A chave girou na fechadura com o clique familiar, mas o silêncio que me recebeu quando empurrei a porta não tinha nada de comum. Era denso, quase físico, como se tivesse se acumulado ali durante cada segundo da minha ausência. Nenhum barulho de passos, nenhuma voz contida, nenhum arrastar de pano da Marta limpando o chão. Nada. “Estranho”, pensei. Joguei a mala no chão e chamei: — Sofia! Nenhuma resposta. O eco do meu próprio chamado me atingiu como um deboche. Caminhei mais fundo pela casa, sentindo aquela inquietação antiga se mexer dentro de mim — a mesma que eu aprendi a reconhecer anos atrás, quando minha vida era feita de becos sujos, negócios tortos e gente que respirava mentira. Tudo estava arrumado demais. Perfeito demais. A mesa sem uma xícara. As almofadas impecáveis, com

