O sol começava a baixar, pintando o céu do Rio de Janeiro com tons de laranja e violeta que pareciam ignorar a violência que pulsava logo abaixo das nuvens.
Santos caminhava com passos largos, a mente ainda latejando com o eco dos gritos de Jamile. Quando percebeu que seus dedos ainda apertavam o pulso de Ravena com uma firmeza possessiva, ele parou abruptamente.
O baque do silêncio que se seguiu foi quase físico. Ele a soltou como se tivesse sido queimado por um ferro em brasa, afastando-se meio passo.
Ravena sentiu o vazio do contato imediato, mas manteve o sorriso no rosto, mesmo que o afastamento repentino tivesse deixado um desconforto amargo em seu peito.
Ela massageou o próprio pulso, onde a marca da mão dele começava a desbotar, mas seus olhos permaneciam fixos nos dele, desafiadores e vibrantes.
— Por que fez isso? — Santos questionou, sua voz saindo áspera. Ele a encarou com as sobrancelhas franzidas, esperando que Ravena desse uma explicação plausível para ter se colocado no meio daquela linha de fogo.
Ravena respirou fundo, buscando as palavras certas para não entregar o jogo por completo.
— Eu odeio aquela sonsa, Santos. Ver ela traindo alguém que fez tudo por ela, alguém que estava lá dentro, preso, pagando um preço alto enquanto ela se divertia... isso me incomodou profundamente. Eu só quis ser um pouquinho justa — ela explicou, sustentando o olhar. Ravena sorriu, e aquela era uma parte substancial da verdade.
Ela odiava a hipocrisia de Jamile tanto quanto amava a lealdade ferida de Santos. Ela só ocultou o detalhe de que o plano de entregar as fotos fora sua cartada mestre para desmoronar o pedestal da rival.
Santos a observou por um longo tempo, os olhos escuros tentando ler as camadas por trás daquela cicatriz de fogo que Ravena exibia com tanto orgulho.
— Sei que tem algo mais aí, mas por hora vou me contentar com isso — ele murmurou, a voz menos agressiva, mas ainda carregada de desconfiança.
— Preciso ir para a faculdade, a gente se vê por aí — Ravena disse, tentando manter a leveza no tom, como se o coração não estivesse batendo forte contra as costelas. Ela deu um passo para trás, oferecendo-lhe um último sorriso antes de girar nos calcanhares.
— Fica longe, mina — Santos gritou para as costas dela, um aviso que soava mais como uma oração desesperada do que como uma ameaça. — Já te disse para não se envolver com pessoas do meu meio. É um caminho sem volta.
Ravena não respondeu. Ela continuou andando, subindo a ladeira com um passo saltitante, sorrindo como uma criança que acabara de ganhar o presente mais desejado da vida.
Ela não tinha medo do caminho sem volta; ela já estava nele desde o momento em que se apaixonou pelo homem que agora a mandava fugir.
Enquanto isso, a quilômetros dali, a atmosfera era outra. Zafira já estava acomodada em uma das mesas do refeitório da faculdade de administração.
Em meio a toda a confusão que Jamile causara no morro, ela decidira ir embora assim que percebeu que Ravena estava segura sob a p******o de Santos. Zafira não gostava de tumultos; ela preferia a segurança dos livros e a ordem dos números.
Estava no intervalo das aulas. Ela abriu sua mochila e pegou o lanche simples que trouxe de casa, um hábito necessário para economizar cada centavo de seu suado pagamento.
Enquanto mastigava devagar, seus olhos percorriam as anotações de Gestão Financeira.
Zafira era dedicada em tudo o que fazia; via na educação a única escada possível para sair da precariedade. Era, sem dúvida, uma das melhores alunas da turma, embora sua baixa autoestima muitas vezes a impedisse de reconhecer o próprio brilho.
— Zinha! — O chamado familiar quebrou sua concentração.
Zafira levantou a cabeça e viu Ravena se aproximando. Ela balançou a cabeça negativamente de imediato ao notar o sorriso gigantesco e quase maníaco nos lábios da amiga.
Ravena parecia irradiar uma luz própria, uma energia que contrastava fortemente com o ambiente sóbrio da faculdade.
— Te vi no meio de uma confusão pesada lá no morro, Ravena. Pensei que você fosse aparecer aqui toda acabada, mas está sorridente demais para quem quase começou uma guerra civil — Zafira comentou, arrumando espaço na mesa para que a amiga se sentasse ao seu lado.
Ravena desabou na cadeira, suspirando de forma dramática, com as bochechas ainda coradas pela caminhada e pela adrenalina.
— A vida é uma maravilha, Zinha! Se toda vez que eu for me meter em confusão o Santos aparecer para me defender daquele jeito... ah, minha filha, então eu vou procurar uma briga em cada esquina debaixo daquele sol — Ravena brincou, os olhos brilhando.
