Espectro.

1515 Words
Zafira respirou fundo ao ouvir a mensagem que o irmão havia mandado minutos atrás. A tela do celular ainda brilhava sobre a mesa improvisada da pequena cozinha enquanto ela mantinha os olhos fixos na parede descascada, absorvendo cada palavra dita por Miron. "Iae mana tudo bem? Falei com Espectro, ele pediu pra ir lá dar uma geral hoje na casa, me avisa quando tiver indo que te levo lá." Ela repetiu mentalmente a frase, tentando compreender a dimensão do que estava prestes a fazer. Faxinar a casa do dono do morro. Aquele nome pesado, conhecido por histórias que circulavam feito vento gelado pelos becos da comunidade Alto do Cruzeiro. Espectro. Só o vulgo já a fazia estremecer. Não era o tipo de apelido que se escutava com frequência. Era frio, distante, carregado de mistério. O tipo de nome que mesmo não pronunciado causava certo respeito. Zafira apoiou os cotovelos sobre a mesa. A ideia de entrar na casa daquele homem parecia mais perigosa do que apenas aceitar um emprego. Não sabia nada sobre ele além de rumores, fragmentos de histórias contadas pelos moradores, histórias que podiam ser mentiras, exageros, ou verdades cruas demais. Mas as contas continuavam ali, empilhadas. E ela não podia se dar ao luxo de recusar a oportunidade. Fechou os olhos por alguns segundos, tentando afastar a insegurança. Desde que perdera a mãe e depois a avó, a vida havia se tornado uma sequência de responsabilidades esmagadoras. Ela era estudante de administração e sonhava em abrir sua confeitaria, mas os boletos atrasados a puxavam de volta ao chão. Não podia esperar realizar sonhos enquanto o aluguel ameaçava vencê-la. Determinada, se levantou. Pegou uma calça jeans simples, guardada com cuidado. Vestiu uma blusa de tecido leve, amarrou os cabelos em um coque alto e bagunçado e calçou suas velhas Havaianas. Não havia glamour, apenas preparo para o que estava por vir. Saiu de casa e encontrou Miron exatamente onde ele disse que estaria, nos portões da casa de Espectro. A primeira coisa que chamou sua atenção foi o jardim. Estava limpo, plantas aparadas, nenhum sinal de abandono aparente. Porém, ao entrar… Percebeu o engano. O interior da casa estava longe de acompanhar a aparência externa. Poeira acumulada sobre móveis de madeira, cheiro forte de mofo impregnado nas paredes, teias de aranhas em cantos que pareciam nunca ter sido tocados. — Por que essa casa está tão inabitável? — murmurou, mais para si do que para Miron. Não tinha imaginado que a faxina seria tão pesada. — Ele tá na prisão tem quase dois anos, nesse tempo ele não quis deixar contratar ninguém pra fazer faxina. Zafira franziu a testa. Ainda mais estranho. Não deixar ninguém cuidar da casa por todo esse tempo? O que passava na cabeça desse homem? Isso só reforçava o mistério em torno dele. Miron continuou: — Bom, você pode começar por onde quiser, mas limpa o quarto dele primeiro e o escritório. Ele chega hoje à noite e são os cômodos da casa que ele mais usa. Faz uma lista de compras, produtos de limpeza, coisas de comer, vou comprar tudo e deixar aqui pra você. Faz um jantar pra ele também, não precisa ser nada muito elaborado. Ele gostou da sua comida que levei da última vez, então, é isso. Ele vai voltar mas você vai poder continuar fazendo faxina, ele não aparece muito, talvez você nem veja ele. Então fica tranquila e só faz o trabalho, sem muitas perguntas e não seja curiosa demais. Zafira ficou em choque. Era informação demais de uma só vez. O nome de Espectro fremiu em seus pensamentos como uma ameaça silenciosa e constante. Assim que ficou sozinha, passou por cada cômodo avaliando o estrago. A cozinha foi o primeiro choque real. Não havia comida, nem água gelada, nenhuma panela decente, talheres incompletos, armários quase vazios. — Que tipo de maluco esse cara é? Por acaso ele passou fome nos anos que morou aqui? Falou sozinha, tentando organizar o caos mental. Fez uma lista interminável: arroz, feijão, óleo, sal, temperos, legumes, frutas, carne, frango, leite... além de produtos de limpeza, detergente, álcool, desinfetante, sabão, vassoura, panos, luvas. Também roupas de cama, lençóis, travesseiros, o quarto estava abandonado, parecia que ninguém havia dormido ali em séculos. Miron trouxe o que ela pediu, e Zafira enfim pôde começar o trabalho. Ligou o som antigo que encontrou em uma prateleira. Uma música animada preencheu o ambiente vazio. Trabalhar com música sempre deixava o dia mais leve. Enquanto esfregava o chão do corredor com força, Zafira percebeu que seus pensamentos estavam longe dali, divagando rumo ao