Tairon narrando
Tem gente que acredita que amor acaba.
Eu não.
Porque se acabasse, eu já tinha esquecido a Heloisa há muito tempo.
Mas não esqueci.
Nem quando ela foi embora.
Nem quando eu procurei notícia dela durante meses.
Nem quando os anos passaram.
Nem quando tentei seguir em frente.
A verdade é que algumas pessoas deixam marcas que não saem. E a Heloisa deixou uma dentro de mim muito antes de eu deixar uma dentro dela.
Lembro da primeira vez que percebi que estava apaixonado.
Ela devia ter uns quatorze anos.
Tava sentada na laje da casa do pai dela, reclamando da vida como sempre fazia quando alguma coisa não saía do jeito que queria.
O vento bagunçava os cabelos dela e ela falava sem parar.
Eu nem prestava atenção no assunto.
Só ficava olhando.
E naquele dia eu entendi que tava ferrado.
Porque não enxergava mais a filha do melhor amigo do meu pai.
Não enxergava mais a menina que cresceu correndo pelas vielas comigo.
Eu enxergava ela.
A mulher que estava se tornando.
A mulher que eu amava.
Só que o pai dela tinha outros planos.
O coroa sempre fez de tudo pra manter a Heloisa longe dessa vida.
Enquanto os filhos dos outros aprendiam a segurar arma, ela aprendia inglês.
Enquanto os moleques do morro entravam pro movimento cedo, ele colocava professor particular pra ela.
Ele queria dar uma vida diferente pra filha.
E eu entendia.
Porque se eu tivesse uma filha, também não ia querer ela vivendo no meio dessa merda.
Mas a Heloisa era teimosa.
Sempre foi.
Quanto mais tentavam proteger ela, mais ela queria entender o que acontecia.
Mais queria participar.
Mais queria ficar perto.
Talvez fosse por isso que eu nunca tive coragem de falar o que sentia.
Porque eu sabia que, se algum dia ela tivesse a chance de sair daquele mundo, eu queria que ela saísse.
Mesmo que fosse sem mim.
Então aconteceu a doença.
E tudo mudou.
Até hoje lembro do desespero daqueles dias.
Ver ela naquele hospital acabou comigo.
Ela tava cada vez mais fraca.
Mais magra.
Mais pálida.
E ninguém conseguia ajudar.
Eu via o pai dela desmoronando aos poucos.
Via ele chorando escondido.
Via o medo tomando conta de todo mundo.
Até que descobriram que eu era compatível.
Nunca pensei duas vezes.
Nem uma única vez.
Os médicos falaram dos riscos.
Meu pai quase me matou.
Sapão tentou me convencer a desistir.
Mas não tinha conversa.
Se eu podia salvar a vida dela, eu salvava.
Ponto final.
Foi a maior prova de amor que já fiz por alguém.
E faria de novo.
Mil vezes.
Sem pensar.
Porque a ideia de viver num mundo sem a Heloisa sempre foi pior do que qualquer cirurgia.
Só que as coisas comigo sempre vêm acompanhadas de um preço.
Quando finalmente tomei coragem pra contar tudo que sentia...
Ela foi embora.
A emboscada aconteceu.
O pai dela morreu.
E ela desapareceu.
Do dia pra noite.
Sem despedida.
Sem explicação.
Sem nada.
Durante meses eu procurei notícia dela.
Usei contato.
Usei dinheiro.
Usei tudo que podia.
Mas ninguém sabia onde ela tava.
Ou ninguém queria falar.
Depois de um tempo eu comecei a aceitar que talvez nunca mais fosse vê-la.
Foi aí que a Angélica apareceu.
Ela chegou no morro poucos dias depois da Heloisa ir embora.
Veio morar com o irmão.
Andyn.
Hoje ele é meu gerente.
Meu braço direito.
Meu parceiro.
Meu amigo.
E desde o início ele sabia da Heloisa.
A Angélica também.
Todo mundo sabia.
Porque nunca foi segredo.
Ela sabia que existia uma mulher que eu nunca tinha conseguido esquecer.
Mesmo sem eu falar mais sobre isso.
Mesmo sem tocar no assunto.
Ela sabia.
Mas nunca exigiu nada.
Nunca fez cobrança.
Nunca pediu que eu apagasse o passado.
