Doce condenação.

1458 Words
O morro continuava de pé. Era estranho imaginar como aquele lugar podia permanecer tão silencioso em alguns momentos, apesar do caos que vivia entre suas vielas, como se a presença invisível do chefe mantivesse tudo sob controle. Não importava que Cael estivesse atrás das grades. O comando prevalecia porque todos ali sabiam, ou achavam saber, que Cael controlava tudo mesmo longe. Era quase como uma lenda. Um fantasma vivo, um espectro do controle. A presença dele pairava sobre o território, sobre as bocas, sobre cada soldado que respirava naquela comunidade. Muitos donos de comando escolhiam aparecer, impor medo com o olhar, com a presença física, com armas à mostra. Mas Cael não. Ele escolhia estar ausente, e isso era ainda pior. Porque aquilo que não se vê pode ser qualquer coisa. Pode ser pior do que qualquer rosto real. Miron era seu braço direito. Frio, calculista, leal até o fim. Se Cael era o silêncio, Miron era o eco dele. Cumpria ordens sem questionar, impunha limites, cobrava dívidas, punia traidores. Mantinha o morro funcionando, respirando, vivendo sob o controle invisível do chefe. Era dia de visitas no presídio. Miron estava indo ver como Cael estava. Não era a primeira visita, mas todas pareciam um ritual silencioso. Até aquele momento, ainda não entendia a motivação do chefe para ter escolhido ser preso. Tudo em Cael gritava mistério, como se seus pensamentos fossem fechados por cadeados impossíveis de quebrar. Miron carregava uma bolsa com comida. Não porque Cael tivesse pedido, mas porque sabia que a comida do presídio era um lixo. Talvez acreditasse que por trás daquela casca fria, Cael ainda tivesse algum resquício de humanidade para sentir prazer ou conforto. Passou pelos agentes, pelas revistas superficiais, pelos olhares cansados. Ali dentro, pouca coisa funcionava de verdade. O sistema se dobrava quando o assunto era dinheiro. Bastava pagar, negociar, conhecer alguém. E Cael conhecia muitas pessoas. Chegou à sala de visitas reservada. Um lugar separado do tumulto dos demais presos. Aquela privacidade não era comum ali. Mas Cael tinha privilégios. Era como se mesmo preso, governasse. Antes que Cael se sentasse, Miron falou: — Mesmo preso, tua influência não muda, chefe. É difícil entender o que tu faz aqui… — a voz dele carregava frustração e admiração. Cael fitou o espaço vazio à frente por alguns segundos, inalando o cheiro úmido das paredes. Sentia a garganta arranhar porque m*l falava nos últimos dias, ou semanas, havia perdido a contagem. — Não precisa entender nada, Miron. — respondeu com a voz rouca. — Eu tô aqui por escolha. E é só isso que você precisa saber. Miron conhecia aquele tom. Era o limite invisível de uma conversa. Cruzá-lo significava afronta. — Trouxe umas coisas pra tu comer — disse, abrindo a bolsa. — Caseira. Tirou potes de alumínio, embrulhos bem arrumados, e por fim uma caixa com um bolo simples. Cael observou sem demonstrar interesse. Poucas comidas o agradavam e as comidas que Miron trazia nunca pareciam boas. Miron respirou fundo e tentou. — Come aí. Essa é diferente. Cael levantou uma sobrancelha, analisando. — Parece a mesma coisa. — Confia no pai — Miron insistiu. O silêncio se instalou, pesado. Cael observou o arroz temperado, a carne assada e o purê cremoso. Podia sentir o cheiro, mas não sabia dizer se era bom. Há muito tempo a comida não tinha gosto. Pegou o garfo. O movimento pequeno fez Miron soltar o ar que segurava. Cael perfurou a carne lentamente e levou à boca. Mastigou. Primeiro devagar, esperando o gosto r**m, a falta de tempero, a artificialidade. Mas não veio. Os olhos de Cael se abriram em uma fração quase imperceptível. O sabor era real. De verdade. Uma explosão simples, mas sincera. Algo que lembrava casa, lareira, infância antes da dor. Miron observava atento. Cael comeu outra garfada. Depois mais uma. E outra. O ritmo acelerou, como se não conseguisse controlar. O bolo foi devorado com a mesma rapidez. Cada mordida alimentava algo que Cael acreditava ter sido arrancado para sempre. Miron sorriu, satisfeito. — Falei que tu ia gostar. Minha irmã fez. Como nenhuma comida funcionava, pedi pra ela fazer. Ela é boa na cozinha. Cael interrompeu a mastigação. — Não sabia que tinha uma irmã. — Tu sabe de tudo sobre todo mundo, mas não liga pra detalhes pequenos — Miron riu baixo. — Ela é mais quieta, na dela. Talvez por isso nunca