DOIS ANOS ATRÁS.
O som estridente do despertador me acordou com um susto. Tarde demais. Olhei o relógio e senti o pânico gelado: eu estava vinte minutos atrasada. A prova simulada do cursinho era hoje, e perder a primeira hora era o mesmo que perder a chance de sonhar.
Pulei da cama com uma energia febril. Tomei um banho rápido, quase gelado, ignorando o arrepio, enquanto a minha mente já calculava as rotas mais rápidas. O reflexo no espelho me mostrava uma Sofia sem tempo para vaidade: rosto pálido, olheiras leves de quem passava as madrugadas sobre os livros de anatomia. Não tive tempo nem de secar os cabelos; apenas os puxei em um coque apressado e frouxo, com alguns fios soltos caindo sobre a testa.
A correria era o meu estado normal. Agarrei os livros da pasta de couro sintético, joguei a mochila nas costas e desci as escadas da casa dos meus tios, pulando os degraus de dois em dois. A porta da cozinha estava aberta, mas eu nem parei para tomar café, apenas lancei um "Tchau!" murmurado.
A rua estava agitada, com os carros de luxo dos moradores do bairro já formando o seu ritual matinal. Eu corria com a cabeça baixa, o peso dos livros me puxando para frente, os tênis batendo no asfalto liso e quente. Eu não via as vitrines caras, não via as árvores centenárias. Eu só via o portão de ferro do cursinho fechando.
Foi na esquina, a última virada antes da Avenida, que a colisão aconteceu.
Em minha cegueira pelo atraso, não vi o carro preto diminuindo a velocidade, nem a porta sendo aberta. Eu só senti o impacto. Um baque seco e s***o que me fez perder o equilíbrio e soltar tudo o que segurava.
Os livros de anatomia caíram no chão, as páginas se abrindo. E eu caí também, só que não no chão.
Fui amparada por uma muralha quente e perfumada. O cheiro de sândalo e tabaco me atingiu, misturado ao calor de um peito rígido. Fui puxada de volta, a mão dele grande e pesada se fechando na minha cintura, uma possessividade imediata que eu, na minha inocência ridícula, confundi com segurança.
Olhei para cima, ainda zonza, e o vi.
O sol da manhã capturava os tons frios dos seus olhos azuis e fazia o terno sob medida brilhar. Ele sorria, e aquele sorriso... era a isca mais perfeita do mundo. Não havia raiva no rosto dele, apenas fascínio. Fascínio por ter uma presa ingênua tão perto.
— Calma, mocinha. Quase te derrubei. — A voz dele era um murmúrio suave.
Eu estava paralisada. Minha cabeça girava entre o pânico do atraso e a vergonha de estar desgrenhada e ofegante na frente de um homem que parecia ter saído de uma capa de revista.
— Eu sinto muito! Eu estou tão atrasada, meus livros... — Minha voz falhava, e eu me abaixei para juntar as páginas.
Ele foi mais rápido. Com uma elegância calculada, Otávio pegou o livro de anatomia primeiro, analisou a capa e sorriu com aprovação. Ele se levantou, me oferecendo a mão, e naquele toque, a temperatura do meu corpo subiu.
— Você está estudando Enfermagem. Que lindo. Onde fica o seu cursinho, Sofia? — Ele usou meu nome, que viu escrito na capa do livro.
Apontei a direção, ainda meio aérea. E ele, então, deu o seu xeque-mate.
— Que coincidência. Eu estou indo justamente para o centro. Meu carro está aqui. Permita-me te recompensar pelo susto. Eu insisto em te dar uma carona.
Eu hesitei. Entrar naquele carro era atravessar uma linha. Mas o tempo corria, a prova esperava, e o sorriso dele... ah, o sorriso dele prometia que o mundo, finalmente, sorriria para mim. Eu não sabia que estava entrando no carro do meu carcereiro. E que aquele dia, o dia da minha última corrida, seria o primeiro dia da minha prisão.
