SOFIA - SONHO OU PESADELO

1074 Words
Aos dezessete, o mundo era dividido entre cadernos de anatomia e a pressão da minha mãe para que eu "agarrasse uma oportunidade". Quando Otávio apareceu, ele não foi uma oportunidade; foi a salvação. Nossos primeiros meses juntos foram uma torrente de "eu te amo" e presentes caros. Eu era jovem demais, ingênua demais, para ver o manual de controle por trás da generosidade. Ele me tirou da rotina esmagadora de estudos e me levou para o universo dele. Jantares, viagens de fim de semana, a sensação de ser a garota especial. Pela primeira vez, senti que a vida finalmente me escolheu. Meus tios e minha mãe o adoravam. Ele era educado, rico e estava me dando o futuro que eles cobiçavam. Ele me dava carinho constante, beijos na testa, apertos de mão protetores. Mas logo o "cuidado" começou a ter regras. A primeira vez que senti o gelo veio em uma festa. Eu estava usando um vestido que ele havia comprado, um lindo, mas um pouco mais justo do que eu costumava vestir. Eu ria de uma piada que um amigo de faculdade dos meus tios havia feito.No caminho para casa, o silêncio dele era mais pesado que chumbo. "Você gosta de se exibir, não é, Sofia?" Eu me encolhi, confusa. "Não, Otávio! Eu só estava sendo educada com o seu amigo." "Seja educada comigo. Somente comigo." O tom era baixo, mas a voz tremia de raiva. Ele estacionou o carro e apertou o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. "Eu te dei este vestido para que eu pudesse admirar sua beleza. Não para que todos os vermes olhassem para o que é meu." A palavra "meu" me atravessou. Pela primeira vez, olhei para o meu reflexo no vidro escuro do carro e não vi Sofia, a estudante. Vi a joia que precisava ser guardada. Ele me beijou, logo depois, um beijo possessivo, pedindo desculpas pela intensidade. "Eu sou louco por você, meu amor. O ciúmes me deixa cego." E eu, uma adolescente que nunca havia experimentado um amor tão grandioso, perdoei. Afinal, ciúmes não era prova de que ele me amava mais do que qualquer um? O ciúme se transformou numa rede de controle delicadamente tecida. O primeiro a ir embora foi o cursinho. Eu estava ansiosa para voltar, mas ele insistia que eu estava exausta. "Você é muito jovem, Sofia. Se esgotar por causa de um curso? Não. O importante agora é você relaxar. E focar em nós. No nosso relacionamento." Ele pagou o semestre, mas depois, as aulas voltaram e ele convenientemente marcava viagens ou compromissos que coincidiam com meus horários. O sonho de Enfermagem foi se esvaindo, substituído por livros de arte e culinária que ele me dava. O segundo alvo foi meu círculo social. Minha prima Renata, que ainda morava no Morro da Babilônia, era meu único elo com a realidade. As conversas com ela ficaram difíceis. "Por que você está perdendo seu tempo com essa gente, Sofia? Eles só vão te atrasar. Você não precisa mais do mundo deles." Quando eu falava com Renata ao telefone, ele fazia questão de estar por perto, o olhar fixo no meu, fazendo-me sentir que a conversa era inadequada. Uma noite, ele simplesmente pegou o meu celular das minhas mãos. "Este aparelho está com problemas de segurança. Vou limpá-lo e instalar um software de localização para que eu saiba que você está sempre segura." Eu sabia que era mentira. Ele não limpou o celular; ele o transformou em uma coleira digital. Se eu demorasse cinco minutos para responder uma mensagem, ele ligava, a voz tensa. Se eu saísse para comprar um sorvete sozinha, ele aparecia de surpresa. "Eu te amo, Sofia. Só não quero que nada de r**m te aconteça. Eu tenho que saber onde está a minha futura esposa." Eu sentia a corda apertar, mas ele a chamava de laço. Aos dezessete anos, a dependência era quase doce. Eu estava tão isolada, que a única fonte de carinho e validação que eu tinha era ele. Ele me esvaziou do meu mundo para me preencher com o dele. E eu agradeci. A agressividade velada se tornou mais nítida. Não era dirigida a mim no início, mas era um aviso claro de seu temperamento explosivo.Estávamos em um restaurante fino. O garçom, um jovem de vinte e poucos anos, acidentalmente derramou um pouco de vinho na toalha de mesa. Foi um acidente mínimo, o garçom estava pálido de vergonha. Otávio não gritou. Ele fez algo muito pior. Ele se levantou, limpou a mancha inexistente em seu terno e olhou para o garçom com um desprezo olímpico. "Você é patético. Se você não consegue nem carregar uma taça, por que está desperdiçando meu tempo? Saia da minha frente." O garçom recuou, tremendo. Otávio fez uma ligação rápida, e cinco minutos depois, o gerente apareceu e o garçom foi demitido na nossa frente. Eu estava chocada. "Otávio! Ele é só um garoto. Foi um acidente!" Ele se virou para mim, a face calma, mas os olhos azuis ferviam. "Ninguém estraga o meu momento, Sofia. Ninguém. Você deve aprender isso. Eu não aceito desleixo e incompetência." Ele tocou minha mão, voltando a ser o homem carinhoso, mas a lição havia sido dada. O mundo dele era de controle absoluto. A primeira vez que a raiva quase me atingiu foi quando ousei mencionar a faculdade novamente. Eu estava assistindo a um documentário sobre o resgate de bebês prematuros e chorei. "Eu sinto tanta falta de estudar, Otávio. Eu poderia... eu deveria estar no ursinho agora." Ele não me respondeu de imediato. Apenas se levantou do sofá e caminhou até a janela de vidro que dava para a cidade. O silêncio era esmagador. Então, ele bateu o punho. Não em mim, mas no vidro da janela. Não quebrou, mas o som seco e violento me fez soltar um grito abafado. Ele se virou, a mão tremendo. A respiração ofegante. "Eu te dou tudo, Sofia! Conforto, segurança, amor! E você me paga com essa ingratidão, dizendo que prefere correr em hospitais sujos?! Pare de testar meus limites! Você é minha! E vai aceitar o futuro que eu te dou!" Ele me fez chorar por horas. E quando o pânico passou, ele beijou minha testa e me deu um anel, dizendo que o pedido de casamento seria formal, mas que eu já era dele. Eu aceitei. Aos dezessete, o medo é facilmente confundido com o destino.
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