capitulo 14

1290 Words
Angélica narrando  Acordei já era por volta das dez e meia da manhã. Virei para o lado automaticamente. A cama estava vazia. Soltei um suspiro irritado. Porque eu sabia exatamente onde o Tairon estava. E pior. Eu sabia exatamente o motivo dele estar tão diferente comigo e me negando. Heloísa. Tudo girava em torno daquela mulher agora.  Levantei da cama bufando. Peguei uma roupa e fui direto para o banheiro. Fiz minhas higienes. Escovei os dentes. Lavei o rosto. Depois comecei a tirar o pijama enquanto me encarava no espelho. Eu parecia cansada. Mais magra. Os olhos fundos. E aquilo me irritou ainda mais.  Porque eu lutei muito para continuar de pé. Muito. Depois que perdi meu filho, parecia que uma parte de mim tinha morrido junto. Eu tentei seguir. Tentei ser forte. Tentei continuar vivendo. Mas não era fácil. Nunca foi. E o Tairon sabia disso. Ele esteve comigo em todos os momentos. Nas crises. Nos surtos. Nas madrugadas em que eu chorava até dormir. Nas vezes em que eu não queria levantar da cama. Ele ficou. Ele segurou minha mão. Ele cuidou de mim, pelo menos era isso que eu fazia ele acreditar. E agora aquela mulher aparecia do nada e parecia que tudo estava mudando.  Terminei de me vestir. Passei um creme no corpo. Prendi o cabelo. E peguei o celular. Abri a conversa do meu irmão. — Tá ocupado? — Não demorou nem cinco minutos para ele responder. — Não.Tá tudo bem? — ele respondeu — vem aqui, preciso falar com você — A resposta demorou segundos. — Tô indo. — Joguei o celular no sofá. Andei pela sala. Tentando controlar a irritação. Mas não conseguia. Porque no fundo eu sabia. Sabia exatamente o que estava acontecendo. Sempre soube. Desde o primeiro dia. Desde antes mesmo de ficar com ele. Todo mundo sabia. Todo mundo. A mulher da vida dele sempre foi a Heloísa. Eu só fui a mulher que conseguiu ficar com ele enganando ele. A verdade era essa. E eu odiava admitir.  A campainha tocou. Abri a porta. Andyn entrou. Meu irmão me encarou.  — O que aconteceu?  Apontei para o sofá.  — Senta.  Ele sentou. E ficou esperando.  Respirei fundo.  — O Tairon tá estranho.  — Estranho como?  — Distante.  — Desde quando?  — Desde que ela voltou.  Andyn fechou os olhos. Como se já esperasse ouvir aquilo.  — Angélica...  — Não. — Balancei a cabeça. — Nem começa. Te chamei pra ajudar.  — Eu só vou falar a verdade, e você sabe disso.  — Então fala.  Ele cruzou os braços.  — Tu tá lutando uma guerra perdida.  Aquilo me atingiu como um tapa.  — Como é que é?  — Tu ouviu.  — Obrigada pela ajuda. Mas se vai ficar me dando lição de moral, já pode ir.  — Não tô tentando te atacar, tô tentando abrir seus olhos enquanto ainda da tempo. Ele é louco por ela, e se ele descobrir o que fizemos, ele mata nos dois.  — Não tá ajudando assim, se não tem algo de útil pra falar, então fica quieto.  Ele suspirou.  — Eu tô tentando te fazer enxergar, enquanto ainda dá, não quero te ver morta.  Levantei imediatamente.  — Enxergar o quê? hum, me fala ?  — Que tu não pode competir com a Heloísa.  Meu sangue ferveu.  — Não fala isso, eu sou melhor que aquela vädia. Ela ficou três anos fora.  — Eu sei.  — E eu fiquei aqui.  — Eu sei.  — Eu estive do lado dele.  — Eu sei.  — Então qual é o problema?  Andyn passou a mão no rosto.  — O problema é que ele nunca deixou de amar ela.  O silêncio tomou conta da sala. Eu odiava ouvir aquilo. Porque era verdade. E justamente por isso doía.  — Ele escolheu ficar comigo. — Minha voz saiu mais baixa.  — Porque ela não tava aqui.  