Lara sempre soube que sua vida seria diferente.
Não porque tivesse dinheiro, contatos ou qualquer facilidade. Muito pelo contrário. Aos dezoito anos, ela morava com a mãe em uma casa simples no Morro da Maré, dividia um quarto pequeno e sabia exatamente quanto custava cada coisa dentro de casa.
Mas Lara tinha uma coisa que ninguém conseguia tirar dela: sonhos.
Seu maior sonho era ser enfermeira.
— Um dia eu ainda vou sair daqui formada — dizia ela para a mãe, enquanto estudava na mesa da cozinha.
Dona Cida sorria.
— Eu acredito em você, minha filha. Só quero que você tenha cuidado. Esse lugar mudou muito.
Lara sabia.
Apesar de ter crescido no morro, nunca se envolvera com o movimento. Não conhecia os homens, não frequentava os lugares onde eles ficavam e fazia questão de cuidar da própria vida.
Sua melhor amiga, Amanda, era completamente diferente.
— Lara, pelo amor de Deus! Você tem dezoito anos, não oitenta!
— Eu tenho que estudar.
— Estuda amanhã.
— Tenho prova.
— Depois da prova você estuda.
— Amanda...
— Hoje tem baile. Você vai comigo.
Lara soltou um suspiro.
— Eu não gosto de baile.
— Você não gosta é de sair de casa.
Amanda era casada com Marcos, conhecido como Brutos, um dos homens mais próximos de Lucas, o Caveira, dono do morro.
Lara conhecia o nome.
Todo mundo conhecia.
Lucas tinha vinte e nove anos e era um dos homens mais temidos da região. Mulherengo, rico e poderoso dentro daquele mundo, ele tinha fama de não se apegar a ninguém.
— Eu não quero problema, Amanda.
— Você vai comigo. Qual é o problema?
Depois de muita insistência, Lara acabou cedendo.
Horas mais tarde, as duas chegaram ao baile.
As luzes coloridas iluminavam o lugar, a música fazia o chão vibrar e dezenas de pessoas conversavam enquanto dançavam.
Lara se sentia deslocada.
— Relaxa — Amanda disse, rindo. — Ninguém tá olhando pra você.
Lara olhou ao redor.
— Eu tenho certeza de que estão.
— Você é paranoica.
Foi quando Amanda ficou séria.
— Ih...
— O quê?
Amanda apontou discretamente.
— O Caveira.
Lara virou o rosto.
Lucas estava encostado perto de alguns homens. Camisa escura, corrente no pescoço, expressão fechada.
Ele conversava com Brutos, mas seus olhos percorriam o baile.
Até encontrarem Lara.
Lucas ficou alguns segundos olhando.
— Quem é aquela ali? — perguntou.
Brutos acompanhou seu olhar.
— Amiga da Amanda.
— Nunca vi.
— Ela não anda com a gente.
Lucas observou mais um pouco.
— Tá se achando.
Brutos riu.
— Você nem conhece a garota.
— Olha pra cara dela. Tá com cara de patricinha que subiu aqui pra conhecer a favela.
Do outro lado, Lara percebeu que ele estava olhando.
— Amanda...
— Não olha.
— Quem é ele?
— Lucas.
— O Caveira?
Amanda assentiu.
O coração de Lara acelerou.
Lucas percebeu.
E sorriu de canto.
— Ela tá com medo — comentou.
— Normal — respondeu Brutos. — Tu tem uma cara de poucos amigos.
Lucas ignorou.
Pouco depois, ele passou perto das duas.
Lara abaixou os olhos.
— E aí — ele falou.
Amanda respondeu:
— E aí, Lucas.
Ele olhou diretamente para Lara.
— Você é amiga dela?
Lara levantou os olhos.
— Sou.
— Qual teu nome?
Ela hesitou.
— Lara.
— Lara...
Ele repetiu o nome como se estivesse experimentando a palavra.
— Prazer.
— Prazer.
Lucas continuou olhando.
— Você não parece gostar muito de estar aqui.
— E você não parece gostar muito de conversar.
Amanda segurou uma risada.
Lucas ergueu a sobrancelha.
— Qual foi?
— Nada.
— Então tá.
Ele saiu.
Lara soltou o ar que nem percebera estar prendendo.
Amanda começou a rir.
— Você é maluca?
— Ele perguntou meu nome.
— Você respondeu como se estivesse brigando com ele.
— Eu fiquei nervosa!
Amanda balançou a cabeça.
— Isso ainda vai dar problema.
Lara não respondeu.
Mas, naquela noite, pela primeira vez, percebeu que talvez seu maior problema não fosse o baile.
Era o homem que tinha acabado de descobrir seu nome.