Além das cicatrizes.

1618 Words
Lá dentro do quarto, envolto por um silêncio que cheirava a uísque e isolamento, Cael levantou irritado. O corpo protestava, pesado pela falta de um sono restaurador, e sua mente parecia um campo de batalha onde pensamentos autodestrutivos insistiam em não lhe dar trégua. Cada fibra do seu ser latejava com uma amargura que o álcool não fora capaz de afogar. Quando as batidas na porta ecoaram, ele rosnou um palavrão baixo, sentindo a raiva borbulhar. Para ele, o som metálico das juntas contra a madeira só poderia significar uma coisa: Miron ou algum de seus soldados vindo logo cedo com problemas que ele não tinha paciência para resolver. Ele sequer havia notado, em seu estado de torpor e fúria, que aquelas batidas eram suaves demais, rítmicas e hesitantes, completamente diferentes do toque autoritário de seus homens de confiança. Cael caminhou até a porta com passos pesados, sentindo o chão frio sob os pés descalços. Ele pretendia gritar, explodir com quem quer que estivesse interrompendo sua descida ao abismo particular, mas a frase morreu em sua garganta assim que a porta se abriu. O mundo pareceu parar. Ali, diante dele, estava Zafira. Pela primeira vez em anos, Cael não sentiu o instinto primitivo de virar o rosto ou buscar as sombras para esconder a cicatriz que lhe rasgava o olho direito. Aquela marca, que ele mesmo causara para destruir a beleza que sua mãe mercantilizava, sempre foi seu maior escudo e sua maior prisão. Mas, ao encontrar o olhar de Zafira, algo mudou. Talvez fosse o brilho acolhedor naquelas íris, ou o fato de que ela não recuou. Não houve o choque previsível, não houve a careta de nojo ou a piedade condescendente que ele tanto detestava. Houve apenas uma aceitação silenciosa que o desarmou por completo. Zafira, por outro lado, encarava o homem diante dela como se ele fosse a única coisa sólida em um mundo de neblina. Ela esperava um monstro, uma figura grotesca que justificasse o apelido de Espectro, mas o que encontrou foi uma beleza trágica e devastadora. A cicatriz estava lá, sim, marcando sua pele, mas não foi capaz de apagar a intensidade magnética de suas feições. Para Zafira, a marca no rosto dele não era uma deformidade; era uma história de sobrevivência que ela ainda não conhecia, mas que já respeitava. Agora, ela entendia menos ainda o porquê de ele se esconder tão obstinadamente do resto do mundo. — É mais bonito do que eu imaginava... Por que se esconder? — As palavras escaparam dos lábios de Zafira antes que ela pudesse filtrá-las. Foi um pensamento que ganhou voz, uma conclusão honesta que saiu do fundo de sua alma. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de uma eletricidade nova. Zafira só percebeu o que havia dito quando viu um sorriso discreto, quase imperceptível, surgir no canto dos lábios de Cael. Era um sorriso carregado de uma ironia suave, algo que ela nunca imaginaria ver no rosto do dono do morro. Zafira engasgou com o próprio ar, sentindo o rosto queimar de vergonha. Ela tossiu levemente, levando a mão ao peito em um gesto de nervosismo puro, enquanto tentava desviar o olhar daquela figura que agora a observava com uma diversão silenciosa. Cael, por sua vez, sentia uma satisfação estranha ao vê-la desestabilizada. A honestidade dela era um bálsamo para sua alma ferida. — Eu... eu preparei o café da manhã. Achei que tivesse acontecido alguma coisa. Desculpa se te acordei — ela gaguejou, tentando recuperar a postura profissional que havia planejado manter. Cael, que normalmente explodiria com qualquer pessoa que ousasse interromper seu descanso sem um motivo de vida ou morte, apenas a observou. Ele notou a forma como ela apertava os próprios dedos, a maneira como seus olhos fugiam dos dele e depois voltavam, atraídos por uma gravidade inevitável. Zafira não era qualquer pessoa; ela era a única cor que ele permitia entrar em seu mundo cinzento. — Eu vou tomar um banho e já desço — ele respondeu, sua voz saindo mais grave do que o normal, vibrando no ar entre eles. — Tudo bem — ela murmurou, saindo quase correndo em direção às escadas, fugindo da intensidade daquele encontro. Cael ficou parado no batente da porta por alguns segundos, perdido no rastro de perfume doce que ela deixou para trás. Ver Zafira de perto, sob a luz da manhã, era como um sonho que ele não queria acordar. O fato de ela o ter encarado sem hesitação, sem o julgamento que ele impunha a si mesmo todos os dias, deixava tudo ainda mais complicado. Ele sempre se sentiu sujo, uma criatura quebrada que não merecia a luz, mas o olhar dela agia como uma espécie de purificação involuntária. Aos olhos de Zafira, ele não era o Espectro; ele