Cíntia não dormia.
Andava de um lado para o outro no apartamento como um animal encurralado. O silêncio não a acalmava — a enlouquecia. Márcio não ligava. Não mandava mensagens. Não aparecia.
Ela não estava acostumada a ser ignorada.
Pegou o celular pela centésima vez e encarou a tela vazia. O reflexo que via ali não era o da mulher confiante que sempre foi. Era o de alguém perdendo o controle.
— Isso não pode acabar assim — murmurou, com os dentes cerrados.
Foi então que a ideia nasceu. Não como um plano bem pensado, mas como um instinto desesperado.
Ela parou. Respirou fundo.
Sorriu.
— Grávida… — disse em voz alta, testando a palavra.
O sorriso aumentou.
Horas depois, Arnaldo apareceu no apartamento, aflito, olhos fundos, culpa m*l disfarçada.
— Você sumiu — disse ele. — Eu tentei te ligar.
Cíntia cruzou os braços. — Eu precisava pensar.
Ele se aproximou. — A gente precisa decidir o que vai fazer agora.
Ela o encarou com frieza. — Eu já decidi.
— Decidiu o quê?
Cíntia respirou fundo, teatral. — Eu estou grávida.
O mundo pareceu girar.
— O quê?! — Arnaldo empalideceu. — Mas… mas isso é meu?
Ela desviou o olhar de propósito. — Não.
— Como assim, não?! — ele elevou a voz. — Você só estava comigo!
Cíntia se aproximou, baixa e venenosa: — Eu vou dizer que é do Márcio.
Arnaldo recuou, chocado. — Você enlouqueceu?!
— Não. — Ela sorriu. — Eu estou lutando pelo que é meu.
— Isso é mentira! — ele gritou. — Isso vai destruir todo mundo!
— Já destruiu — ela respondeu fria. — E se eu cair, não caio sozinha.
Arnaldo passou as mãos pelos cabelos, desesperado. — Você não pode fazer isso comigo.
— Posso. E vou.
No dia seguinte, Cíntia foi até Márcio.
Vestia-se de forma simples, quase apagada. Olhos inchados. Voz frágil. A máscara perfeita.
— Eu preciso falar com você — disse, quando ele abriu a porta.
Márcio a olhou por alguns segundos. Algo nela não despertava mais nada.
— Fala.
Ela respirou fundo, como se fosse desmaiar. — Eu estou grávida.
O silêncio caiu pesado.
— Não acredito em você — ele respondeu, direto.
A frase a atingiu como um t**a.
— É seu, Márcio — insistiu, forçando lágrimas. — Eu errei, mas isso muda tudo. A gente pode consertar…
Ele deu um passo para trás. — Não usa uma criança pra tentar me manipular.
— Você sempre quis uma família! — ela gritou. — Você vai virar as costas pro seu próprio filho?
— Eu vi você na cama com outro homem — respondeu ele, firme, com raiva contida. — Não insulte minha inteligência.
Cíntia perdeu o controle. — Você vai se arrepender!
— Não — disse ele. — Quem vai se arrepender é você por continuar mentindo.
Ele fechou a porta.
Cíntia ficou ali, imóvel, sentindo algo que nunca sentira antes: humilhação.
Os olhos se encheram de ódio.
— Então é guerra — sussurrou.
Horas depois, ela entrou no escritório do pai.
O homem ergueu os olhos dos papéis, impaciente. — O que foi agora, Cíntia?
Ela se sentou à frente dele, dura, fria. — Eu quero acabar com o Márcio.
Ele arqueou a sobrancelha. — Por quê?
— Porque ele me rejeitou — respondeu sem rodeios. — E ninguém faz isso comigo.
O pai a observou em silêncio por alguns segundos. — O que você quer?
— Que ele perca o emprego. O nome. A reputação.
O homem recostou-se na cadeira. — Isso tem um preço.
Cíntia sorriu. Um sorriso vazio. — Eu pago.
Naquele momento, ela não queria amor.
Queria vingança.
E enquanto Márcio tentava reconstruir a própria dignidade, Cíntia descia mais um degrau — levando consigo uma mentira grande o bastante para destruir quem ousasse seguir em frente sem ela.