O sol já tocava forte nas telhas de zinco quando Renata terminou de arrumar a pequena cozinha. O sábado parecia comum — céu azul, rádio velho tocando funk distante, crianças correndo nos becos. Mas dentro de sua casa o ar tinha outro peso. Ali, por trás de paredes finas, vivia alguém que ninguém mais podia saber: Sofia. Por quase seis meses, Renata manteve aquele segredo como quem protege um tesouro proibido. Ninguém no morro sabia que uma mulher estava escondida em sua casa. Ela inventava rotinas, alterava horários, mentia com habilidade que nunca imaginou ter. Sofia não saía nem para respirar. Sempre longe das janelas, sempre em silêncio. Só se movia quando Renata estava ali para garantir que ninguém veria sua sombra no lugar onde não deveria existir. A gravidez crescia bonita, firme.

