Capítulo 1 — O Baile

686 Words
Lara sempre soube que sua vida seria diferente. Não porque tivesse dinheiro, contatos ou qualquer facilidade. Muito pelo contrário. Aos dezoito anos, ela morava com a mãe em uma casa simples no Morro da Maré, dividia um quarto pequeno e sabia exatamente quanto custava cada coisa dentro de casa. Mas Lara tinha uma coisa que ninguém conseguia tirar dela: sonhos. Seu maior sonho era ser enfermeira. — Um dia eu ainda vou sair daqui formada — dizia ela para a mãe, enquanto estudava na mesa da cozinha. Dona Cida sorria. — Eu acredito em você, minha filha. Só quero que você tenha cuidado. Esse lugar mudou muito. Lara sabia. Apesar de ter crescido no morro, nunca se envolvera com o movimento. Não conhecia os homens, não frequentava os lugares onde eles ficavam e fazia questão de cuidar da própria vida. Sua melhor amiga, Amanda, era completamente diferente. — Lara, pelo amor de Deus! Você tem dezoito anos, não oitenta! — Eu tenho que estudar. — Estuda amanhã. — Tenho prova. — Depois da prova você estuda. — Amanda... — Hoje tem baile. Você vai comigo. Lara soltou um suspiro. — Eu não gosto de baile. — Você não gosta é de sair de casa. Amanda era casada com Marcos, conhecido como Brutos, um dos homens mais próximos de Lucas, o Caveira, dono do morro. Lara conhecia o nome. Todo mundo conhecia. Lucas tinha vinte e nove anos e era um dos homens mais temidos da região. Mulherengo, rico e poderoso dentro daquele mundo, ele tinha fama de não se apegar a ninguém. — Eu não quero problema, Amanda. — Você vai comigo. Qual é o problema? Depois de muita insistência, Lara acabou cedendo. Horas mais tarde, as duas chegaram ao baile. As luzes coloridas iluminavam o lugar, a música fazia o chão vibrar e dezenas de pessoas conversavam enquanto dançavam. Lara se sentia deslocada. — Relaxa — Amanda disse, rindo. — Ninguém tá olhando pra você. Lara olhou ao redor. — Eu tenho certeza de que estão. — Você é paranoica. Foi quando Amanda ficou séria. — Ih... — O quê? Amanda apontou discretamente. — O Caveira. Lara virou o rosto. Lucas estava encostado perto de alguns homens. Camisa escura, corrente no pescoço, expressão fechada. Ele conversava com Brutos, mas seus olhos percorriam o baile. Até encontrarem Lara. Lucas ficou alguns segundos olhando. — Quem é aquela ali? — perguntou. Brutos acompanhou seu olhar. — Amiga da Amanda. — Nunca vi. — Ela não anda com a gente. Lucas observou mais um pouco. — Tá se achando. Brutos riu. — Você nem conhece a garota. — Olha pra cara dela. Tá com cara de patricinha que subiu aqui pra conhecer a favela. Do outro lado, Lara percebeu que ele estava olhando. — Amanda... — Não olha. — Quem é ele? — Lucas. — O Caveira? Amanda assentiu. O coração de Lara acelerou. Lucas percebeu. E sorriu de canto. — Ela tá com medo — comentou. — Normal — respondeu Brutos. — Tu tem uma cara de poucos amigos. Lucas ignorou. Pouco depois, ele passou perto das duas. Lara abaixou os olhos. — E aí — ele falou. Amanda respondeu: — E aí, Lucas. Ele olhou diretamente para Lara. — Você é amiga dela? Lara levantou os olhos. — Sou. — Qual teu nome? Ela hesitou. — Lara. — Lara... Ele repetiu o nome como se estivesse experimentando a palavra. — Prazer. — Prazer. Lucas continuou olhando. — Você não parece gostar muito de estar aqui. — E você não parece gostar muito de conversar. Amanda segurou uma risada. Lucas ergueu a sobrancelha. — Qual foi? — Nada. — Então tá. Ele saiu. Lara soltou o ar que nem percebera estar prendendo. Amanda começou a rir. — Você é maluca? — Ele perguntou meu nome. — Você respondeu como se estivesse brigando com ele. — Eu fiquei nervosa! Amanda balançou a cabeça. — Isso ainda vai dar problema. Lara não respondeu. Mas, naquela noite, pela primeira vez, percebeu que talvez seu maior problema não fosse o baile. Era o homem que tinha acabado de descobrir seu nome.
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