era apenas um homem. Ele entrou no banheiro, deixando a água fria escorrer pelo corpo para tentar aplacar a agitação interna. Enquanto se vestia, escolheu apenas uma bermuda leve. O calor do dia já começava a invadir a casa, e o sol batia forte contra as vidraças. Cael, que passava a maior parte do tempo coberto por camisas de manga longa para esconder suas marcas, sentiu uma liberdade repentina. Ele não se importava mais em aparecer sem camisa na presença dela. No fundo, ele queria ver como ela reagiria. Ao descer as escadas, ele a encontrou na sala, organizando as almofadas do sofá com aquela sua dedicação quase obsessiva. Quando Zafira percebeu sua presença e se virou, ela quase caiu para trás. Seus olhos se arregalaram ao percorrer o tórax largo e o abdômen definido de Cael. A pele dele era um mapa de força e sombras, e a visão era demais para o coração já acelerado de Zafira. — O dia está quente. Se importa se eu ficar assim? — Cael perguntou, a voz carregada de uma diversão que ele não se esforçava para esconder. — Problema nenhum — ela respondeu rápido demais, sua voz saindo um pouco mais aguda do que o normal. Ela não conseguia desviar o olhar dos músculos dele, sentindo uma tensão que ia muito além da curiosidade. — Não vai tomar café? — ele questionou, caminhando em direção à mesa da sala de jantar, notando como ela se mantinha à distância, como se ele fosse um incêndio prestes a sair do controle. — Claro, estou indo já — ela disse, mas em vez de se sentar, passou direto para a cozinha. Zafira sentia que se sentasse à mesa com ele, naquele estado de nudez parcial e i********e forçada, seu coração não aguentaria. Ela preferia o refúgio das panelas e da bancada de granito. Mas Cael não aceitaria aquela distância. Ele queria a presença dela, o som da sua voz, a proximidade que o fazia se sentir vivo. Ele foi atrás dela, cruzando a porta da cozinha com uma autoridade que não aceitava recusas. — A mesa tem seis cadeiras, Zafira. Coma na mesa comigo — ele disse, encostando-se no portal da cozinha, cruzando os braços e exibindo ainda mais a sua compleição física. — Ah, não... posso comer aqui mesmo, não quero incomodar — ela tentou protestar, mexendo em algo na bancada apenas para ter o que fazer com as mãos. — Negativo. Você não vai ser tratada como empregada aqui. Para a mesa, por favor — a ordem veio com uma firmeza inquestionável, mas havia uma gentileza no final que desarmou Zafira. Ela acabou cedendo, incapaz de discutir quando ele a encarava com aquele olhar pesado e intenso, que parecia ler cada um de seus pensamentos inseguros. Eles se sentaram à mesa, um de frente para o outro. Cael se serviu de café, os movimentos lentos e deliberados, enquanto Zafira fazia o mesmo, tentando não deixar a colher tilintar contra a xícara. O silêncio era preenchido apenas pelo som dos talheres, mas não era um silêncio desconfortável. Era uma quietude cheia de perguntas não feitas. — Tem problema se eu não te chamar de senhor? — Zafira perguntou de repente, quebrando o gelo. A pergunta pegou Cael de surpresa. — Acho estranho te chamar assim. Talvez Espectro seja bem melhor do que chamar de senhor, mas ainda soa... distante. Cael pousou a xícara na mesa e a encarou. O nome que o morro lhe dera era uma armadura, mas ali, com ela, ele sentia que não precisava de proteções metálicas. — Me chame de Cael, Zafira — ele disse, sua voz soando como um sussurro estritamente proibido. O nome ecoou pela mente dela, doce e perigoso ao mesmo tempo. Zafira sentiu um arrepio percorrer sua espinha. — Por que me falou seu nome verdadeiro com tanta facilidade? — ela perguntou, a curiosidade vencendo a cautela. — Pensei que você escondesse isso de todo mundo. — Confio em você — ele respondeu de forma direta, sem desviar os olhos dos dela. — Você não é confiável? Zafira travou, sentindo o peso daquela declaração. Ninguém nunca havia confiado nela daquela forma, especialmente alguém com tanto a perder. — Sou, mas... — ela tentou encontrar uma explicação plausível para a estranheza daquela confiança súbita, mas as palavras lhe faltaram. — Deixa para lá. Cael assentiu, um sentimento de paz começando a se instalar em seu peito. Sua alma pulsava em uma felicidade que ele não experimentava há décadas. Estar perto dela, ver que aos olhos de Zafira ele não era um monstro sujo ou uma deformidade a ser evitada, era a maior redenção que ele poderia desejar. Ele percebeu, naquele café da manhã silencioso, que talvez a cura para suas cicatrizes não estivesse no isolamento, mas no olhar daquela mulher que o via como ele realmente era, por trás de toda a escuridão do morro.
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