Se fosse dias atrás, ele teria chorado de felicidade.
Márcio sabia disso.
Sentado sozinho em sua sala, com a cidade se movendo indiferente do lado de fora da janela, ele deixou a memória voltar. Dias atrás, ouvir a palavra gravidez teria significado futuro, continuidade, família. Teria sido o homem mais feliz do mundo.
Dias atrás, ele teria se ajoelhado.
Teria abraçado.
Teria prometido o impossível.
Mas agora…
Agora aquela palavra só lhe causava nojo.
Não pela ideia de um filho — nunca por isso —, mas pela boca de onde ela saiu. Pela mentira. Pela tentativa desesperada de aprisioná-lo novamente em algo que o destruiu.
— Como tudo muda tão rápido… — murmurou.
Ele voltou ao trabalho. Sempre ao trabalho.
Era a única coisa que ainda obedecia à lógica. O único lugar onde ele conseguia silenciar os pensamentos. Passava horas analisando contratos, resolvendo pendências, aceitando tarefas que não eram suas. Não saía mais. Não aceitava convites. Não respondia mensagens.
Perdera a mulher que amava.
Perdera o melhor amigo.
E isso doía mais do que admitia.
Às vezes, no meio da madrugada, a lembrança de Arnaldo vinha como um soco inesperado. As risadas, os planos, as conversas banais. Não era só a traição — era o luto por alguém que nunca existiu de verdade.
Márcio passou a comer m*l. Dormir pouco. Viver no automático.
Foi numa dessas noites, olhando a tela do computador sem enxergar nada, que percebeu: estava se perdendo.
E lembrou-se dos pais.
Do café forte de Melissa.
Do silêncio acolhedor de Osvaldo.
Da lanchonete simples que sempre o esperava sem cobrar explicações.
Sentiu vergonha. Não deles.
De si mesmo.
Pegou o celular, digitou, apagou. Respirou fundo.
No dia seguinte, bateu à porta da sala de Dona Solange.
— Entra — ela disse, sem levantar os olhos.
Márcio sentou-se à frente dela, sério. — Eu queria te pedir uma coisa.
Ela finalmente o encarou. — Fala.
— Eu preciso trabalhar de casa por um tempo. Cinco dias por semana. — Ele hesitou. — Quero ficar mais perto dos meus pais.
Dona Solange não respondeu de imediato. Observou-o com atenção. Viu as olheiras. A rigidez dos ombros. O cansaço que ele tentava esconder.
— Demorou — ela disse por fim.
Márcio franziu a testa. — Como assim?
— Demorou pra entender que sucesso nenhum vale se você perde a si mesmo no processo. — Ela respirou fundo. — Você pode trabalhar de casa. Mas com uma condição.
— Qual?
— Que você viva também. — Ela se inclinou para frente. — Que almoce com seus pais. Que durma. Que se lembre de quem você é.
Ele sentiu algo apertar na garganta. — Obrigado.
— Não me agradeça — respondeu Solange. — Se cure.
Naquela noite, Márcio voltou para a casa dos pais.
Melissa abriu a porta surpresa. — Filho?
Ele sorriu cansado. — Posso ficar uns dias?
Ela não respondeu. Apenas o puxou para dentro e o abraçou como quando ele era menino.
Osvaldo observou em silêncio, com os olhos marejados.
Naquele instante, Márcio entendeu algo simples e profundo:
Amor não é quem promete o futuro.
É quem permanece quando tudo desmorona.
E, sem saber, enquanto ele se reconstruía entre paredes simples e afeto verdadeiro, o destino começava a alinhar algo que não vinha da mentira…
mas da verdade.