HELENA CARVALHO
A chuva caía pesada naquela noite no Rio de Janeiro.
O estacionamento do hospital Santa Lúcia estava quase vazio. Saí pelas portas automáticas, segurando minha bolsa e passando a mão nos cabelos que insistiam em cair sobre o rosto.
Mais um plantão exaustivo.
Mais uma vida salva.
Eu caminhava em direção ao carro quando ouvi um som estranho.
Um gemido baixo.
Parei imediatamente.
— Helena: Tem alguém aí?
Silêncio.
Respirei fundo e caminhei lentamente entre os carros até encontrar a origem do som.
Quando vi, meu coração disparou.
Um homem alto estava encostado em um carro, segurando o próprio abdômen. Sangue escorria entre seus dedos. Muito sangue.
— Helena: Ai… meu Deus…
Ele levantou o rosto lentamente.
Um arrepio percorreu minha espinha.
Seus olhos eram azuis.
Não… não eram apenas azuis.
Eram de um azul gélido, como gelo.
Mesmo ferido, havia algo nele que gritava perigo. Algo dominante. Algo que fazia qualquer pessoa querer se afastar.
Mas eu não sou qualquer pessoa.
— Helena: Você levou um tiro.
Ele respirou com dificuldade.
— Homem: Não… chame… polícia…
O sotaque era forte.
Russo.
Sem dúvida.
Cruzei os braços.
— Helena: Você aparece sangrando no estacionamento de um hospital e quer que eu não chame a polícia?
Ele soltou uma pequena risada rouca.
— Homem: Já… tive noites piores.
Antes que eu pudesse responder, ele perdeu as forças e caiu inconsciente.
Suspirei.
— Helena: Ótimo… agora eu estou salvando criminosos.
Olhei ao redor.
Ninguém.
Tomei uma decisão.
— Helena: Droga...
Passei o braço dele pelo meu ombro e o ajudei a caminhar.
O peso do corpo dele quase me fez perder o equilíbrio.
— Helena: Droga… você é feito de pedra?
Com muito esforço, consegui levá-lo até a porta lateral do hospital. Era a entrada usada pelos funcionários e quase ninguém passava por ali naquele horário.
A chuva abafava qualquer barulho.
Meu coração batia rápido.
Se alguém me pegasse levando um homem baleado escondido para dentro do hospital, eu estaria em um problema enorme.
Empurrei a porta com o ombro.
Ótimo.
O corredor estava vazio.
Levei ele até uma pequena sala de procedimentos que raramente era usada durante a madrugada.
Deitei o homem na maca e finalmente consegui respirar.
Por alguns segundos apenas o observei.
Mesmo inconsciente, ele parecia… perigoso.
O rosto era forte, mandíbula marcada, barba rala cobrindo o maxilar. O cabelo ruivo estava molhado pela chuva e colado na testa.
Mas eram os olhos que mais me marcaram.
Aquele azul gélido.
Agora fechados.
Mas ainda assim inquietantes.
Balancei a cabeça.
— Helena: Foco, Helena… ele está morrendo.
Cortei a camisa dele com uma tesoura cirúrgica.
E congelei.
O corpo dele era coberto por cicatrizes.
Antigas.
Profundas.
Algumas pareciam de facadas.
Outras… de bala.
— Helena: Quem é você…?
Respirei fundo e examinei o ferimento.
O tiro entrou no lado direito do abdômen.
Ainda havia sangramento, mas não parecia ter atingido órgãos vitais.
Com sorte.
Peguei luvas, gazes e anestésicos.
— Helena: Vamos ver se você é tão durão quanto parece.
Limpei o sangue ao redor do ferimento.
Ele se mexeu.
Um gemido baixo escapou de seus lábios.
— Homem: Mmm…
— Helena: Ei… fica quieto.
Mas ele abriu os olhos.
Lentos.
Pesados.
E então aqueles olhos azuis congelantes encontraram os meus.
Por um segundo senti meu estômago apertar.
Ele tentou levantar.
Segurei seus ombros imediatamente.
— Helena: Nem pense nisso. Você levou um tiro, lembra?
Ele me observou em silêncio.
Como se estivesse me analisando.
Calculando.
— Homem: Você… não chamou polícia.
O sotaque russo era ainda mais forte agora.
Cruzei os braços.
— Helena: Ainda não decidi se isso foi uma boa ideia.
Um canto da boca dele se levantou.
Mesmo ferido… ele estava sorrindo.
— Homem: Você é… corajosa… doutora.
— Helena: Ou i****a.
Peguei a pinça.
— Helena: Agora fique quieto. Eu vou tirar a bala.
Ele segurou meu pulso.
Forte.
Muito forte.
Mesmo naquele estado.
Seus olhos ficaram mais escuros.
— Homem: Se eu morrer…
Parei.
— Helena: Você não vai morrer.
Ele continuou me olhando.
— Homem: Homens virão me procurar.
Meu coração apertou.
— Helena: Amigos?
Ele soltou uma pequena risada rouca.
— Homem: Inimigos.
Soltei meu pulso das mãos dele.
— Helena: Ótimo… exatamente o que eu precisava numa terça-feira à noite.
Aproximei a pinça do ferimento.
— Helena: Agora respira fundo.
Ele não desviou os olhos de mim.
Nem por um segundo.
— Homem: Qual… seu nome?
— Helena: Dra. Helena Carvalho.
Silêncio.
