Capítulo 4
Geórgia
Olho para o meu reflexo no espelho, aprendi a me amar da forma que eu sou, uma luta bem complicada e desgastante. Fora dos padrões altos da sociedade, eu já vivi momentos bem complicados em minha vida. Ainda ouço muitos comentários maldosos e sem sentido vindo de pessoas que não são o melhor exemplo de virtude e perfeição. Sempre são comentários e conselhos que eu não pedi, mas acaba sendo ofertado sem eu ter a menor vontade de escutar. Aquelas questões que ficam martelando a sua cabeça após você ouvir comentários cheios de veneno e que você tem certeza que é somente para te desestabilizar.
O que o meu peso interfere na vida de outra pessoa? De verdade me faço essa pergunta sempre, o pior disso tudo e que nunca obtive resposta. Não tem porque ninguém se meter na minha vida e querer falar algo que eu posso ou não aceitar.
O mais engraçado quando os comentários vêm cheios de veneno como: “Com o rosto tão bonito, mas o corpo deixa a desejar...”, “Também trabalha em um restaurante, deve comer tudo que vê pela frente!”, mas os piores comentários vinham quando eu estava ao lado de Cris. Nossa, eu quase infarto de raiva e tristeza...
“Não sei o que ele viu naquela gorda!”
“Ele podia estar cercado de mulheres maravilhosas e está lá com aquela baleia!”
Fora outros comentários bem cruéis e cheios de julgamento, sem a devida preocupação para o ser humano que está ouvindo isso. Meus pais são estrangeiros, eles vieram da Espanha a convite do casal King, um restaurante de frutos do mar era uma boa ideia naquele tempo, e verdadeiramente foi, pois, meus pais tem vários restaurantes com essa temática pelos Estados Unidos, somos muito bem sucedidos com os nossos empreendimentos e não devemos nada há ninguém.
Claro que isso nunca contou para eu ser chacota de uma sociedade enraizada com padrões que eu nunca vou alcançar. Eu moro em um país em que loiras, magras e de olhos azuis são o padrão das mulheres e homens, e está tudo bem para mim, mas custa me deixar em paz com o meu biotipo e a minha forma de levar a minha vida?
Cris sempre me diz que isso tudo é uma grande besteira, que eu não deveria ligar para nada disso, que opinião é igual ao c* cada um tem o seu e deveria manter em off o que acha da vida alheia. Meu peso não é da conta de ninguém e que eu sou gostosa da forma que sou. Claro que as palavras dele me tiravam da bad muitas vezes, mas lá no fundo, bem lá fundo eu queria ser essas meninas que todos desejam. Quem dera esse pensamento fosse de pelo menos boa parte das pessoas que habitavam a face da terra.
Eu nasci nos Estados Unidos, meus traços são de origem espanhola, então definitivamente se enturma por aqui e bem mais difícil. Definitivamente não tem como mudar a minha biologia, quando criança, eu queria ser loira de olhos azuis, mas sabemos que isso é praticamente impossível e não seria eu de verdade. Então me aceitar foi o caminho, mesmo tortuoso, era o meu corpo e eu era assim.
Posso afirmar que não foi nada fácil chegar nessa conclusão, não depois de ouvir tudo que ouvi durante toda a minha vida.
Me amar da forma que estou agora foi bem difícil, foram muitas dietas, choros e remédios controlados que quase me mataram.
O que mudou realmente a minha vida foi ver meu melhor amigo correndo comigo em seus braços para um hospital, gritar como louco na emergência por ajuda, ouvir meus pais desesperados querendo saber notícias minhas. Eles estavam desesperados acham que eu tinha morrido, que tinham perdido uma filha.
Eu quase me entreguei à morte por tomar remédios que aceleraram meu coração, eu quase perdi a minha vida por causa de algo que não era culpa minha, meu biotipo não era de uma pessoa magérrima.
Nossa, quando eu acordei três dias depois naquele hospital frio e estéril, eu nem consegui olhar na cara do meu amigo, Cris dormiu todos aqueles dias ao meu lado no hospital.
Ele os meus pais ficaram no hospital durante três dias esperando que eu acordar e poderem ver que eu estava bem. Meu irmão ficou louco e quis processar o farmacêutico que me vendeu os remédios sem prestação médica... aquilo tudo era uma grande bola de neve e uma loucura.
A cobrança de ter pessoas lindas e belas realmente me tirava do eixo, o bullying era brutal na escola e na faculdade somente piorou, eu já estava tão desgostosa da vida que quis acabar com a dor.
