Mariana narrando
Às vezes eu tenho a sensação de que vivi duas vidas completamente diferentes.
Uma antes.
E outra depois.
Antes do acidente, minha vida era normal.
Normal de verdade.
Eu morava em São Paulo com os meus pais e com a minha irmã mais nova, Talita.
Nosso maior problema era decidir qual filme assistir no fim de semana ou qual desculpa dar para convencer meu pai a deixar a gente pedir lanche.
Minha mãe trabalhava muito.
Meu pai também.
Mas a gente era feliz.
Muito feliz.
Pelo menos era assim que eu enxergava.
Até que tudo acabou.
Num único dia.
Num único instante.
Eu tinha dezesseis anos.
Talita tinha treze.
Meus pais estavam voltando do trabalho, ele sempre ia buscar ela depois que saia, quando um caminhão perdeu o controle na estrada.
O carro deles ficou destruído.
Eles morreram na hora.
Os dois.
E eu lembro perfeitamente do dia em que recebi a notícia.
Lembro do hospital.
Do policial.
Da sensação de não conseguir respirar.
Da Talita chorando desesperada no meu colo.
Lembro de tudo.
Porque, existem dores que ficam marcadas pra sempre.
Depois disso, fomos morar com a nossa avó.
Aqui.
No Morro do Dendê.
Um lugar que eu só conhecia pelas histórias dela.
E sinceramente?
Foi um choque.
São Paulo era uma coisa.
O Rio era outra completamente diferente.
Principalmente o Dendê.
Aqui tudo parece acontecer ao mesmo tempo.
Tem música.
Tem moto.
Tem gritaria.
Tem gente.
Tem movimento.
Tem vida.
Muita vida.
No começo eu odiei.
Talita também.
Mas eu tentei me adaptar.
Ela não.
Talvez porque a dor dela, tenha saído de um jeito diferente da minha.
Eu chorei.
Ela se revoltou.
E desde então tem sido assim.
Minha irmã costumava ser a pessoa mais doce do mundo.
Educada.
Carinhosa.
Daquelas crianças que todo mundo adorava.
Só que, depois da morte dos nossos pais, alguma coisa mudou.
Ela ficou agressiva.
Impulsiva.
Rebelde.
E eu entendo.
De verdade.
Porque, eu também senti raiva.
Também fiquei revoltada.
Também achei injusto.
Mas, alguém precisava continuar em pé.
E esse alguém acabou sendo eu.
Hoje ajudo minha avó no restaurante praticamente todos os dias.
Faço compras.
Organizo as contas.
Atendo clientes.
Limpo mesas.
Faço de tudo um pouco.
Enquanto isso, Talita aproveita qualquer segundo de distração nosso para fazer alguma besteira.
Sai escondida para baile.
Mata aula.
Briga com outras meninas.
Chega em casa depois do horário.
E sempre sobra para eu resolver.
Porque, eu não gosto de preocupar a minha avó.
Ela já sofreu demais.
Perdeu a filha.
Depois perdeu o genro.
E agora, está criando duas adolescentes praticamente sozinha.
Então, sempre que dá algum problema, eu tento resolver antes que ela descubra.
Nem sempre funciona.
Mas eu tento.
Minha avó sempre diz que eu puxei minha mãe.
Que eu tenho mania de cuidar dos outros antes de cuidar de mim.
Talvez ela esteja certa.
Enquanto caminhava para a escola naquela manhã, fiquei pensando na conversa que tivemos mais cedo.
Na verdade, na pessoa sobre quem ela estava falando.
Heloísa.
Desde que chegamos ao morro, escuto esse nome.
Heloísa isso.
Heloísa aquilo.
Heloísa era maravilhosa.
Heloísa era educada.
Heloísa ajudava todo mundo.
Às vezes parecia até uma santa.
Minha avó falava dela como se fosse uma filha.
Ou uma sobrinha.
Nunca entendi direito.
Só sabia que existia um carinho enorme ali.
E ontem finalmente conheci a famosa Heloísa.
Mesmo que tenha sido por poucos minutos.
A primeira coisa que pensei foi:
"Caramba."
Porque, ela era linda.
Mas não daquele jeito artificial que a gente vê nas redes sociais.
Era bonita de verdade.
Natural.
Simpática.
E parecia genuinamente boa.
O que me irritou um pouco.
