Santos dirigia como um espectro pelas ruelas do morro. Quando percebeu que estava a apenas alguns metros da casa que, até poucas horas atrás, era o santuário de sua vida privada, ele sentiu um aperto no peito que não era de saudade, mas de uma fúria contida.
Ele desceu do carro com os movimentos pesados, fechou a porta com um estalo metálico que ecoou pelo silêncio da rua e começou a andar sem rumo.
Suas botas batiam no asfalto irregular enquanto ele tentava organizar os pensamentos que insistiam em lhe atormentar, girando como corvos em torno de uma carcaça.
Ele parou em um beco escuro, onde a luz dos postes não conseguia alcançar. Com os dedos ainda levemente trêmulos pela descarga de adrenalina, acendeu um cigarro.
A brasa iluminou seu rosto por um breve segundo antes que ele soltasse a fumaça, observando a noite e as estrelas que brilhavam indiferentes ao caos humano.
Aquele poderia ter sido um momento de felicidade genuína, o primeiro gosto da liberdade após o cárcere, não fosse pelas atrocidades que acabara de cometer minutos atrás. Mas, para Santos, a palavra "atrocidade" tinha um peso diferente.
Tudo ainda parecia irreal demais. A traição de Jamile era uma ferida aberta que nenhum tempo de cela fora capaz de cauterizar.
A audácia da mulher que jurou amor eterno, enquanto se entregava a um verme como Pablo, era um insulto que ele não podia ignorar. Se pudesse, ele a mataria ali mesmo, sem remorsos, sem pensar duas vezes antes de apertar o gatilho.
Entretanto, a lei do morro era absoluta. Cael não permitia que suas mulheres fossem descartadas dessa forma sem uma ordem direta, e Santos, apesar de quebrado, ainda era um soldado. No fundo, ele sabia que a morte seria um alívio para ela. Vê-la sofrer enquanto testemunhava a ruína de Pablo era um castigo muito mais refinado.
Só então, sob a luz pálida da lua, ele olhou para si mesmo. Suas roupas estavam manchadas, suas mãos ostentavam o sangue podre de Pablo, que já começava a secar e repuxar sua pele. Ele não sentiu nojo. Não sentiu o impulso de se lavar. Em vez disso, sentiu uma satisfação visceral, uma calma que só o sangue de um inimigo pode trazer a um homem como ele.
Quando levantou o olhar para observar a entrada do beco, ele a viu.
Havia uma mulher parada a poucos metros de distância. Ela não se movia, não gritava. Santos estranhamente sentiu uma curiosidade absurda. Onde deveria haver pânico, havia apenas uma observação silenciosa e profunda.
— Você tem cara de medrosa, mas não sai correndo quando vê um homem ensanguentado. Não sei se é coragem ou burrice da sua parte — Santos falou baixo, sua voz saindo rouca e perigosa, mas alta o suficiente para que ela escutasse.
A mulher deu um passo à frente, saindo parcialmente das sombras. A luz da lua atingiu seu rosto, revelando a marca que a tornava única: uma cicatriz de queimadura que descia do supercílio até próximo ao queixo, tingindo a parte branca de seu olho direito com um tom de rubi que parecia brilhar no escuro.
— Como se sente depois de se vingar da mulher que colocou outro homem na mesma cama em que dormia com ela? — a pergunta de Ravena foi sincera, desprovida de julgamento moral, atingindo Santos como um dardo de precisão.
Santos soltou uma risada seca, quase um latido. A audácia daquela mulher era fascinante.
— O que você sabe sobre isso, mina? — ele a encarou, estreitando os olhos, tentando decifrar quem era aquela figura que não recuava diante de um assassino.
Ravena aproximou-se lentamente, revelando por completo seus cabelos loiros cacheados que emolduravam o rosto marcado. Sua pele clara contrastava com o vermelho vivo de seu olho atingido pelo fogo. Ela sustentou o olhar firme de Santos, algo que poucos homens no morro ousavam fazer.
— Sei o que todos aqui no morro sabem, Santos. As paredes têm ouvidos e a traição tem pernas curtas — ela respondeu com uma voz carregada de uma força que ele não esperava.
Santos notou a cicatriz. Viu nela um espelho de sua própria destruição interna. Havia uma beleza selvagem naquela "imperfeição", algo que a tornava muito mais real do que a beleza sonsa de Jamile.
Ele ficou intrigado com a falta de temor. Qualquer outra mulher teria dado meia-volta, mas Ravena permanecia ali, tratando-o como um homem, e não como o monstro ensanguentado que ele se sentia ser.
— Fica longe de pessoas como eu, mina. Ninguém aqui é bom realmente. Você não parece afetada pela atmosfera sombria daqui, então preserve isso e continue seu caminho — Santos falou, apagando o cigarro no muro de chapisco e jogando a bituca no chão.
Ravena deu um meio sorriso, um gesto que fez a cicatriz em seu rosto se repuxar de forma hipnótica.
