DIA SEGUINTE
Já se passava das 15h da tarde. Eu estudava pela manhã então já tinha ido e voltado, obviamente. John estava comigo, me ajudando a escrever uns artigos. Drake, para minha felicidade, não estava em casa. Mas também pouco me importava o que ele estava fazendo.
— E então que horas vai ser o cinema com a sua mãe? — Perguntou.
— Por volta das seis. E seu date?
— Nove.
Eu suspirei.
— E você quando vai sair em um date? Quer que eu crie um perfil de tinder para você? — Disparou e eu empurrei ele de leve com as mãos.
— Não preciso disso. — Respondo, na defensiva.
— Por que? Você é tão evoluída que não precisa beijar na boca?
Quando John me fez essa pergunta eu fiquei muito magoada porque foi como se ele não me conhecesse, como se ele não soubesse meus motivos, meu jeito, como se não me entendesse.
— As vezes você fala igual ao meu irmão! — Retruquei, claramente chateada.
Eu sabia que ele não ia sair e também não iria expulsa-lo então eu mesma fiz as honras e fui embora da minha própria casa e deixando ele sozinho. Se ele não entendesse aquilo então não sei o que ele entenderia.
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Quando eu retornei para casa, o John não estava mais lá. Fui ao shopping com a minha mãe e assistimos a um filme maravilhoso. Enquanto começamos a comer na praça de alimentação, ela disparou:
— Você está bonita hoje.
Eu sorri. Ela era uma pessoa gentil, mas de alguma forma eu senti aquilo como uma alfinetada.
— Eu não estou todos os dias? — Retruquei colocando uma batata frita na boca.
Ela revirou os olhos.
— Você deveria tentar ser mais gentil com seu irmão antes que chegue o dia dele voltar para a universidade.
Eu bufei.
— Mãe. Ele me irrita o tempo inteiro!
— Ele sente falta de você.
— Como a senhora não percebe, mãe? Ele está te manipulando! — Disparei. Mamãe arregalou os olhos.
— Como você pode dizer uma coisa assim do seu próprio irmão, Julie? — Disse. Tudo bem, eu talvez não tenha dosado nas palavras, mas no momento era exatamente isso que eu sentia, que ele estava manipulando ela como fazia com todos a sua volta, apenas para conseguir o que quer, não era diferente com o John, ele o manipulava pois sabia que isso me tirava a paz.
Eu abaixei minha cabeça. Não queria dar-lhe motivos para parecer ciumenta. Isso não era ciúmes, era sincero. Eu enxergava as coisas que mais ninguém via. Mas talvez porque ele só fazia questão de demonstrar para mim o quanto era cínico, isso porque ele sabia que eu seria louca para todo mundo caso resolvesse dizer.
De repente meu celular começa a tocar.
— Oi! — John diz, na chamada de vídeo, todo sorridente, parecia que estava dentro do carro dele, em uma viela escura.
Já se passavam das 21h00.
— Estou indo me encontrar com a gata. Na verdade, estou aqui na frente da casa dela esperando ela sair. — Afirmou.
Eu revirei os olhos. Patético.
— Certo, e o que eu tenho a ver com isso? Você mesmo disse que eu sou evoluída demais.
— Eu te conheço, sei que você é. Não posso ir sem sua benção.
Aquilo de certa forma me arrancou um sorriso. Mamãe se levantou da mesa e foi até o balcão do restaurante, provavelmente indo pagar a conta.
— Olha... Um sorriso.
— John, eu ainda estou com raiva de você! — Disparei, irritada.
Ele gargalhou.
— Sério? Por causa de uma brincadeira?
Eu fiz que sim com a cabeça. Alguém abre a porta do carona do carro, John olha para o lado, abre um sorriso como se tivesse amado o que viu. Depois retorna o olhar para mim, dá uma piscadela e desliga.
O dia seguinte foi mais difícil de encarar, estava com enxaqueca, com raiva do John, e irritada com o Drake. Mas fiquei feliz porque era sábado e eu não ia precisar ir para a faculdade. Hoje seria o nosso aniversário de amizade, e faríamos um jantar. Eu não sei cozinhar então fiz a sobremesa. John ficou responsável por cozinhar o prato principal. Ele havia aprendido a cozinhar quando seus pais ainda eram casados, mas já não tinham muita cumplicidade, então uma babá tomava conta dele durante o dia e o ensinou tudo o que ele sabe hoje sobre cozinha.
Eu lembro da primeira vez que John cozinhou para mim. Eu lembro de ter achado tudo fantástico e quando ele me explicou quem o havia ensinado disse: "Está vendo só? Até das coisas ruins pode sair algo realmente bom... Literalmente." Era assim que ele era, positivo em todas as ocasiões.
Em casa enquanto estava me arrumando — um pouco contra a minha vontade já que eu estava muito aborrecida com o Jonh — Drake fez questão de aparecer para me importunar.
— E aí? É hoje o jantar? — Perguntou, encostado na porta. Eu levantei meu olhar até ele, enquanto passava gloss e depois voltei a encarar-me no espelho.
— É. — Dei como resposta.
— Quando você vai assumir que gosta dele?
Meu queixo caiu. Eu peguei um travesseiro e corri até onde ele estava com um rosto possesso de raiva.
— O QUE ESTÁ DIZENDO? — Gritei.
Ele começou a rir instantaneamente e segurou meus braços.
— Estava só brincando, mas só por causa da sua reação, estou começando a achar que não é mentira.
— Drake, vai embora! — Ordenei, olhando no fundo dos seus olhos. Então sem dar uma palavra, ele largou meu braço e saiu.
Voltei a me arrumar tentando esquecer o que Drake dissera. Ele claramente só disse aquilo para me provocar, é óbvio que o amor que eu sinto pelo John é único e exclusivamente de amigos. Algum tempo depois, tanto meus pais quanto o Drake tinham saído de casa. Podíamos ter feito na casa do John, mas a minha sacada tem uma vista linda, e a gente combinou que seria legal aprecia-la.