Capitulo 09

1218 Words
Tairon narrando Eu tava ansioso pra c*****o. Nem vou mentir. Parecia até moleque indo encontrar a primeira namorada. Ridículo. Mas era exatamente assim que eu tava me sentindo. Passei o dia inteiro resolvendo as paradas da boca, sem conseguir me concentrar direito. Toda hora eu olhava o relógio. Toda hora eu pensava nela. Na Heloísa. De volta. No meu morro. Perto de mim. Depois de três anos. Quando deu o horário combinado, eu nem esperei ninguém me lembrar. Peguei a moto e fui direto pra casa dela. O plano era simples. Levar ela naquela lanchonete que ela adorava. Desde pequena, aquela doida era apaixonada por hambúrguer. Enquanto outras meninas queriam restaurante chique, ela queria lanche. E eu sempre acabava levando. Só de lembrar disso, eu já tava sorrindo igual i****a. Quando cheguei na casa, estranhei o silêncio. Bati na porta. Nada. Entrei, porque aquela casa era praticamente minha segunda casa desde criança. — Helô? Silêncio. — Heloísa? Nada. Fechei a porta atrás de mim. Andei pela sala. E encontrei ela. Capotada no sofá. Apagada. Dormindo igual uma pedra. Sorri sozinho. Porque, algumas coisas realmente nunca mudam. Ela sempre teve o sono mais pesado que eu já vi. — Helô. Nada. — Princesa. Nem se mexeu. — Acorda aí. Porra nenhuma. Ri baixinho. Ela devia estar esgotada. A viagem. A mudança. As emoções. A volta pro morro. Tudo isso junto derrubaria qualquer pessoa. Me aproximei do sofá. E fiquei olhando ela por alguns segundos. Dormindo. Tranquila. Em paz. Parecia até que o mundo lá fora não existia. Meu peito apertou. Porque, fazia muito tempo que eu não via ela daquele jeito. Sem medo. Sem preocupação. Só descansando. Passei a mão nos cabelos dela. Devagar. E então, tomei uma decisão. Não ia acordar ela. Me abaixei. Passei um braço por trás das costas dela. Outro por baixo das pernas. E a peguei no colo. Na mesma hora ela se mexeu. Instintivamente. Passando os braços ao redor do meu pescoço. Se aninhando em mim. Como se já soubesse que estava segura. Caralho. Aquilo acabou comigo. Porque era automático. Natural. Como se aqueles três anos, nunca tivessem existido. Subi as escadas devagar. Segurando ela com cuidado. E durante todo o caminho, fiquei olhando pra ela. Admirando. Porque a verdade, era uma só. Ela tava linda. Linda pra c*****o. Não que antes não fosse. Sempre foi. Desde pequena. Mas agora... Agora era diferente. Ela tinha crescido. Virado mulher. Os cachos enormes espalhados pelos ombros. A pele dourada. Os traços mais marcantes. O corpo mais desenhado. Tudo nela parecia perfeito. E isso, só tornava mais difícil lembrar que eu ainda tinha uma vida inteira bagunçada pra resolver. Entrei no quarto dela. E fui tomado por uma enxurrada de lembranças. Aquele quarto, tinha sido palco de metade da nossa infância. Das nossas conversas. Das nossas brigas. Das nossas risadas. Das noites em que, a gente passava horas falando besteira. Respirei fundo. E coloquei ela cuidadosamente na cama. Assim que soltou meu pescoço, ela se encolheu toda. Igual fazia quando era criança. Sorri. Peguei a coberta. Cobri ela. Ajeitei os cabelos do rosto. E sem pensar muito... Dei um beijo na cabeça dela. Demorado. Carinhoso. Do jeito que eu sempre tive vontade. — Boa noite, princesa! Falei baixinho. Ela nem se mexeu. Continuei olhando por alguns segundos. Até criar coragem de sair. Porque se eu continuasse ali, corria o risco de passar a noite inteira observando ela dormir. Fechei a porta do quarto. Desci as escadas. E antes de ir embora, peguei o rádio. — Magrinho. — Fala patrão! — Quero