Porque, eu vi minha avó sorrindo para ela daquele jeito especial, que normalmente só reservava para mim e para Talita.
E sim.
Talvez eu tenha ficado com ciúmes.
Um pouquinho.
Tá bom.
Talvez mais que um pouquinho.
Mas fazer o quê?
Minha avó é tudo que eu tenho.
Então ver outra pessoa recebendo aquele carinho, me deixou estranha.
Mesmo sabendo que era besteira.
Porque Heloísa, não fez absolutamente nada de errado.
Muito pelo contrário.
Ela foi educada.
Gentil.
E parecia realmente feliz por ter voltado.
Talvez minha avó esteja certa.
Talvez a gente se dê bem.
Pelo menos eu espero.
Porque, faz tempo que não faço amizade com ninguém.
Cheguei perto da escola e imediatamente percebi que tinha alguma coisa errada.
Tinha gente demais reunida perto do portão.
E quando existe uma roda de adolescentes reunida...
Normalmente significa problema.
Meu coração afundou.
Porque, eu já conhecia aquela sensação.
E quase sempre envolvia Talita.
Comecei a andar mais rápido.
Empurrando algumas pessoas pelo caminho.
Até conseguir enxergar o centro da confusão.
E claro.
Era ela.
Minha irmã.
Revirei os olhos na mesma hora.
— Meu Deus...
Talita estava parada, com a maior cara de quem não tinha feito absolutamente nada.
A boca sangrava um pouco.
Mas fora isso, parecia perfeitamente tranquila.
Já a outra menina...
Nossa Senhora.
O estado era completamente diferente.
O olho estava roxo.
Os cabelos pareciam um ninho de passarinho.
O uniforme rasgado.
Arranhões pelo rosto.
E uma expressão que misturava ódio e vergonha.
— Talita!
Minha irmã virou o rosto.
— Oi.
— Oi?
— Que foi?
— Que foi?!
Ela deu de ombros.
Como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Ela começou.
— Eu não perguntei quem começou!
Talita cruzou os braços.
Exatamente igual, nossa mãe fazia quando estava irritada.
— Então por que tá gritando?
Fechei os olhos.
Respirei fundo.
Um.
Dois.
Três.
Porque, eu estava a dois segundos de estrangular aquela criatura.
Foi então que vi a mãe da outra menina.
E automaticamente soube que aquilo viraria um inferno.
Porque eu conhecia ela.
Todo mundo conhecia.
Era daquelas mulheres que se achavam superiores ao resto do mundo.
Falava alto.
Gostava de humilhar os outros.
E adorava criar confusão.
Assim que me viu, ela apontou na minha direção.
— Essa daí é a irmã dela!
Pronto.
Acabou.
Já sabia.
Ia sobrar pra mim.
— Sua irmã é uma marginal!
Respirei fundo novamente.
— Senhora...
— Não me chama de senhora!
— Tá.
— Olha o que ela fez com a minha filha!
Olhei para a menina.
Depois para Talita.
Depois para a menina novamente.
Sinceramente?
Minha irmã tinha ganhado.
E tinha ganhado feio.
— Talita...
— Ela me chamou de órfã.
Meu corpo inteiro congelou.
O silêncio caiu por alguns segundos.
Até a mãe da garota ficou quieta.
Olhei para minha irmã.
E vi uma tristeza escondida atrás daquela pose de durona.
Uma tristeza, que ela fazia questão de esconder do mundo.
Mas eu conhecia.
Porque, eu sentia a mesma coisa.
Todos os dias.
— Ela falou isso?
Talita assentiu.
Sem olhar para mim.
A mãe da menina começou a abrir a boca para justificar.
Mas eu já não estava ouvindo.
Porque, naquele instante eu entendi exatamente o que tinha acontecido.
Minha irmã não tinha brigado porque queria.
Ela tinha brigado porque estava machucada.
De novo.
E alguém resolveu cutucar a ferida errada.
A pior de todas.
Olhei para a garota.
Depois para a mãe dela.
E já conseguia imaginar perfeitamente onde aquilo tudo iria acabar.
Em reunião.
Em reclamação.
Em mais confusão.
Talvez até chegando aos ouvidos da minha avó.
E se isso acontecesse...
Meu dia estava oficialmente acabado.
Suspirei profundamente.
Porque, pelo visto, resolver problema da Talita continuaria sendo meu trabalho em tempo integral.