desconhecido. O silêncio daquela casa parecia engolir qualquer som, como se os cômodos guardassem segredos que ninguém ousava comentar, segredos tão profundos quanto o homem a quem pertenciam. Espectro. O nome atravessava sua mente como um sussurro incômodo, repetidas vezes, ecoando entre as paredes vazias. Ela tentava afastar a curiosidade, lembrava-se do aviso de Miron: não seja curiosa demais. Mas como não ser? Quem escolhia viver assim? Uma casa enorme, abandonada, sem vestígios de vida, sem marcas humanas, como se o dono evitasse existir dentro dela. Era estranho demais. E ainda mais estranho era o fato de que ninguém jamais havia o visto. Nem mesmo Zafira, que vivia naquele morro desde a adolescência lembrava de ter escutado a voz dele alguma vez. Passou pano sobre uma prateleira coberta de poeira, respirando fundo. A cada canto limpo, uma nova pergunta surgia. Como aquele homem comandava tudo sem sequer aparecer? O que ele escondia? Por que ninguém ousava falar seu nome em voz alta? E o mais inquietante de tudo: por que ela sentia esse arrepio só de imaginar que um dia poderia cruzar com ele? Zafira fechou os olhos por um instante, tentando controlar o próprio coração descompassado. Talvez fosse o medo. Talvez fosse o fascínio pelo proibido que rondava aquela figura invisível. Ou talvez fosse apenas a fome e o cansaço mexendo com sua cabeça. Mas algo dentro dela dizia que havia mais. Lavou o pano no balde e continuou a limpeza, tentando ignorar o peso daquela casa. Porém, quanto mais caminhava pelos corredores silenciosos, mais sentia como se estivesse sendo observada por olhos invisíveis, como se Espectro estivesse ali, escondido nas sombras, vendo cada movimento seu. Sacudiu a cabeça, tentando afastar a sensação estranha, mas ela persistiu. Nunca acreditou em destino, mas pela primeira vez sentia que estava sendo empurrada para algo que não compreenderia tão cedo. E enquanto limpava o quarto onde ele dormia, o pensamento insistiu: Quem era o homem por trás do vulgo que fazia até os mais valentes tremerem? E por que, de repente, ela queria tanto descobrir? Enquanto isso, do outro lado da cidade, Cael deixava a prisão. O sol do fim da tarde tingia o céu em tons alaranjados, cedendo espaço para a lua crescente que despontava timidamente no horizonte. Cael preferia sair naquele horário, quando era mais fácil permanecer invisível. Evitava olhares curiosos, julgamentos silenciosos e o peso das expectativas alheias. Cesar o acompanhava, dirigindo o carro estacionado para buscá-los. Santos estava ao lado do motorista. Cael se acomodou no banco de trás, observando o mundo exterior pela janela. Os pensamentos não estavam ali. Não estavam na rua estreita nem no céu escurecendo. Estavam em Zafira. A dona daquele nome que, por algum motivo inexplicável, rondava sua mente nos últimos dias, mesmo antes de saber quem ela realmente era. Era como se o destino tivesse plantado aquela curiosidade em seu peito, sutil, quase imperceptível, mas persistente. Cesar olhou para ele pelo retrovisor. — Não é melhor a gente esperar um pouco em algum lugar antes de subir pra tua casa, chefe? Cael desviou o olhar da paisagem e encarou o espelho. — Por qual motivo, Cesar? Cesar pigarreou, nervoso. — A mulher que tá fazendo a faxina ainda tá lá, parece que ela não terminou. Cael suspirou, irritado. O som pesado fez o motorista estremecer. — Que tipo de mulher colocaram lá para limpar? Um dia inteiro e ela não conseguiu terminar? Santos se remexeu no banco, desconfortável. — Miron pediu pra avisar que Zafira demorou um pouco porque também tá preparando o jantar, senhor, e que teve que comprar muita coisa que tava faltando, por isso demorou. Cael parou de respirar por um segundo. O nome ecoou dentro dele como uma batida de tambor abafada. — Você disse Zafira, Cesar? A irritação desapareceu no mesmo instante. Em seu lugar, surgiu algo diferente — uma curiosidade quase febril. — Sim, chefe. É ela quem vai fazer a faxina lá por enquanto. O silêncio tomou conta do carro por alguns segundos. Então Cael disse: — Me leve pra casa, Cesar. Pelos fundos. A ordem foi firme, mas havia algo escondido nela. Cesar percebeu. Cael queria vê-la. Mesmo que de longe. Mesmo que sem ser visto. Era ridículo, ele tentava racionalizar. Uma mulher comum limpando sua casa, preparando seu jantar, entrando em um espaço que por anos permaneceu intocado. Mas algo em seu nome, na ideia da presença dela, acendia faíscas dentro dele. Ansiedade, curiosidade, talvez até desejo. Ele não sabia. Mas precisava vê-la.
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