O que teria sido?

550 Words
Se fosse dias atrás, ele teria chorado de felicidade. Márcio sabia disso. Sentado sozinho em sua sala, com a cidade se movendo indiferente do lado de fora da janela, ele deixou a memória voltar. Dias atrás, ouvir a palavra gravidez teria significado futuro, continuidade, família. Teria sido o homem mais feliz do mundo. Dias atrás, ele teria se ajoelhado. Teria abraçado. Teria prometido o impossível. Mas agora… Agora aquela palavra só lhe causava nojo. Não pela ideia de um filho — nunca por isso —, mas pela boca de onde ela saiu. Pela mentira. Pela tentativa desesperada de aprisioná-lo novamente em algo que o destruiu. — Como tudo muda tão rápido… — murmurou. Ele voltou ao trabalho. Sempre ao trabalho. Era a única coisa que ainda obedecia à lógica. O único lugar onde ele conseguia silenciar os pensamentos. Passava horas analisando contratos, resolvendo pendências, aceitando tarefas que não eram suas. Não saía mais. Não aceitava convites. Não respondia mensagens. Perdera a mulher que amava. Perdera o melhor amigo. E isso doía mais do que admitia. Às vezes, no meio da madrugada, a lembrança de Arnaldo vinha como um soco inesperado. As risadas, os planos, as conversas banais. Não era só a traição — era o luto por alguém que nunca existiu de verdade. Márcio passou a comer m*l. Dormir pouco. Viver no automático. Foi numa dessas noites, olhando a tela do computador sem enxergar nada, que percebeu: estava se perdendo. E lembrou-se dos pais. Do café forte de Melissa. Do silêncio acolhedor de Osvaldo. Da lanchonete simples que sempre o esperava sem cobrar explicações. Sentiu vergonha. Não deles. De si mesmo. Pegou o celular, digitou, apagou. Respirou fundo. No dia seguinte, bateu à porta da sala de Dona Solange. — Entra — ela disse, sem levantar os olhos. Márcio sentou-se à frente dela, sério. — Eu queria te pedir uma coisa. Ela finalmente o encarou. — Fala. — Eu preciso trabalhar de casa por um tempo. Cinco dias por semana. — Ele hesitou. — Quero ficar mais perto dos meus pais. Dona Solange não respondeu de imediato. Observou-o com atenção. Viu as olheiras. A rigidez dos ombros. O cansaço que ele tentava esconder. — Demorou — ela disse por fim. Márcio franziu a testa. — Como assim? — Demorou pra entender que sucesso nenhum vale se você perde a si mesmo no processo. — Ela respirou fundo. — Você pode trabalhar de casa. Mas com uma condição. — Qual? — Que você viva também. — Ela se inclinou para frente. — Que almoce com seus pais. Que durma. Que se lembre de quem você é. Ele sentiu algo apertar na garganta. — Obrigado. — Não me agradeça — respondeu Solange. — Se cure. Naquela noite, Márcio voltou para a casa dos pais. Melissa abriu a porta surpresa. — Filho? Ele sorriu cansado. — Posso ficar uns dias? Ela não respondeu. Apenas o puxou para dentro e o abraçou como quando ele era menino. Osvaldo observou em silêncio, com os olhos marejados. Naquele instante, Márcio entendeu algo simples e profundo: Amor não é quem promete o futuro. É quem permanece quando tudo desmorona. E, sem saber, enquanto ele se reconstruía entre paredes simples e afeto verdadeiro, o destino começava a alinhar algo que não vinha da mentira… mas da verdade.
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