Capitulo 04

1518 Words
Tairon narrando Eu já tinha imaginado esse momento mil vezes. Mil. Durante três anos, eu pensei em como seria encontrar a Heloísa de novo. Às vezes, eu imaginava ela entrando no baile. Outras vezes, imaginava cruzando com ela em alguma rua aleatória do Rio. Teve época que eu até sonhava com isso. Mas a realidade, foi completamente diferente de tudo que eu tinha criado na minha cabeça. Porque, nada me preparou para entrar naquela casa e encontrar ela ali. Quando cheguei e vi meu pai parado na sala, a primeira coisa que pensei foi que talvez eu tivesse entendido tudo errado. Talvez ele estivesse esperando outra pessoa. Talvez não fosse ela. Talvez eu estivesse sendo i****a. Afinal, fazia três anos. Três anos sem notícias. Três anos sem ver o rosto dela. Três anos tentando aceitar, que ela provavelmente nunca voltaria. — Que tu tá fazendo aqui, coroa? — Perguntei entrando na sala. Meu pai soltou um sorriso estranho. Hoje eu percebo, que ele já estava se divertindo com a situação. — Vim trazer uma pessoa em casa. Meu coração acelerou. — Trouxe quem? — Ela voltou. Eu congelei. Na hora. Sem exagero. Meu cérebro simplesmente parou de funcionar. — Ela voltou? Meu pai não respondeu. Só apontou discretamente com a cabeça. E então eu vi. Caralho... Eu vi. Parada no canto da sala. Linda pra p***a. Os cabelos maiores. O rosto mais maduro. O corpo, que já não tinha nada da menina que foi embora daquele morro. Mas os olhos... Os olhos continuavam os mesmos. E foi exatamente ali, que eu perdi qualquer capacidade de raciocinar. Eu nem pensei. Nem por um segundo. Só fui. Atravessei aquela sala praticamente correndo. Quando dei por mim, já estava abraçando ela. Levantando ela do chão. Rodando ela no ar igual eu fazia quando a gente era mais novo. E naquele momento, nada mais importava. Nem o morro. Nem a carga. Nem os problemas. Nem a minha vida. Nada. Porque, a única coisa que eu conseguia sentir era ela. O cheiro dela. O calor dela. A delicadeza dela. Meu peito, parecia que ia explodir. Meu coração batia tão rápido, que chegava a doer. E sabe aquela sensação absurda de paz? Aquela paz que você não sente há anos e nem sabia que estava procurando? Foi exatamente isso. Eu senti paz. Pela primeira vez em muito tempo. Porque, a verdade é que eu nunca superei a ida dela embora. Nunca. Aprendi a conviver. Aprendi a seguir. Mas superar? Jamais. Quando coloquei ela no chão, fiquei olhando igual um i****a. Tentando acreditar que ela estava realmente ali. Na minha frente. De volta. Viva. Segura. Linda pra c*****o. Só teve uma coisa que me pegou. Uma coisa que eu realmente não gostei. Meu pai. Porque, bastou descobrir que eles mantinham contato para eu entender uma parada. Ele sabia. Esse tempo todo. Esse tempo inteiro ele sabia onde ela estava. E mentiu pra mim. Mentiu olhando na minha cara. Falando que não tinha notícia. Que ninguém sabia de nada. Que ela estava protegida. Eu entendo o motivo. Entendo mesmo. Tudo que ele fez foi pra proteger ela. Mas uma parte de mim, ficou p**a. Porque, ele não precisava proteger a Heloísa de mim. Nunca precisou. Eu sou a primeira pessoa a pular na frente da bala por aquela mulher. Sem pensar duas vezes. Se alguém encostar nela, eu mato. Simples assim. Sempre foi assim. Sempre vai ser. Mas deixei quieto. Porque, discutir aquilo agora não mudaria nada. Ela estava de volta. Era isso que importava. Depois que saí da casa dela, fui direto pra boca. E acho que passei o caminho inteiro sorrindo igual um retardado. Porque quando cheguei lá, o Vitin percebeu na hora. — Ih... Revirei os olhos. — Que foi? — Tá sorrindo por quê? — Não tô sorrindo. — Tá sim. — Vai se f***r. Ele começou a rir. — Era ela mesmo? Parei por alguns segundos. E mesmo tentando bancar o sério, acabei sorrindo de novo. — Era. O sorriso dele aumentou. — c*****o. Balancei a cabeça concordando. — Ela voltou. — Finalmente. Eu me joguei na cadeira. Vitin sentou na frente da mesa. Me observando. — Tá feliz pra c*****o, né? — Pra c*****o. — Dá pra perceber. Fiquei olhando o teto por alguns segundos. Tentando processar tudo. Porque até agora, parecia mentira. — Ela tá bonita? Soltei uma gargalhada. — Bonita? — É. — Tu tá de s*******m? — Responde. Passei a mão no rosto. — Ela tá perfeita. O