O dia amanheceu, e Arielle não conseguiu pregar o olho a noite inteira.
Cada vez que fechava seus olhos, ela podia visualizar a figura de sua mãe.
Mesmo que não a tenha conhecido, Arielle a viu muitas vezes por fotos.
Michael tinha espalhado fotos de Nora por toda a casa, não queria se esquecer dela, e com isso queria que Arielle olhasse todos os dias para mãe.
Na tentativa de um dia ela se livrar da terrível culpa que tinha em seu coração.
Não funcionou nem um pouco, ver o quanto a mãe era alegre quando era viva, fazia ela se culpar ainda mais, a culpa corroía seu coração.
Com uma vida cheia de culpa, Arielle percebeu ainda criança que se ficasse reclusa e triste o tempo todo, seu pai também ficaria triste.
Por isso ela decidiu que colocaria sua máscara e viveria como uma pessoa que parece sempre feliz.
E talvez tenha sido isso a machucar mais ainda a sua alma, fingir uma felicidade que não tinha.
Arielle se levantou, escolheu um conjunto preto no seu closet, ela tinha poucas roupas pretas.
Até no modo de se vestir ela decidiu ser mais alegre, era um jeito de camuflar ainda mais a sua tristeza.
Foi para banho, a sua falta de expressão fazia aquele banho se tornar frio, tão gelado quanto a água que percorria cada centímetro do seu corpo.
Ela não tinha forças, estava sem força para fazer qualquer coisa, mas ir visitar a mãe naquele dia, era como uma rotina.
Ao invés de comemorar seu aniversário, Arielle ia visitar a mãe, era apenas isso que fazia no dia do seu aniversário.
Ela não conseguia comemorar a sua vida, faria vinte oito anos que nasceu, mas também faria vinte oito anos da morte de sua mãe.
Lentamente desceu as escadas, sorriu fraco para o pai que estava sentado no sofá.
--- Não quer que eu vá com você?
--- Fique em casa pai, eu estou bem, vou visitá-la, e volto depois.
Arielle deu um beijo castro na bochecha do pai e saiu de casa depois de pegar seu carro na garagem.
Chegando lá, ela se sentou ao lado da lápide da mãe após colocar um arranjo de flores ali.
Ela sempre ia ali uma vez por mês, levava um arranjo de flores, passava um bom tempo com a mãe, sem que falasse uma só palavra.
Arielle nunca falou nada com a mãe, ela não sabia como falar, e não se sentia no direito de falar alguma coisa, já que era por sua causa que ela estava ali.
Suas visitas a sua mãe era sempre assim, se sentar no chão e ficar apenas olhando por horas aquela lápide, onde o nome dela estava escrito.
A data do seu aniversário era o dia que ela mais passava horas ali com ela, parecia que estava completamente absorta do mundo ao seu redor.
Arielle não conseguia prestar atenção em nada que estivesse ao seu redor quando estava ali, naquele momento sua mente trabalhava mais.
Naqueles momentos sua mente a culpava ainda mais pelo o que aconteceu, seu nascimento ter causado a morte da pessoa mais importante da sua vida.
Mesmo sem conhecer a mãe, Arielle sabia que era ela a pessoa mais importante da sua, independente de ela estar viva ou não.
Mas agora pensar naquilo não adiantaria, a mãe já estava morta, não poderia nem mesmo dizer o quanto ela era importante para a sua vida.
Nunca teve a oportunidade de dizer para ela o que sentia, e nunca teria, tudo tinha acabado antes mesmo que ela pudesse aprender a falar.
Ao longe um homem observava a expressão de Arielle, ou talvez ele estivesse observando a falta de expressão no rosto dela.
Se aproximando, ele olhou bem para a lápide, a mulher na foto era muito parecida com a que estava ali no chão sentada sem nenhum expressão no rosto.
--- Se ela é sua mãe por que não está chorando?
--- Não é como se eu tivesse direito de fazer isso.
--- Que crime tão grande cometeu para não ter direito nem de chorar pela sua mãe?
--- m***r ela não excederia a definição de crime?
Ouvir ela falar de uma forma tão triste, de alguma forma balançou seu coração.
Olhando o estado dela, ela realmente parecia alguém que se culpava pela morte de uma pessoa.
Não sabia o que realmente tinha acontecido, mas tinha certeza que as palavras que saíram da boca dela não eram de nenhuma forma sinceras.
--- Que i****a.
Ao ouvir a palavra i****a Arielle finalmente levantou o seu rosto para olhar o homem que estava sendo tão insensível ao chamar ela de i****a em uma situação como aquela.
Arielle quase se arrependeu de levantar seu rosto para olhar ele, a forma como ele retribuiu o olhar foi tão intensa que ela se sentia pequena perto dele.
O sorriso de canto que ele deu fez ela acordar do seu transe, olhou tanto pra ele, que até gravou detalhadamente o rosto dele na sua mente.
--- É uma i****a, talvez a sua mãe tenha dado a vida dela para que você pudesse viver bem, mas está aqui se culpando pela morte dela, tenho certeza que onde quer que ela esteja, está se corroendo por sua causa.
Foram apenas algumas palavras, mas o suficiente para dar um t**a em Arielle, o jeito que ele a tratava, apesar da arrogância a intrigou.
Que tipo de pessoa falava aquelas palavras a alguém que estava sofrendo sem poder verbalizar ou expressar seu sofrimento?
Aquela pessoa estava ali, na frente dela, julgando até a sua alma, como se estivesse preparado para dizer algo que a machucaria ainda mais a qualquer momento.
Ele se virou, pronto para ir embora, não tinha tempo a perder, ficar ali só olhando o rosto dela não resolveria os seus problemas.
--- Espera...
Arielle levantou e correu em direção a ele, ficando uns centímetros atrás dele, não queria se aproximar tanto.
Ela não sabia o que tinha passado na sua cabeça naquele momento, mas ela queria falar, ou melhor, pedir aquilo, não sabia se teria chance de vê-lo novamente.
--- Quer se casar comigo?
Nem ela mesmo esperava pedir algo assim para um estranho, mas Arielle só conseguiu pensar nisso quando viu ele sendo tão frio.
Parecia uma ideia maluca, mas se iria se casar de qualquer forma, era bom que ela mesma escolhesse a pessoa que iria se casar.
Não era como se aquilo fosse fazer alguma diferença, mas naquele momento, ela não conseguiu pensar em outra coisa.
Foi surpreendente para ele receber um pedido de casamento de alguém que acabou de conhecer, que tipo de mulher maluca fazia algo assim?
Aquela pergunta não parava de rondar o pensamento dele, só que mais maluco ainda seria ele, se aceitasse o pedido de casamento de uma mulher maluca e desesperada.