Depois de uma noite m*l dormida, marcada por um cansaço que parecia não encontrar solução no horizonte, Zafira finalmente desistiu de lutar contra os lençóis.
O domingo havia amanhecido agradável, com uma brisa suave que entrava pelas novas e amplas janelas de sua sala, mas nem mesmo o conforto renovado de seu lar era capaz de silenciar a tempestade que rugia em sua mente.
Ela se levantou com movimentos lentos, sentindo o peso de cada pensamento acumulado nas últimas horas. Decidiu, em um esforço para normalizar o dia, preparar seu café, assistir a um filme qualquer e, quem sabe, torcer para que o sono a encontrasse no meio da tarde.
No entanto, o silêncio da casa era traiçoeiro.
Tudo o que Cael havia dito no dia anterior continuava a atormentar seus pensamentos como um eco persistente.
As palavras dele, a confissão de que havia comprado e reformado a casa por ela, o desejo explícito de cuidar dela, agiam como lâminas que cortavam suas defesas mais profundas.
Zafira não conseguiu pregar o olho. Por mais que tentasse descansar, a mente se tornou um labirinto impossível de percorrer.
Ela preparou um café da manhã simples: um pão com queijo, ovos mexidos e uma xícara fumegante de café com leite. Sentou-se no sofá, escolhendo um filme aleatório na TV.
Seus olhos seguiam as imagens na tela, mas sua consciência estava quilômetros dali. Ela tentava fugir de si mesma e falhava miseravelmente.
Não importava o que fizesse, a revelação de Cael a incomodava de uma forma que ela não conseguia racionalizar. Por que a p******o dele parecia um fardo tão pesado? Por que a generosidade do "Espectro" a fazia se sentir tão pequena e vulnerável?
A porta da sala se abriu de repente, quebrando o transe de Zafira. Ravena apareceu com um sorriso no rosto e uma energia vibrante que poderia ser sentida a quilômetros de distância.
Era o oposto total de Zafira, que parecia uma sombra pálida de si mesma após uma noite de insônia.
— Você está h******l, garota. O que houve? — Ravena exclamou, aproximando-se e observando a amiga com preocupação genuína.
Zafira hesitou por um segundo. Pensou em dar uma desculpa qualquer, mas lembrou-se de que Ravena era uma das únicas amigas que tinha, sua âncora em meio ao caos.
Se não desabafasse agora, sentia que iria sufocar com o peso de tantas dúvidas. Suspirou profundamente, colocando a xícara vazia sobre a pequena mesa de centro.
— Foi o Espectro quem fez a reforma, Ravena. Ele comprou a casa das mãos do proprietário por um valor muito mais alto do que ela realmente valia. No fim, eu fui questioná-lo e ele me disse que fez isso porque queria cuidar de mim — Zafira falou tudo de uma vez, mas o tom de sua voz carregava uma incredulidade profunda, como se ainda estivesse tentando processar o que seus próprios ouvidos haviam escutado.
— Tudo bem, isso é... surpreendente — Ravena ficou visivelmente chocada com a revelação. — O Espectro é o dono do morro, um homem sombrio e autoritário. O mundo inteiro teme esse homem. Uma mudança tão radical assim na forma de agir é realmente chocante.
— Não é? — Zafira rebateu, e foi nesse momento que a dor da insuficiência transbordou. — Eu não sou alguém que mereça esse tipo de cuidado dele, Ravena. O que eu tenho de tão especial? Eu não sou ninguém.
Sua voz saiu baixa, arrastada, como se o ato de se diminuir fosse a única verdade que ela conhecia.
Para Zafira, a ideia de ser o objeto de atenção de alguém tão poderoso não era lisonjeira; era aterrorizante, pois ela acreditava que, em algum momento, ele perceberia que ela não valia o esforço.
— Ei, me escute bem. Eu não disse que foi surpreendente por achar que você não merece isso, Zinha — Ravena falou com firmeza, sentando-se ao lado dela. — Você merece o melhor. É surpreendente porque ele não parece ser o tipo de homem que se importa com alguém. Mas se ele se preocupou com você, se ele investiu nisso, talvez ele sinta algo real. E isso é um fato perturbador demais para ser deixado de lado.
Mesmo que Ravena estivesse certa, Zafira não conseguia compreender. Sua razão estava obscurecida por uma necessidade quase instintiva de se proteger contra qualquer tipo de afeto, pois para ela, o amor sempre veio acompanhado de dor ou desilusão.