contenção na casa da Heloísa. — Já é! — Vinte e quatro horas. — Certo. — Qualquer movimentação estranha, me chama na hora. — Pode deixar! — Quero atenção redobrada. — Entendido. Guardei o rádio. Porque uma coisa era certa. Agora que ela voltou, eu não ia deixar nada acontecer com ela. Nada. Saí da casa. Subi na moto. E fui embora. Cheguei em casa já cansado. Ou pelo menos tentando me convencer disso. Porque na verdade eu tava era feliz. Quando entrei, encontrei Angélica na sala. Ela levantou quase imediatamente. — Amor. — Oi. — Achei que ia demorar mais. — Resolvi umas coisas. Ela sorriu. — Fiz janta. — Valeu. — Quer comer? Balancei a cabeça. — Não tô com muita fome. Ela me olhou estranho. Mas não insistiu. — Tá tudo bem? — Tô só cansado. Mentira. Eu tava era pensando na Heloísa. O tempo todo. Subi as escadas. Entrei no quarto. E me joguei na cama. Pouco depois ouvi o banheiro sendo aberto. A porta fechou. O chuveiro ligou. Fechei os olhos. Tentando não pensar. Tentando organizar minha cabeça. Mas era impossível. Minutos depois a porta do banheiro abriu novamente. E eu nem precisei olhar pra saber que Angélica tinha saído. Continuei virado para o outro lado. Até sentir ela sentando na cama. Depois deitou. Se aproximando. Ignorei. Então senti a mão dela deslizando pelo meu braço. Respirei fundo. — Tu não tava cansada? Ela riu baixinho. — Pra você eu nunca tô cansada. Fechei os olhos. Porque aquilo, era justamente o tipo de situação que eu não queria enfrentar. Não agora. Não hoje. — Não tô muito bem. O silêncio durou alguns segundos. — Tudo bem! Ela respondeu. Mas percebi a decepção. Mais uma vez. E aquilo me trouxe uma culpa desgraçada. Porque, ela não merecia isso. Mas também não merecia uma mentira. Nem eu. Nem ninguém. Virei para o lado. Fingi que estava dormindo. E pouco tempo depois realmente apaguei. --- Quando acordei, já estava amanhecendo. Angélica ainda dormia. O quarto estava silencioso. Levantei sem fazer barulho. Fui direto pro banheiro. Escovei os dentes. Tomei banho. Fiz minhas higienes. Me arrumei. E saí. Nem tomei café. Minha cabeça, já estava no trabalho. Cheguei na boca cedo. Como sempre. E encontrei Vitin organizando algumas paradas. — Fala. — Bom dia! — Organiza um baile. Ele me olhou. — Hã? — Um baile. — Do nada? — Final de semana. — Tá. — Quero um baile f**a. — Pra quê? Olhei pra ele. — Tu tá se fazendo de burro? O sorriso apareceu imediatamente. — Ah... — É. — Por causa da Helô. — Exatamente. Vitin começou a rir. — Tu tá apaixonado mesmo. — Vai trabalhar. — A Angélica não vai gostar nada disso. Apontei o dedo pra ele. — Vai tomar no cu. Ele gargalhou. — Tô falando sério. — E eu também. — Vai dar merda. — Vai organizar ou não? — Vou. — Então para de falar merda. Ele continuava rindo. Mas foi fazer o que eu mandei. Enquanto isso, eu sentei na cadeira. Peguei o rádio. Olhei a movimentação da boca. Mas minha cabeça já estava em outro lugar. No meu pai. Porque, tinha uma conversa que precisava acontecer. E acontecer logo. Desde ontem, aquela parada tava entalada. Porque depois que saí da casa da Heloísa, ele simplesmente sumiu. Desapareceu. Nem em casa apareceu. Nem na boca. Nem em lugar nenhum. Parecia até que tava adivinhando o motivo pelo qual, eu queria encontrar ele. Porque dessa vez, ele ia me explicar. Ia me explicar direitinho, como conseguiu esconder ela de mim, durante três anos inteiros. E principalmente... Porque achou que precisava proteger a Heloísa, justamente da única pessoa que sempre daria a própria vida por ela.
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