Meus pais são lindos e super descolados, meu irmão é um ótimo chefe de cozinha, mas é rato de academia, ele não é feliz se não passar pelo menos duas horas na academia, e eu, bom, eu era o patinho feio da família, sempre acima do peso e odiando com todas as forças academia.
Eu sou alta, mas sempre vivo em uma guerra infinita com a balança, aliás eu vivia em uma guerra onde sempre saía como perdedora e quase perdi tudo.
Olho as tatoos espalhadas em meu corpo, me lembrando que eu queria ser diferente, me blindar do mundo, mas na verdade eu sempre tive uma autoestima baixa e se não fosse os anos de terapia, talvez eu nem estivesse aqui. Eu criei uma áurea mas n***a, mas dura, sem espaço para demonstrar meu emocional frágil, essa foi a minha forma de sobreviver na vida e no meu entorno.
Deixo os pensamentos trágicos de uma Georgia que não me orgulho, reviver esse passado ainda doí, não é fácil dizer que você foi fraca e quase sucumbiu a dor. Então pensar no futuro e mais bonito e animador.
Coloco uma roupa fresquinha, eu tinha certeza que o dia hoje é um dia de bastante calor. Então optei por uma coisa mais neutra, um vestido mais leve para ficar em casa vendo filme.
Vou para a minha cozinha, queria fazer um belo café da manhã para começar o dia, querendo ou não, tenho que tomar coragem e contar para Cris sobre Paris e na verdade não sabia como falar sobre isso.
Começo pelo café preto, faço torradas, salada de frutas, bacon e ovos mexidos. Tudo já estava adiantando quando vejo saindo do meu quarto todo sonolento e com um sorriso lindo, a minha dor de cabeça ambulante.
- Como não dormir todos os dias aqui? Acordar com o café da manhã pronto não tem preço, é como eu pedir para não ver o sol todos os dias. – Reviro os olhos.
- Sabemos qual é o seu verdadeiro interesse aqui em minha casa. – Ele se senta na mesa super ofendido pelas minhas palavras.
- Você não vive sem mim, garota... - Cris me olha - Você vai sair comigo...
Eu paro até o que estava fazendo, me sento de frente a ele e espero uma explicação. Folgas sagradas e não troco por nada.
- Vamos a festa da minha irmã... – Eu já me levanto irritada.
- Ah! Não, vai embora, não vou a lugar nenhum com você, vai ver a sua família sozinho. – Vou para a pia lavar a louça que sujei.
Sinto que quando ele fica atrás de mim, seu cheiro é dos meus lençóis e Cris, uma combinação perfeita e me deixa tão curiosa, queria saber como seria nossos cheiros misturados.
- Por favor... – Ele me abraça e a minha vontade é de chorar por Cris nunca perceber o que faz comigo toda a vez que ele é carinhoso.
O modo que me deixa tão esperançosa e depois tão i****a para querer algo que nunca vou ter.
- Para a sua família falar que eu e você fazemos um lindo casal, que sou boba de ser sua amiga e não tirar casquinha sua ou que você é um desgraçado por não me assumir como a sua namorada? – Cris faz uma cara safada.
- Porque você é a minha melhor amiga e pensa igual a mim, sabe que não suporto minhas cunhadas. Elas arrotam um dinheiro que não tem famílias perfeitas, mas estão sempre brigando debaixo dos panos. – Eu as odeio, mas nunca falo para Cris não ter mais motivos para brigar com os seus irmãos. – Renata vai ficar magoada com você, ela falou que espera a parceira dela de tequila. Vamos para na minha irmã e anoite vamos no parque de diversões, chegou um na cidade... – Suspiro pois tenho que aproveitar os momentos que ainda estou no país, depois se voltarei ter momentos assim daqui a três ou quatro meses.
Suspiro frustrada...
- Ok, vamos, depois eu preciso falar com você... – O telefone dele toca.
Não consigo falar o que tanto preciso novamente, eu nem sei como dizer a Cris que vou ficar fora alguns meses.
Ele faz a pior cara do mundo e avisa que precisa atender, fico olhando Cris bravo no telefone, seus cachos loiros estão bagunçados, seu peito nu está bem na minha cara esfregando o quanto é gostoso e as suas mãos grandes ficam agitadas no ar conforme ele briga com alguém no outro lado da linha.
Eu sou louca por ele e está ficando cada vez mais difícil disfarçar o quanto eu o quero e não posso ter.