Alicia narrando
Se alguém me falasse há três meses que eu estaria morando no Rio de Janeiro, no morro do Vidigal, cercada por turista gringo, barulho de moto subindo ladeira e um monte de gente diferente passando por mim todo dia… eu iria rir na cara da pessoa.
Porque minha vida sempre foi pequena.
Pequena no sentido literal mesmo. Cidade pequena. Interior de São Paulo. bairro calmo. Todo mundo conhecendo todo mundo. A padaria da dona Célia na esquina. As fofocas chegando antes mesmo da pessoa fazer a coisa. E eu? Sempre presa naquela rotina simples .
Até tudo mudar. A morte do meu pai virou minha vida do avesso tão rápido que às vezes ainda parece mentira. Tem dias que acordo achando que vou ouvir ele fazendo café cedo ou reclamando do rádio alto da vizinha. Mas aí lembro que ele não esta mais aqui pra me dar o abraço de bom dia ,fazer aquele cafezinho cheiroso , me aconselhar ou ficar so aproveitando a companhia um do outro em um domingo de manhã na nossa pescaria que era de lei . As lembranças vem a tona e dói demais .
Meu pai era tudo que eu tinha na minha vida . Minha mãe morreu no meu parto , só conheci por foto , ela era muito bonita e lembra muito a minha tia . No entanto sempre fomos nós dois. Só nós.
Até ele partir também. Depois disso fiquei sem chão. Sem rumo. Sem saber o que fazer naquela cidade onde cada canto lembrava ele.
Foi aí que minha tia Celeste me chamou para vir morar com ela aqui no Rio . Ela é a irmã mais velha da minha mãe. A ovelha rebelde da família que largou o interior ainda nova pra viver no Rio. Eu m*l tinha contato com ela antes disso, mas mesmo assim foi a única pessoa que apareceu pra me estender a mão. Meus avós maternos eu nunca vi pessoalmente, eles se negaram a conviver comigo me culpam por minha mãe ter morrido , mudaram de bairro , nunca quiseram saber de mim . Hoje em dia eu não sofro mais com isso . Meu pai me criou me orientando que nada foi minha culpa, que infelizmente foi uma fatalidade, um erro médico talvez que nunca foi investigado , minha mãe morreu porque Deus achou graça em recolher ela. Eu cresci ouvindo isso . E então quando minha tia me chamou para vir morar com ela , eu não pensei duas vezes. “Vem pro Rio. Recomeça.”
E foi exatamente isso que eu fiz, arrumei minhas coisas , pedi demisão do mercadinho onde eu trabalhava , aluguei a casinha onde eu cresci e fui criada pelo meu heroi, e viajei kilometros sem olhar para trás . Eu precisava recomeçar em outro lugar , respirar novos ares , ficar ali só ia me fazer sofrer mais ainda .
E agora estou aqui no rio de janeiro morando com a minha tia e sua filhinha kiara de apenas oito aninhos. As duas são uns amores, a minha priminha e fruto de um relacionamento que não deu certo. Minha tia tem sido uma inspiração de força, de alegria , olho pra ela e penso muito na minha mãe. Fico até emocionada de pensar.
Enfim ja estou aqui a quase um mês. No começo fiquei assustada pra caramba. O Vidigal é completamente diferente de tudo que já vivi. Aqui tudo parece intenso demais. Vivo demais.Tem música em horário que no interior o povo já tava dormindo faz horas. Tem gente andando na rua o tempo inteiro. Moto passando. Criança correndo. Turista tirando foto de tudo como se tivesse descoberto outro planeta. E sabe oque é engraçado? Eu amei esse lugar. Eu acho tudo uma novidade , sempre fui curiosa , as cores daqui me chamam atenção, as vielas tem muitos grafites , e eu ando olhando tudo com admiração. Minha tia diz que eu preciso tomar cuidado que viver aqui não é conto de fadas e realmente não é, mas não sei ser m*l educada , sempre cumprimentei todos onde morava com sorriso no rosto , eu não posso ser diferente.
A vista daqui parece coisa de filme. Às vezes eu paro no meio da subida só pra olhar o mar lá no fundo e penso “Caracas … eu moro aqui agora.” E Ainda soa estranho.
Minha tia vive dizendo que eu fico olhando tudo igual criança encantada.E talvez eu fique mesmo. Porque apesar de tudo… apesar da dor… pela primeira vez em muito tempo eu sinto que minha vida, teve uma nova emoção.
Consegui um emprego. Não é o que eu sonho pra mim , mas ser recepcionista no Postinho já é um passo . Estou feliz que nem ligo de subir metade da comunidade a pé todos os dias tarde da noite , não tenho medo , ja enfrentei cobra no meio do mato , lendas local e até um homem que um dia me seguiu enquanto voltava da escola. Dei uma madeirada nele , o homem correu pro meio do mato sem pensar duas vezes .
— Bom dia, Alicia! seu Jorge da vendinha me cumprimentou , tenho pra mim que ele gosta da minha tia e ela nem dá bola..
— Bom diaaa! A filha dele sorriu pra mim enquanto varria a calçada. E eu respondi com simpatia os dois .
É estranho como as pessoas daqui parecem acolher rápido. No interior todo mundo conhece sua vida , te olha estranho , te julga e faz fofoca. Aqui muitos já pergunta de onde você veio , pra onde você vai … mas ainda assim fazem se sentir parte.
Passei a mão no cabelo tentando afastar o calor enquanto continuava descendo o morro , cortando pelas vielas que minha tinha me ensinou pra chegar no postinho.
Tinha som vindo de algum bar mais acima. Cheiro de almoço saindo das casas. Um grupo de turistas tirando foto como se nunca tivessem visto uma paisagem bonita antes. E eu passando no meio. Sorrindo sozinha igual boba. Porque no eu via beleza nesse lugar que sempre ouvi falar na TV, nos noticiários e agora tudo era tão diferente que meus olhos enchia. Mas tem alguma coisa que me deixa arrepiada e que parece que sempre tem alguém me olhando , impressão minha ou talvez sei lá deve ser só pelo fato de não conhecer o lugar direito.
Quando saí da última viela pra rua principal onde fica o postinho , vi um grupo de meninos armados , isso sim me deixava um pouco desconfortável, mas mesmo assim como sou curiosa , e as vezes me detesto por isso , continuei olhando ... O cara loiro armado, com ouro até nos dentes que me fez várias perguntas no dia que cheguei , ficou me encarando e só aí eu percebi o semblante frio e sério. Eles tinham parado de conversar , ficaram me olhando como se eu fosse sei lá oque ? eu desviei o olhar em seguida . Mas dei bom dia, alguns responderam sorrindo , eu senti a malícia na voz , outros não responderam e segui meu caminho para mais um dia de trabalho.
Já faz quinze dias que estou trabalhando, e isso me ajuda a distrair a cabeça, aqui quase nunca fico parada . As horas passa rápido, mesmo com bastante trabalho eu fico animada .
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