gato por lebre

459 Words
Arnaldo nunca imaginou que o silêncio pudesse pesar tanto. O celular estava mudo havia dias. Nenhuma mensagem de Márcio. Nenhuma chance de explicação. Nenhuma brecha para remendo. A amizade tinha acabado do jeito mais definitivo que existe: quando o outro decide que você não existe mais. Ele tentou trabalhar, tentou sair, tentou fingir normalidade. Nada funcionava. Perdera o amigo. E começava a perceber que nunca tivera a mulher. Sentado sozinho no apartamento, Arnaldo passou as mãos pelo rosto e respirou fundo. As lembranças vinham em sequência c***l: as risadas com Márcio, os planos antigos, a confiança cega. — Como eu pude fazer isso? — murmurou. A resposta doía porque era simples: desejo. Ego. Vaidade. E Cíntia. No começo, ele acreditou que era amor. Ela dizia sentir-se incompreendida, negligenciada, presa a um homem que só trabalhava. Ele acreditou em cada palavra. Quis ser o herói. O diferente. O escolhido. Mas agora… agora ele via. O olhar calculado. As palavras ensaiadas. O choro que surgia na hora certa. A gravidez. A lembrança fez seu estômago embrulhar. — Você vai dizer que é do Márcio — ela dissera, sem hesitar. Naquele instante, algo tinha quebrado dentro dele. — Isso é loucura, Cíntia — ele lembrava de ter dito. E ela apenas sorrira. Não havia amor naquele sorriso. Havia estratégia. Arnaldo levantou-se abruptamente e começou a andar pelo apartamento. A ficha caía, pesada e tardia. Ela não queria um filho. Não queria a ele. Queria controle. Queria prender Márcio de qualquer forma — mesmo que isso significasse destruir o que restava de dignidade. — Eu traí meu melhor amigo… por isso? — disse em voz alta, sentindo a vergonha queimar. Comprara gato por lebre. Acreditara que estava vivendo uma grande paixão, quando na verdade tinha sido apenas mais uma peça no jogo de Cíntia. Usado. Manipulado. Descártavel. O telefone vibrou. Mensagem dela. “Precisamos conversar.” Arnaldo encarou a tela por longos segundos. Pela primeira vez, não sentiu vontade de responder. Não sentiu medo de perdê-la. Sentiu repulsa. Digitou devagar: “Não me procure mais. O que você fez foi longe demais.” A resposta veio rápida: “Você me deve isso.” Ele riu. Um riso amargo. — Eu não devo nada — sussurrou. Bloqueou o número. Sentou-se no sofá e deixou a culpa finalmente chegar inteira. Não havia justificativa. Não havia perdão fácil. Algumas escolhas não têm retorno. Márcio jamais voltaria a confiar nele. E ele teria que conviver com isso. Naquela noite, Arnaldo entendeu duas verdades que custaram caro demais: Trair um amigo não te torna livre. E confundir manipulação com amor pode destruir tudo. Ele perdeu o amigo. Perdeu a honra. E ganhou uma lição que jamais esqueceria. Algumas pessoas não amam. Elas usam. E Cíntia era exatamente isso.
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