A mentira que ela criou.

642 Words
Cíntia não dormia. Andava de um lado para o outro no apartamento como um animal encurralado. O silêncio não a acalmava — a enlouquecia. Márcio não ligava. Não mandava mensagens. Não aparecia. Ela não estava acostumada a ser ignorada. Pegou o celular pela centésima vez e encarou a tela vazia. O reflexo que via ali não era o da mulher confiante que sempre foi. Era o de alguém perdendo o controle. — Isso não pode acabar assim — murmurou, com os dentes cerrados. Foi então que a ideia nasceu. Não como um plano bem pensado, mas como um instinto desesperado. Ela parou. Respirou fundo. Sorriu. — Grávida… — disse em voz alta, testando a palavra. O sorriso aumentou. Horas depois, Arnaldo apareceu no apartamento, aflito, olhos fundos, culpa m*l disfarçada. — Você sumiu — disse ele. — Eu tentei te ligar. Cíntia cruzou os braços. — Eu precisava pensar. Ele se aproximou. — A gente precisa decidir o que vai fazer agora. Ela o encarou com frieza. — Eu já decidi. — Decidiu o quê? Cíntia respirou fundo, teatral. — Eu estou grávida. O mundo pareceu girar. — O quê?! — Arnaldo empalideceu. — Mas… mas isso é meu? Ela desviou o olhar de propósito. — Não. — Como assim, não?! — ele elevou a voz. — Você só estava comigo! Cíntia se aproximou, baixa e venenosa: — Eu vou dizer que é do Márcio. Arnaldo recuou, chocado. — Você enlouqueceu?! — Não. — Ela sorriu. — Eu estou lutando pelo que é meu. — Isso é mentira! — ele gritou. — Isso vai destruir todo mundo! — Já destruiu — ela respondeu fria. — E se eu cair, não caio sozinha. Arnaldo passou as mãos pelos cabelos, desesperado. — Você não pode fazer isso comigo. — Posso. E vou. No dia seguinte, Cíntia foi até Márcio. Vestia-se de forma simples, quase apagada. Olhos inchados. Voz frágil. A máscara perfeita. — Eu preciso falar com você — disse, quando ele abriu a porta. Márcio a olhou por alguns segundos. Algo nela não despertava mais nada. — Fala. Ela respirou fundo, como se fosse desmaiar. — Eu estou grávida. O silêncio caiu pesado. — Não acredito em você — ele respondeu, direto. A frase a atingiu como um t**a. — É seu, Márcio — insistiu, forçando lágrimas. — Eu errei, mas isso muda tudo. A gente pode consertar… Ele deu um passo para trás. — Não usa uma criança pra tentar me manipular. — Você sempre quis uma família! — ela gritou. — Você vai virar as costas pro seu próprio filho? — Eu vi você na cama com outro homem — respondeu ele, firme, com raiva contida. — Não insulte minha inteligência. Cíntia perdeu o controle. — Você vai se arrepender! — Não — disse ele. — Quem vai se arrepender é você por continuar mentindo. Ele fechou a porta. Cíntia ficou ali, imóvel, sentindo algo que nunca sentira antes: humilhação. Os olhos se encheram de ódio. — Então é guerra — sussurrou. Horas depois, ela entrou no escritório do pai. O homem ergueu os olhos dos papéis, impaciente. — O que foi agora, Cíntia? Ela se sentou à frente dele, dura, fria. — Eu quero acabar com o Márcio. Ele arqueou a sobrancelha. — Por quê? — Porque ele me rejeitou — respondeu sem rodeios. — E ninguém faz isso comigo. O pai a observou em silêncio por alguns segundos. — O que você quer? — Que ele perca o emprego. O nome. A reputação. O homem recostou-se na cadeira. — Isso tem um preço. Cíntia sorriu. Um sorriso vazio. — Eu pago. Naquele momento, ela não queria amor. Queria vingança. E enquanto Márcio tentava reconstruir a própria dignidade, Cíntia descia mais um degrau — levando consigo uma mentira grande o bastante para destruir quem ousasse seguir em frente sem ela.
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