— Zinha, você precisa esquecer o passado — Ravena continuou, o tom agora mais suave e acolhedor. — Aqueles homens que te machucaram não estão mais na sua vida. Se você permitir que tudo o que aconteceu continue te afetando dessa forma, você não vai conseguir se relacionar com mais ninguém. Você vai se fechar para o mundo.
— Eu queria conseguir, Ravena. Juro que queria — Zafira confessou, sentindo os olhos arderem. — Mas toda vez que eu fecho os olhos, eu lembro de tudo. Cada vez que o Cael olha para mim de um jeito diferente, eu sinto como se ele estivesse apenas observando meus defeitos, um por um. A cada confissão que ele faz, em vez de me sentir feliz, eu sinto como se não fosse suficiente para retribuir isso.
A dor estava ali, presente e marcante. Zafira sentia-se insuficiente não pelo que lhe faltava materialmente, mas pelo que sentia que faltava em sua alma, a capacidade de acreditar que alguém pudesse querê-la pelo que ela era, sem segundas intenções.
— Tudo bem, eu entendo — Ravena sorriu de forma esperançosa, apertando a mão da amiga. — Mas pelo pouco que você me contou dele, ele parece ser um homem persistente. E, pelo visto, ele não vai desistir de você tão fácil. Eu acredito fielmente que ele vai mudar o seu pensamento e a sua vida. Ele vai trazer o seu brilho de volta, porque desta vez não é alguém tentando te destruir, mas sim um sentimento sincero que está tentando te reconstruir.
— E se ele estiver tentando me enganar? — A pergunta de Zafira veio carregada de uma preocupação genuína.
— Pense bem, Zafira. Ele teria tempo para perder enganando uma moça comum sem ter um interesse real nela? O dono do morro, com tudo o que ele tem para gerenciar, faria tudo isso por um simples jogo? — Ravena questionou, levantando uma sobrancelha.
Zafira concordou em silêncio, pois, no fundo, a lógica de Ravena era impecável. Cael não era homem de desperdiçar movimentos.
Suspirou, e embora as palavras da amiga tivessem plantado uma semente de dúvida sobre suas próprias inseguranças, o sentimento de insuficiência ainda estava lá, fincado em seu peito.
Ravena percebeu que as coisas estavam mudando. Ela conhecia Zafira o suficiente para saber que o processo seria lento, mas a esperança agora era palpável.
O que Ravena mais desejava era que a amiga pudesse, finalmente, enxergar-se através dos olhos de quem a admirava, e não através das cicatrizes deixadas por quem a feriu.
Pela primeira vez, a felicidade parecia uma possibilidade real, escondida sob a sombra de um homem que o mundo chamava de monstro, mas que para Zafira, começava a se tornar um salvador inesperado.
Zafira desviou o olhar para a janela, observando como a luz agora entrava sem pedir licença em sua sala. A claridade, que deveria ser um alento, parecia expor cada uma de suas feridas invisíveis.
O sentimento de insuficiência não era algo que ela pudesse simplesmente desligar; era uma armadura que ela havia construído para que ninguém mais chegasse perto o suficiente para quebrá-la.
Para ela, o cuidado de Cael era como uma nota alta demais para ser alcançada por alguém que sempre viveu em tons baixos e silenciosos.
— Você não entende, Ravena... — Zafira murmurou, os dedos traçando distraídos o tecido do sofá. — Homens como ele estão acostumados com o melhor. O melhor vinho, a melhor casa, as mulheres mais exuberantes. Quando ele olha para mim e diz que quer cuidar, eu sinto que estou ocupando um lugar que não me pertence. Tenho medo de que, um dia, ele acorde e perceba que eu sou apenas uma garota cansada, tentando equilibrar boletos e livros de faculdade, enquanto ele comanda um império.
Ravena suspirou, sentindo o peso daquelas palavras. Ela sabia que a amiga via a própria vida como um rascunho, enquanto Cael a via como uma obra terminada.
— Zinha, você fala como se a sua simplicidade fosse um defeito, mas talvez seja exatamente isso que o prendeu. Ele vive cercado de gente que quer tirar algo dele, de luxo que não tem alma. Você é a única coisa na vida dele que não tem preço, entende? — Ravena inclinou-se mais, forçando Zafira a encará-la. — Não se diminua para caber na ideia que você tem dele. Deixe que ele te mostre quem você é através dos olhos dele. Só por uma vez, para de lutar contra quem quer te dar a mão.
Zafira sentiu um nó na garganta. A luta interna entre o medo de ser insuficiente e a vontade desesperada de ser amada nunca foi tão intensa.