
O olhar calculado.
As palavras ensaiadas.
O choro que surgia na hora certa.
A gravidez.
A lembrança fez seu estômago embrulhar.
— Você vai dizer que é do Márcio — ela dissera, sem hesitar.
Naquele instante, algo tinha quebrado dentro dele.
— Isso é loucura, Cíntia — ele lembrava de ter dito.
E ela apenas sorrira.
Não havia amor naquele sorriso. Havia estratégia.
Arnaldo levantou-se abruptamente e começou a andar pelo apartamento. A ficha caía, pesada e tardia.
Ela não queria um filho.
Não queria a ele.
Queria controle.
Queria prender Márcio de qualquer forma — mesmo que isso significasse destruir o que restava de dignidade.
— Eu traí meu melhor amigo… por isso? — disse em voz alta, sentindo a vergonha queimar.
Comprara gato por lebre.
Acreditara que estava vivendo uma grande paixão, quando na verdade tinha sido apenas mais uma peça no jogo de Cíntia. Usado. Manipulado. Descártavel.
O telefone vibrou. Mensagem dela.
“Precisamos conversar.”
Arnaldo encarou a tela por longos segundos. Pela primeira vez, não sentiu vontade de responder. Não sentiu medo de perdê-la.
Sentiu repulsa.
Digitou devagar:
“Não me procure mais. O que você fez foi longe demais.”
A resposta veio rápida:
“Você me deve isso.”
Ele riu. Um riso amargo.
— Eu não devo nada — sussurrou.
Bloqueou o número.
Sentou-se no sofá e deixou a culpa finalmente chegar inteira. Não havia justificativa. Não havia perdão fácil. Algumas escolhas não têm retorno.
Márcio jamais voltaria a confiar nele.
E ele teria que conviver com isso.
Naquela noite, Arnaldo entendeu duas verdades que custaram caro demais:
Trair um amigo não te torna livre.
E confundir manipulação com amor pode destruir tudo.
Ele perdeu o amigo.
Perdeu a honra.
E ganhou uma lição que jamais esqueceria.
Algumas pessoas não amam.
Elas usam.
E Cíntia era exatamente isso.