Aquilo me fez fechar os punhos.  — Vai tomar no cü, e vai embora.  — Eu tô falando a verdade.  — Eu não quero ouvir.  — Então continua fingindo.  Desviei o olhar. Sentindo os olhos arderem. Meu irmão suspirou.  — Escuta. — A voz dele ficou mais calma. — Nesse momento tu precisa ser inteligente.  — Inteligente como?  — Não fazendo merda.  Olhei para ele.  — O que tu quer dizer?  — Não vai atrás dela.  Automaticamente desviei o olhar. E ele percebeu. Na mesma hora.  — Angélica...  Continuei em silêncio.  — Cäralho. — Passou a mão no rosto. — Tu perdeu a cabeça?    — Eu não vou deixar ela roubar meu marido.  Andyn levantou.  — Tu tá ficando maluca. E vai acabar morrendo.  Ficamos nos encarando.  — Escuta uma coisa. — Ele apontou para mim. — Não importa o que tu acha, ou o que os outros acham, você não pode bater de frente com ela.  — Isso é o que vamos ver.  — E ela é a dona da pörra toda.  — Não me interessa.  — Pois deveria.  — Eu não tenho medo dela.  — E é justamente isso que me preocupa.  Meu irmão respirou fundo.  — Tu tá brincando com fogo.  Cruzei os braços.  — Não vou deixar aquela v***a roubar o que é meu.  Andyn me encarou por alguns segundos. Depois apenas balançou a cabeça. Como se tivesse desistido.  — Faz o que tu quiser.  — Vou fazer.  — Mas depois não diz que eu não avisei.  Ele caminhou até a porta.  — Vou tentar descobrir alguma coisa.  — Descobrir o quê?  — O que tá acontecendo.  Assenti. Ele abriu a porta. Mas antes de sair voltou a olhar para mim.  — E fica longe dela.  — Não vou prometer isso.  — Angélica...  — Não prometo.  Ele suspirou. E foi embora.  Fiquei sozinha. No meio da sala. Com a raiva queimando dentro de mim. Lembrando da conversa que tive com o tairon ontem.. Do jeito que ele me tratou. Do jeito que falou comigo. Como se eu não importasse pra ele.  Apertei os dentes. Porque eu tinha saído daquela casa cuspindo fogo. E pouco me importava quem ela era. Se era do comando. Se era da polícia. Se era do crime. Ou da pørra que fosse. Eu não ia deixar ela acabar com meu relacionamento. Não ia. Era uma promessa. Nem que eu precisasse mostrar para todo mundo quem ela realmente era. Nem que eu precisasse destruir a imagem perfeita que todos pareciam ter dela. Nem que eu precisasse lutar sozinha. Eu não ia perder. Não depois de tudo que vivi. Não depois de tudo que sofri. [...] Chegando na casa dela, eu falei pra aquela vädia tudo o que eu queria, e ela ainda teve a audácia de me afrontar. Isso não vai ficar assim, não vai. Ainda me colocou pra fora da casa dela. Subi o morro cheio de ódio dentro de mim, minha vontade era voar no pescoço dela. Não sei que milagre que aqueles vapores não chamaram o Tairon.  Chegando em casa, respirei fundo. Olhei o relógio. Já estava perto da hora do almoço. Fui para a cozinha. Peguei os ingredientes. Comecei a preparar a comida. Porque tinha certeza de que o Tairon apareceria. Mais cedo ou mais tarde. E quando ele chegasse... Nós iríamos conversar. Porque eu queria olhar nos olhos dele. Queria saber a verdade. Queria saber se ele teria coragem de me contar que ela voltou. Ou se ia mentir. Mentir igual vem fazendo nos últimos dia  Mexi a panela com força. Sentindo o coração apertado. Porque pela primeira vez em muito tempo... Eu estava com medo. Medo de ouvir algo que não queria. Medo de perder alguém que se tornou a pessoa mais importante da minha vida. E principalmente... Medo de que, no fundo, eu já soubesse exatamente qual seria o resultado dessa história.
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