O cheiro do carro de Otávio era como entrar numa bolha de privilégio. Couro macio, ar condicionado no ponto exato, e o silêncio... um silêncio tão profundo que me constrangia. Eu, com meu coque frouxo e a mochila apertada, parecia uma intrusa.
Otávio não parecia notar meu desconforto. Ele ligou o carro com um toque no botão e a máquina deslizou pela rua. Ele não ligava o rádio. Ligava a conversa, e era sempre sobre mim.
— Então, Enfermagem, Sofia? — Ele sorriu, e eu senti um arrepio.
— Você tem uma energia forte, dá para ver que nasceu para cuidar dos outros. É nobre.
Ele falou com admiração sincera (ou pelo menos, convincente). Falou sobre como admirava pessoas com propósitos e como era raro encontrar uma mulher tão linda e com a cabeça tão focada nos estudos. Eu me derretia a cada palavra. Não era só um homem bonito e rico; era um homem que me via. Ou era isso que eu pensava.
O cursinho ficava a uma distância considerável, e o trânsito da Zona Sul era implacável. Mas com Otávio, o tempo voou. Ele me perguntou se eu precisava do dinheiro da prova. Eu neguei, rapidamente, sentindo a ponta do meu orgulho pinicar. Ele apenas assentiu, respeitoso, o que, para mim, era o maior sinal de cavalheirismo.
— Não se preocupe. Tenho certeza que você vai arrasar na prova, doutora.
Chegamos. O portão de ferro do cursinho já estava sendo fechado, e eu saltei do carro antes mesmo que ele parasse totalmente, agradecendo de forma atropelada.
— Obrigada! Muito, muito obrigada! Eu não sei o que teria feito sem...
— Não vá sem me dar um beijo de sorte, Sofia. — A voz dele era um comando suave.
Eu senti minhas bochechas pegarem fogo, mas fui. Dei um beijo rápido e desajeitado no canto de sua boca.
— Boa prova. Eu te espero.
E com isso, ele me soltou. Eu entrei no portão, meu coração palpitando tanto pela prova quanto por ele, sem me dar conta da força daquelas três palavras.A prova correu em um borrão. Saí esgotada, com a cabeça fervendo de fórmulas e nomes científicos. Meu único pensamento era o ônibus lotado que teria que pegar.
Mas o ônibus não foi necessário.
Lá estava ele. O carro preto, parado de forma imponente a poucos metros da saída, desafiando as regras de trânsito.
Otávio estava encostado na porta do carro, não mais com o terno da manhã, mas com uma camisa de botões de seda escura. Ele segurava uma sacola de papel que exalava o cheiro inconfundível do meu café favorito e do pão de queijo que eu havia mencionado amar.
Eu parei, incrédula.
— Otávio? O que você está fazendo aqui?
Ele sorriu, mas dessa vez, o sorriso não era apenas caloroso; havia uma ponta de algo mais, algo possessivo, que na época, eu interpretei como devoção.
— Eu disse que te esperaria, não disse? Não ia deixar minha futura doutora pegar ônibus depois de queimar o cérebro com tanta ciência. Entra. Vamos almoçar.
Eu entrei, claro. Como poderia não entrar? O homem mais poderoso e lindo que eu já tinha visto havia dedicado a manhã inteira para me esperar, só para me trazer um café e me levar para almoçar.
Enquanto ele dirigia, me contando sobre como tinha resolvido um problema complexo em sua empresa (como se quisesse mostrar seu valor), eu olhei para a minha mão, que ele segurava sobre o console. Aquele aperto era firme. Não me machucava, mas não me permitia tirar a mão.
Eu estava deslumbrada, mas uma voz minúscula no fundo da minha mente, a voz da intuição, tentou me alertar:
Ele não esperou por você. Ele te observou. Ele te cercou.
Mas eu a ignorei. O café estava quente. O pão de queijo, delicioso. E o amor, ah, o amor parecia mais doce e seguro do que qualquer coisa que eu já tivesse conhecido.
Eu não sabia que o preço daquela primeira carona seria a minha última liberdade.