O casamento não foi um evento; foi uma obscenidade de luxo. Aos dezoito anos, eu era a peça central de uma performance que custou mais do que eu jamais conseguiria sonhar em ganhar em dez vidas de trabalho honesto.
O local era o Palácio da Cidade, transformado em um jardim de Versalhes sob o controle implacável de Otávio. O salão principal, com seus lustres de cristal que pesavam toneladas, irradiava um brilho opressor. As flores — orquídeas raras e rosas importadas da Colômbia — cobriam cada superfície, custando uma fortuna que poderia alimentar um bairro inteiro. O cheiro era sufocante: perfume caro, champanhe Dom Pérignon 2004 e o aroma frio do dinheiro antigo.
Eu vestia um mar de seda e renda francesa, um vestido de alta costura que me aprisionava mais do que abraçava. O diamante solitário no meu dedo, presente dele, parecia sugar toda a luz do ambiente, deixando apenas um peso frio. Eu era a noiva, a obra-prima final de Otávio. E eu estava absolutamente sozinha.
Minha visão estava embaçada, mas não de emoção. Era de uma exaustão gélida. Eu m*l havia dormido, revivendo as ameaças silenciosas, o desprezo velado e o toque possessivo que agora me definia. Durante a cerimônia, eu flutuei. As palavras do juiz de paz sobre "união e respeito" eram uma piada c***l. Quando Otávio colocou a aliança, senti-me algemada. Seu beijo foi longo, ensaiado para as câmeras, e no fundo da minha boca, eu senti o sabor amargo da posse.
A festa era um circo de ostentação. Os convidados, mais de quinhentos, eram a elite do Rio, homens de negócios do mercado financeiro, políticos de terno impecável e socialites cujos vestidos valiam mais do que o apartamento dos meus tios. Eles eram um borrão de sorrisos falsos e olhares de julgamento.
Eu não conhecia uma única alma, exceto Otávio e minha mãe. Eles, sim, eram os protagonistas da noite.
Otávio estava radiante. Seu sorriso, amplificado pelo champanhe, era o de um predador satisfeito com sua caçada. Ele me mantinha rigidamente presa ao seu braço, seu aperto firme e constante. Seus dedos, sob a manga do smoking, me davam apertos sutis e dolorosos toda vez que eu piscava demais, ou demorava para sorrir. Era o seu lembrete particular:
"Sorria. Você é minha e esta performance é minha."
A pista de dança tinha sido forrada com espelhos, e o teto da mansão recebia projeções holográficas de um céu estrelado — um capricho que custou mais que meu curso de Enfermagem. Os pratos eram assinados por um chef francês, e os vinhos servidos eram lendários. Todos falavam de bilhões, de ações, de política e, em sussurros m*l disfarçados, de mim. Eu era a jovem, a garota pobre, a novidade. Eu era a 'joia' que ele tinha acabado de adquirir.
Enquanto a orquestra sinfônica particular tocava, eu tentava me concentrar na letra das músicas, em qualquer coisa que me ancorasse à realidade, mas era inútil. Eu era uma boneca de seda e diamantes em uma caixa de música gigante.
Em um momento em que Otávio estava cercado por seus sócios em uma mesa de mogno, minha mãe se aproximou. Ela havia bebido um pouco mais de champanhe do que o habitual e estava exultante. Seu vestido alugado era a coisa mais cara que ela já vestira, e ela o usava como armadura.
— Sofia, por Deus, pare de ficar com essa cara de defunta! — ela sibilou, puxando meu braço.
— Olhe para este lugar! Você está na festa mais cara da década!
— Eu estou infeliz, mãe. Eu não conheço ninguém. Ele não me deixa ir ao banheiro sozinha! — sussurrei, a voz embargada.
O olhar dela se endureceu, e ela varreu o salão com um ar de posse.
— E daí? Você não precisa de ninguém! Você não tem mais que fazer amigos em ponto de ônibus! Você tem ele! O que você quer? A vida miserável da sua prima? — O desprezo por Renata era nítido.
— O seu dever, Sofia, é mostrar gratidão. Sorrir e engravidar.
Ela segurou meu rosto com as mãos e me forçou a olhá-la. O cheiro de champanhe e ambição era forte.
— Olhe para mim, Sofia! Homens ricos são difíceis! Homens poderosos têm temperamento. Você aceita isso em troca do paraíso que ele te deu. É a taxa, filha! — Ela soltou um riso nervoso, mas o olhar era de súplica desesperada.
— Você tem que me dar a neta aqui, nessa mansão. Você me prometeu que faria a vida certa. Não estrague o único acerto que você já fez.
A sentença da minha mãe, proferida no meio do luxo avassalador, foi a última facada. Ela não era uma aliada; era a minha fiscal de prisão.
Naquele momento, enquanto a orquestra tocava uma valsa e Otávio me puxava de volta para a pista de dança (um movimento imperativo, não um convite), eu senti algo mudar dentro de mim. A tristeza cedeu lugar a uma raiva fria e calculista.
Enquanto dançávamos, com seu hálito quente no meu ouvido sussurrando que eu era a "mulher mais linda e pertencente a ele no mundo", eu olhei por cima do ombro dele. Vi os fogos de artifício explodindo sobre a Baía, iluminando o Morro da Babilônia, que parecia um aglomerado de luzes desafiando a noite.
Eu estava casada com o meu predador, e minha própria mãe havia fechado a cela. Mas o c*******o dourado de Otávio era feito de regras e medo. Eu percebi que a verdadeira liberdade não estava na riqueza, mas na fuga.
A partir daquela noite, eu parei de chorar. Eu comecei a observar. A performance tinha acabado. E o meu plano para sair daquela prisão, custasse o que custasse, acabava de nascer.