tenha visto. Cael ficou em silêncio. Miron continuou: — Zafira. O nome dela. O nome ecoou dentro da mente de Cael. Como se tivesse peso. Como se fosse capaz de tocar algum lugar escondido dentro dele. — Zafira — repetiu, a voz baixa, quase um sussurro. Era como tocar algo proibido. Sentiu sua respiração alterar, mesmo que levemente. E isso o irritou. Não queria sentir nada. Sentir podia destruir. Miron percebeu o desconforto, mas não entendeu o motivo. Antes que o silêncio tomasse proporções estranhas, Miron se inclinou para frente, baixando o tom: — Lá fora, tá tudo funcionando. Do jeito que tu deixou. Ninguém ousou peitar tua palavra. Tua ausência… causa medo. Cael continuou calado, os dedos marcando a madeira da mesa. — A comunidade sabe. Sente. A polícia pisa com cuidado. Os rivais não arriscaram entrar. — Miron continuou, com orgulho camuflado. — Mesmo trancado, tu controla. Cael inspirou fundo. Seu peito queimou. Ele sabia que tinha poder. Mas não por satisfação egoísta. Era outra coisa. Um peso que carregava. Como se fosse sua sina. O controle era a única forma de manter as pessoas que amava vivas. Era o escudo que construíra contra seus próprios fantasmas. Miron ajeitou o boné. — Mas tu tem que me dizer… por que escolheu ser preso? Cael permaneceu imóvel. Um músculo em seu maxilar pulsou, denunciando irritação. — Miron… não pergunta o que não pode ouvir. — disse firme. — Não agora. Miron entendeu. Não insistiu. A tensão se dissipou quando Cael voltou a olhar para a caixa de bolo. Sentiu um arrepio estranho percorrer a espinha. Zafira. O nome queimava de um jeito inexplicável, como se tivesse aberto uma fissura na fortaleza emocional que construíra a vida inteira. Algo dentro dele, algo que acreditava estar morto, se mexeu. Algo que tinha medo. Algo que desejava. A comida tinha sido apenas o gatilho. O nome dela… a sentença. Ali, preso, condenado pelas próprias escolhas, Cael sentiu algo que não podia controlar. E odiou. Mas também desejou. Porque pela primeira vez em anos, algo atravessou sua escuridão. Zafira era sua doce perdição. Mesmo sem tê-la visto. Mesmo sem saber quem ela era. O destino havia sido traçado silenciosamente, sem permissão, sem volta. E nada mudaria o fato de que Cael mudou naquele instante. Mesmo que ninguém percebesse. Mesmo que ele acreditasse não merecer amor, luz ou redenção. A partir daquele instante, sua queda já tinha um nome. Zafira. A madrugada descia pesada sobre o presídio, mas Cael não pregava os olhos. O cigarro queimava lento entre seus dedos, a brasa acendia e apagava na penumbra úmida da cela. Não era a primeira noite que passava acordado, mas havia algo diferente naquela insônia. Um nome ecoava em sua mente, suave como promessa e c***l como sentença: Zafira. Cael estava acostumado a controlar tudo, seus homens, o morro, os inimigos, até a própria dor. Mas aquela simples lembrança do nome trazido por Miron havia atravessado suas defesas. Era estranho sentir aquilo. Curiosidade. Interesse. Há anos ele se blindara contra qualquer emoção que o aproximasse de alguém. Afeto era fraqueza. Vínculo era arma apontada contra si. Mas por algum motivo, o som daquele nome continuava latejando dentro dele como um espectro puxando-o para fora das sombras. Ele tentou ignorar. Tentou convencer a si mesmo de que era apenas curiosidade pela irmã de seu braço direito. Nada além. Apenas necessidade de informação. Cael sempre investigava tudo e todos. Fazia parte de quem era. Mas no fundo, ele sabia que era diferente. Não conseguia imaginar o rosto dela, e ainda assim algo dentro de si ardia como se já a conhecesse. Era absurdo. Irracional. E irritante. A vida inteira fora guiado por escolhas frias. Nunca permitiu que o emocional comandasse seus passos. Porém, ali naquela cela escura, isolado de tudo, sentiu a alma estremecer diante de algo que não podia controlar. Por que o nome dela mexia com ele? Quem era Zafira para provocar aquele incômodo silencioso? Cael tragou mais uma vez, tentando sufocar qualquer resquício de vulnerabilidade. Mas entendeu que aquela curiosidade seria uma batalha perdida. Nada o impediria de saber quem ela era. Ele estava condenado a descobrir. Não por vontade, mas por destino. Zafira já era uma obsessão antes mesmo de existir diante dele. E Cael jamais fugia daquilo que o atraía, mesmo que fosse direto para o abismo.
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