E talvez por isso as coisas tenham acontecido.
Eu tava quebrado.
Sozinho.
Tentando sobreviver.
E ela apareceu quando eu precisava de alguém.
Um ano atrás ela engravidou.
E eu fiquei feliz pra c*****o.
Não era o momento que eu imaginei ter.
Não era com a mulher que eu imaginei construir uma família.
Mas ainda era meu filho.
E meu coroa sempre fala que filho é bênção.
Então eu abracei aquela ideia.
Comecei a fazer plano.
Comprar coisa.
Pensar no futuro.
Até que tudo foi arrancado da gente.
A Angélica tava descendo o morro pra comprar umas coisas pro bebê.
Acabou encontrando umas minas que eu pegava antes.
Discussão virou briga.
Briga virou agressão.
E ela perdeu a criança.
Fechei os olhos por alguns segundos.
Até hoje aquilo me revolta.
Eu puni todo mundo envolvido.
Sem exceção.
Mas nada trouxe nosso filho de volta.
E nada trouxe a Angélica de volta também.
Porque uma parte dela morreu naquele dia.
Depois disso veio a depressão.
As crises.
As tentativas de suicídio.
As madrugadas sem dormir.
As ligações desesperadas.
Os remédios.
Os médicos.
Teve noite que precisei chamar o Andyn porque não sabia mais o que fazer.
Teve dia que larguei operação no meio.
Reunião.
Carga.
Tudo.
Pra impedir ela de fazer alguma loucura.
E mesmo agora ainda é difícil.
Porque parece que cada teste negativo destrói mais um pedaço dela.
Ela tenta ser forte.
Mas eu vejo.
Vejo a dor.
Vejo a frustração.
Vejo ela se culpando por uma coisa que nunca foi culpa dela.
Passei a mão no rosto tentando afastar os pensamentos.
Não dava pra ficar pensando nisso agora.
Eu tava na boca resolvendo uma porrada de problema.
A carga que tinha que chegar mais cedo atrasou.
Os botas ficaram na cola do caminhão.
E se essa mercadoria não entrasse hoje, o prejuízo seria enorme.
Olhei no relógio pela décima vez.
Nada.
Peguei o rádio.
— Coroa?
Silêncio.
— Coroa, responde aí.
Nada.
Revirei os olhos.
Mesmo depois de passar o comando pra mim, ele continuava andando pelo morro igual dono da p***a toda.
Não conseguia ficar parado.
Vitin dizia que ele tinha medo de envelhecer.
Eu sempre ria.
Porque o velho já tava velho fazia tempo.
Só ninguém tinha coragem de falar.
Os caras que estavam comigo começaram a rir.
— Vai lá falar isso pra ele.
— Eu gosto de viver — respondi.
A gargalhada veio na mesma hora.
Foi então que um dos soldados apareceu correndo.
— Patrão.
— Fala.
— O coroa tá na barreira.
Franzi a testa.
— Fazendo o quê?
— Esperando alguém.
Meu corpo ficou alerta imediatamente.
— Quem?
— Não sei.
— Como assim não sabe?
— A pessoa chegou no carro do senhor Carlos. O Uber.
Meu coração bateu mais forte.
— E subiu direto?
— Sim.
Levantei da cadeira na mesma hora.
— Viram quem era?
O soldado balançou a cabeça.
— Não deu. Só parecia ser mulher.
Mulher.
Por algum motivo meu peito travou.
Minha mente foi direto pra ela.
Heloisa.
Não fazia sentido.
Era impossível.
Mas ao mesmo tempo...
E se fosse?
Engoli seco.
Três anos.
Três anos imaginando como seria vê-la de novo.
Três anos pensando se ela ainda tava viva.
Se ainda lembrava de mim.
Se ainda carregava dentro dela o pedaço de mim que salvei naquele hospital.
Levantei tão rápido que a cadeira quase caiu.
— Resolve essa pørra da carga.
— E tu vai pra onde?— Vitin perguntou quando me viu saindo correndo.
Nem respondi.
Já estava caminhando.
Porque se existia a menor possibilidade de ser ela...
Eu precisava ver com meus próprios olhos.
Precisava ter certeza.
Precisava saber se a mulher que nunca saiu do meu coração finalmente tinha voltado pra casa.