— Como não posso ficar perto de pessoas como você, também não posso ouvir conselhos. Foi bom te ver, Santos. Até outro dia.
Ela girou nos calcanhares e seguiu seu caminho pela ladeira. Santos ficou ali, parado no silêncio do beco, sentindo-se atordoado.
O fardo da vingança, que antes pesava toneladas em seus ombros, agora parecia ligeiramente mais suportável. Por um instante, a presença magnética e destemida de Ravena o fez enxergar as coisas por um prisma diferente. Havia vida além do sangue.
Enquanto isso, Ravena caminhava em direção à casa de Zafira. Seu coração batia em um ritmo acelerado, mas não era de medo; era o triunfo de quem finalmente viu o destino se cumprir. Ao chegar, abriu o portão de ferro e entrou sem bater, cruzando a sala com a familiaridade de quem era parte daquela família.
Zafira estava na cozinha, debruçada sobre uma bancada cheia de farinha e formas de bolo. Ao levantar os olhos e ver a amiga, ela parou o que estava fazendo.
— Que cara é essa, Ravena? Parece que encontrou um anjo no meio desse inferno — Zafira perguntou, notando o brilho incomum nos olhos da amiga e o sorriso que ela tentava, sem sucesso, esconder.
— Está mais para um demônio, mas eu o encontrei — Ravena respondeu, sentando-se no banco de madeira. O sorriso em seu rosto foi instintivo, carregado de uma satisfação que Zafira reconheceu imediatamente.
— Santos... — Zafira murmurou, largando a espátula. — Ele não estava preso? Como você o viu hoje?
A confusão no olhar de Zafira era genuína. Ela sabia que Santos era perigoso, um dos homens de confiança de Cael, e vê-lo solto significava que o morro estava prestes a entrar em ebulição.
— Ele saiu hoje. Eu suspeitei que ele não ficaria parado depois de descobrir sobre a traição. Eu precisava ver com meus próprios olhos o que sobraria daquela casa — Ravena disse, sua voz soando firme.
Zafira balançou a cabeça em negativa, sentindo um frio na espinha. Ela conhecia a lealdade cega de Santos e o quanto ele amava Jamile. Ou pelo menos, o quanto ele achava que a amava.
— Amiga, toma cuidado. Daqui a pouco a Jamile descobre que foi você quem mandou aquelas fotos anônimas para o Santos na prisão. Ela é uma cobra, Ravena. Se ela descobrir que você foi o pivô dessa desgraça, ela não vai descansar até te picar — Zafira alertou, a preocupação transbordando em suas palavras. Jamile era traiçoeira, e no morro, uma mulher rejeitada poderia ser tão letal quanto um fuzil.
Ravena deu de ombros, demonstrando uma indiferença gélida.
— Fica tranquila, Zinha. Eu já esperava por isso quando decidi mandar aquelas fotos para ele. Alguém precisava abrir os olhos daquele homem. Jamile nunca o mereceu, e eu não ia ficar sentada vendo ela rir da cara dele enquanto ele apodrecia por crimes que cometia para dar o melhor a ela.
Zafira não respondeu. Ela conhecia a história de Ravena. Sabia que a amiga nutria um amor silencioso e não correspondido por Santos há anos, um sentimento que fora sufocado pela presença manipuladora de Jamile, que sempre dava um jeito de afastar Ravena ou de se colocar como a única vítima e santa da história.
Ravena sofreu em silêncio enquanto via o homem que admirava ser enganado. Agora, ela tinha jogado as cartas na mesa.
Zafira ficou em silêncio, observando Ravena começar a ajudá-la mecanicamente com a organização das encomendas do fim de semana.
Ela queria dar conselhos, dizer que Ravena deveria negar qualquer envolvimento e se manter a quilômetros de distância de um homem que acabara de m*****r outro por ciúmes. Mas, ao olhar para a força no rosto cicatrizado da amiga, Zafira percebeu que não adiantaria.
Ravena esperara tempo demais nas sombras. Ela não queria apenas que Santos estivesse livre; ela queria que ele visse a verdade. E agora que a verdade tinha sido escrita com sangue no chão daquela casa antiga, Ravena estava pronta para colher os frutos do caos que ajudou a plantar. Ela não tinha medo do demônio, pois já carregava o fogo em sua própria pele.
— Ele é diferente do que eu imaginei, Zinha. — Ravena sussurrou, enquanto fechava uma das caixas de bolo. — Ele está quebrado, mas ainda há fogo ali. E eu sempre tive uma queda por incêndios.
Zafira suspirou, voltando ao trabalho, mas seu pensamento voou para a casa no topo do morro, onde outro homem, igualmente quebrado, aguardava por uma limpeza que ia muito além de tirar o ** dos móveis. O destino de todos eles parecia estar se entrelaçando em uma teia de sombras e obsessão, e Zafira sentiu que, a partir daquela noite, ninguém no morro dormiria em paz.