filho da p**a começou a rir. — Eu sabia. — Cala tua boca. — Tá apaixonadinho ainda. — Vai trabalhar. — Não respondeu minha pergunta. Revirei os olhos. — Qual? — O que tu vai fazer agora? O sorriso desapareceu. Porque, aquela era justamente a pergunta que eu estava evitando fazer para mim mesmo. O que eu vou fazer agora? Porque ela voltou. Mas a minha vida não é mais a mesma. Respirei fundo. — Ela já sabe que eu sou casado. Vitin fez uma careta. — Aí é f**a. — Muito. — E agora? Passei a mão na nuca. — Conhecendo a Heloísa... — Ela não vai querer se envolver. — Exatamente. Ele ficou pensativo. Por alguns segundos. Até que falou a coisa mais simples do mundo. — Então termina. Soltei uma risada sem humor. — É simples assim? — É. — Não é não. — Por quê? Porque ele não sabia. Ou melhor... Sabia. Mas não vivia aquilo. — Tu conhece a Angélica. O semblante dele mudou. — É... — Depois de tudo que aconteceu... O silêncio caiu entre nós. Nós dois lembrávamos. Da gravidez. Da perda. Das crises. Das tentativas de suicídio. Das madrugadas no hospital. Das vezes que precisei chamar ajuda, porque não sabia mais o que fazer. Não era tão simples, quanto simplesmente mandar ela embora. Eu não conseguia fazer isso. Mesmo amando outra pessoa. Mesmo sabendo que meu coração, sempre pertenceu à Heloísa. Vitin suspirou. — Tu merece ser feliz também. Não respondi. Porque, eu sabia disso. Mas também, sabia que existiam consequências. Sempre existem. — Eu vou resolver. — Quando? — Não sei. — Mas vai? Olhei para ele. — Vou. Porque, eu sabia de uma coisa. Eu amava a Heloísa. Sempre amei. E nunca deixei de amar. Nem por um dia. Nem por uma hora. Nem por um minuto. E agora que ela estava de volta... Eu não pretendia perder ela outra vez. Só que tinha outra coisa me preocupando. Uma coisa que Vitin também sabia. — Quando geral descobrir que ela voltou... — Vai dar merda — ele completou. — Vai. Porque os caras já deviam estar sabendo. E os gaviões iam começar a aparecer. Os curiosos. Os interesseiros. Os oportunistas. Os filhos da p**a que sempre aparecem, quando uma mulher bonita fica solteira. Meu maxilar travou. Só de imaginar. — Tá vendo? — Vitin riu. — O quê? — Essa cara aí. — Que cara? — Cara de psicopata. Ignorei. Mas ele não estava errado. Porque, eu sou egoísta pra c*****o. Sempre fui. E não vou aceitar qualquer um chegando perto dela. Não vou mesmo. Pode me julgar. Pode achar errado. Pode falar o que quiser. Mas a verdade é uma só. Sendo casado ou não... Meu coração nunca deixou de considerar a Heloísa minha. E agora, eu vou resolver toda essa bagunça. Porque é ela que eu amo. E é com ela que eu quero ficar. Vitin acabou saindo da sala pouco depois. E eu finalmente consegui voltar a trabalhar. Ou pelo menos tentar. Porque, minha cabeça estava longe dali. Longe da carga. Longe dos problemas. Longe da boca. Tudo que eu conseguia pensar era nela. No sorriso dela. No abraço dela. No cheiro dela. E principalmente no fato, de que agora ela estava perto. De novo. Quando percebi já estava olhando o relógio pela décima vez. Quase sete da noite. Perfeito. Levantei da cadeira. Passei algumas orientações para os soldados. E fui embora. Cheguei em casa poucos minutos depois. Assim que entrei, a Angélica levantou do sofá. — Amor. Ela veio na minha direção. Me deu um beijo rápido. — A janta tá pronta. Assenti. — Fiz a lasanha que tu gosta. Sorri de leve. — Valeu. — Vai comer agora? Respirei fundo. — Não. Ela franziu a testa. — Vai sair? — Vou. — Demora? Olhei para ela por alguns segundos. — Pode jantar sem mim. — Tá. — E se estiver cansada depois, vai descansar. Ela assentiu. Mas percebi a decepção escondida no olhar. E isso, só aumentou o peso que já existia dentro de mim. Porque, eu sabia que precisava resolver minha vida. Sabia. Só não sabia ainda como. Subi as escadas. Entrei no quarto. E fui direto para o banheiro. A água caiu sobre meu corpo, enquanto eu tentava controlar a ansiedade. Mas era impossível. Porque, daqui a pouco eu ia ver a Heloísa de novo. E pela primeira vez em três anos... Eu não precisava mais imaginar como seria. Porque, agora ela estava aqui. E eu podia vê-la todos os dias. Só de pensar nisso... Eu já me sentia feliz pra c*****o.
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