Então ele disse, quase como uma promessa:
— Homem: Se eu sobreviver… Helena Carvalho… você vai se arrepender… de ter salvado minha vida.
Seus olhos brilharam perigosamente.
Arqueei a sobrancelha.
— Helena: Engraçado… eu estava pensando exatamente a mesma coisa.
Então puxei.
O som do metal caindo na bandeja ecoou pela sala.
Mas naquele mesmo instante…
Lá fora…
Ouvi o som de pneus cantando no estacionamento.
E várias portas de carro batendo.
Passos.
Muitos passos.
Meu estômago gelou.
O homem na maca murmurou apenas uma palavra:
— Homem: Tarde demais…
Apaguei a luz da sala imediatamente.
Os passos ficaram mais próximos.
Pesados.
Homens treinados.
Ouvi vozes.
Falando algo em russo.
— Homem (sussurrando): Eles não são amigos.
— Helena: Já percebi isso.
Olhei ao redor da sala.
Armários médicos.
Cortinas.
Carrinhos de equipamentos.
Tive uma ideia.
— Helena: Você consegue ficar de pé?
Ele tentou se mover.
A dor atravessou seu rosto.
— Homem: Talvez… por alguns segundos.
— Helena: Vai ter que ser suficiente.
Passei o braço dele pelo meu ombro e o levei até um pequeno depósito dentro da sala.
Abri a porta.
— Helena: Entra.
Ele parou por um segundo.
Seus olhos azuis me observaram novamente.
— Homem: Você… está se colocando em perigo.
— Helena: Eu sei.
— Homem: Por quê?
Suspirei.
— Helena: Porque eu sou médica. Agora entra.
Ele entrou.
Fechei a porta exatamente quando os passos pararam do lado de fora.
Meu coração quase saiu pela boca.
A porta da sala abriu com força.
Três homens entraram, altos, com ternos escuros e expressões frias.
Um deles tinha uma cicatriz no rosto.
Eles olharam ao redor da sala.
Cruzei os braços, fingindo irritação.
— Helena: Vocês têm ideia de que horas são?
O homem da cicatriz me encarou.
— Inimigo: Estamos procurando alguém.
— Helena: Isso aqui é um hospital, não uma delegacia.
Ele deu um passo à frente.
— Inimigo: Homem. Alto. Ruivo.
Meu estômago gelou.
— Helena: Eu vejo centenas de pessoas por noite.
Silêncio.
Ele analisou a sala. Então seus olhos caíram na bandeja metálica. Droga a bala. Ele a pegou.
Girou entre os dedos.
O clima ficou pesado.
— Inimigo: Parece que alguém foi operado aqui.
— Helena: Isso se chama hospital.
Ele se aproximou perto demais.
— Inimigo: Doutora… se estiver escondendo alguém… isso pode acabar muito m*l para você.
Antes que eu respondesse…
A porta do depósito atrás de mim fez um pequeno CLIQUE.
Quase imperceptível. Mas os três homens ouviram.
Os olhos deles se moveram lentamente para a porta.
O homem da cicatriz sorriu, um sorriso c***l.
— Inimigo: Acho… que encontramos.
Minha respiração travou naquele instante… A porta do depósito se abriu mas não como eu esperava.
O russo não saiu fraco, nem ferido, ele saiu como um predador, em um movimento brutal, agarrou o primeiro homem pelo pescoço e o arremessou contra a parede.
Tudo aconteceu em segundos.
Caos, gritos, um soco devastador.
O segundo homem caiu sobre a maca.
O terceiro puxou uma arma.
— Helena: Cuidado!
Tarde demais. O disparo ecoou pela sala.
E por um segundo o mundo parou.
Quando olhei…
O russo estava parado imóvel.
E havia sangue… Mas eu não sabia se era dele ou de outra pessoa.
Horas depois.
O quarto estava silencioso.
Helena terminou de limpar as mãos após retirar a bala do paciente misterioso.
Ela olhou para ele.
Mesmo desacordado, o homem parecia intimidante,alto, musculoso. O cabelo ruivo levemente bagunçado.
O rosto marcado por pequenas cicatrizes mas ainda assim…
Absurdamente bonito.
Ela suspirou.
—Helena: Quem é você…
De repente, os olhos dele se abriram.
Dei um pequeno salto para trás.
Os olhos azuis a encaravam com intensidade.
Ele tentou se levantar.
— Helena: Nem pense nisso...Você perdeu muito sangue.— ela disse firme.
Ele parou e analisou em silêncio.
Cabelos cacheados, olhos verdes intensos, um corpo escultural.
Ela era bonita, muito bonita.
Ele falou lentamente:
— Homem: Você salvou minha vida.
— Helena: Sou médica. É meu trabalho.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Homem: Mesmo quando o paciente pode ser um criminoso?
Ergui uma sobrancelha.
— Helena: Principalmente nesses casos.
Um pequeno sorriso apareceu nos lábios dele.
Perigosamente ele murmurou em russo:
— Ты очень смелая, доктор.
“Você é muito corajosa, doutora.”
Franzi a testa.
— Helena: O que você disse?
Ele respondeu calmamente:
— Homem: Que você é muito corajosa.
Ela cruzou os braços.
— Helena: E qual é o seu nome?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois respondeu:
— Dmitri.
Ela ainda não sabia, mas aquele homem…
Era Dmitri Volkov, Chefe de uma das organizações mafiosas mais temidas da Rússia.
E naquele momento ele estava completamente intrigado pela mulher que havia salvado sua vida.