— Deixa de maluquice, garota — Zafira repreendeu, embora um sorriso involuntário começasse a brotar em seus lábios. — Jamile estava com uma faca. Você podia ter se machucado f**o. Aquela mulher não tem nada a perder agora.
Ravena deu de ombros, indiferente ao perigo. Estava tão feliz que nem mesmo os sermões constantes de Zafira poderiam abalar sua estrutura emocional. Para ela, a cicatriz em seu braço, o lugar onde Santos a segurara, valia qualquer risco.
— E o dono do morro? — Ravena mudou de assunto subitamente, inclinando-se sobre a mesa com um olhar inquisitivo. — Conseguiu ver o Espectro finalmente? Você saiu de lá com uma cara de quem tinha visto um fantasma.
Zafira ficou em silêncio imediato. A pergunta agiu como um interruptor, desligando sua fome.
Ela pousou o sanduíche e olhou para as próprias mãos. Ravena percebeu a hesitação. Conhecia Zafira há anos, desde os tempos de escola e das perdas compartilhadas; sabia identificar quando algo a afetava profundamente, especialmente quando se tratava de sentimentos que Zafira tentava enterrar.
— Não me diga que ele é h******l demais... — Ravena comentou, tentando manter o tom divertido, mas já desconfiada de que a reação da amiga indicava o caminho oposto. — Ele é o que? Um monstro de filme de terror?
— Não, Ravena... ele é... bonito — a confissão saiu em um sussurro, quase um segredo proibido que Zafira não queria admitir nem para si mesma.
Ravena arqueou uma sobrancelha, o sorriso se alargando em uma expressão de "eu sabia".
— Deixa eu ver se eu entendi bem, dona Zafira. Você passa anos e anos sem se interessar por nenhum homem, dizendo que todos os caras que se aproximam de você são horríveis, feios ou não valem o esforço... e agora vem me dizer que o temido Espectro, o homem mais perigoso da região, é bonito? — Ravena provocou, cutucando o braço da amiga.
— Não é isso, Ravena! Só estou sendo sincera — Zafira tentou se defender, sentindo o calor subir pelas bochechas. — Ele tem uma cicatriz de corte no olho direito, uma marca f**a, mas... a beleza dele ainda é visível. É uma beleza pesada, sabe? Sombria. Eu ainda estou tentando entender o motivo de ele se esconder tanto do mundo. Ele parece alguém que decidiu morrer por dentro, mesmo estando vivo.
— Você está interessada — Ravena sentenciou, cruzando os braços e observando a amiga com uma satisfação evidente.
Ela gostava de ver Zafira sentindo algo novamente. O interesse repentino da amiga era um sinal de vida após tantos relacionamentos abusivos que a deixaram insegura e com a autoestima no chão.
Ver Zafira notar a beleza de um homem era um progresso. No entanto, Ravena também sentia um frio na espinha.
Espectro não era um homem comum. Ele era o dono do morro. Temido, vivia nas sombras e comandava com um silêncio que impunha mais medo do que qualquer grito.
Ninguém sabia como ele realmente era por baixo daquela aura de mistério, como costumava agir em momentos de fúria ou qual era o verdadeiro limite de seu temperamento.
Ele era uma verdadeira incógnita, um enigma perigoso envolto em luxo e sangue.
E era exatamente isso que fazia Ravena temer pela amiga.
Ela não queria que Zafira se machucasse novamente, especialmente com alguém que tinha o poder de destruir não apenas o coração, mas a vida de qualquer um que se aproximasse demais.
Zafira já havia sofrido o suficiente com homens pequenos que a diminuíam; enfrentar um homem gigante como Cael poderia ser a sua salvação ou a sua ruína definitiva.
Apesar do medo que latejava no fundo de sua mente, Ravena ainda sentia uma fagulha de esperança. Se Santos pudesse ser o seu porto seguro, talvez aquele homem misterioso pudesse ser o de Zafira.
— Só toma cuidado, Zinha — Ravena disse, o tom agora mais sério, perdendo a brincadeira por um segundo. — Homens como ele não amam como os outros. Eles possuem. Eles dominam. Certifique-se de que você é forte o suficiente para entrar naquela escuridão sem se perder dela.
Zafira suspirou, voltando seus olhos para as anotações da faculdade. As palavras de Ravena ecoavam o que sua própria mente gritava.
Ela era apenas uma estudante de administração com sonhos de ter uma confeitaria; ele era o dono de um império construído sobre o medo. Mas, ao lembrar do sorriso discreto de Cael na cozinha e da forma como ele lavara a louça como um homem comum, Zafira sentiu que, talvez, houvesse algo além do Espectro. E ela, pela primeira vez na vida, estava disposta a descobrir o que era.
— Eu sei, Ravena. Eu sei.
Zafira murmurou, fechando o caderno enquanto o sinal para a próxima aula tocava, marcando o fim do intervalo e o início de uma nova fase que nenhuma das duas estava pronta para enfrentar, mas que ambas desejavam com todo o fervor de suas almas feridas.