A noite passava arrastada, densa como o veludo que cobria o céu.
No jardim da casa, o ar estava impregnado com uma mistura de terra úmida e o perfume sutil de ervas frescas.
Cael permanecia em pé, imóvel como uma estátua de mármore, observando os canteiros que agora exibiam uma vida nova. Com a ajuda de Zafira, aquele espaço, antes puramente ornamental e frio, transformou-se em um refúgio vibrante.
Ela havia plantado temperos, ervas medicinais e plantas alimentícias, deixando sua marca em cada centímetro de solo que tocava.
Era esse o tipo de mulher que Zafira era: ela não passava apenas pela vida das pessoas; ela deixava rastros, sementes de cuidado que floresciam mesmo onde o asfalto parecia ser a única lei.
Para Cael, era cada vez mais difícil não pensar nela. Cada vez que o vento soprava o cheiro do alecrim ou da hortelã, era o rosto dela que surgia em sua mente, com aquela expressão de concentração e a força silenciosa que o desarmava.
Decidido a não permitir que as sombras de sua posição manchassem o que estava começando a florescer, Cael convocou Miron para uma conversa franca.
Ele não queria esconder algo tão importante de seu braço direito. No mundo do crime, a confiança era a única moeda que não desvalorizava, e a relação entre os dois era baseada em uma lealdade mútua e inabalável.
Cael não correria o risco de quebrar um laço como aquele com mentiras bobas ou omissões covardes. Ele queria fazer a coisa certa. Zafira merecia ser assumida de todas as maneiras, e com ela, ele não aceitava errar.
Nunca havia feito nada parecido por mulher nenhuma em toda a sua vida, mas por Zafira, ele estava disposto a reescrever suas próprias regras.
— Qual foi, chefe? Me chamou aqui a essa hora... tu só faz isso quando o bagulho é urgente — Miron questionou assim que atravessou o portão de ferro, parando ao lado de Cael. Seu tom era o de um homem acostumado com a prontidão, mas havia uma leve curiosidade em sua voz.
— Assunto pessoal, Miron. Achei melhor te chamar aqui, longe dos ouvidos das paredes — Cael respondeu, calmo, o olhar fixo na imensidão escura do céu enquanto tragava devagar o cigarro que trazia entre os dedos.
A brasa brilhava intensamente por um segundo antes de ele soltar a fumaça de forma ritmada.
Miron franziu o cenho, estranhando a abordagem. No dia a dia do morro, Cael era uma fortaleza de gelo, tratando apenas de negócios, táticas e poder.
— Tu nunca falou de assunto pessoal com teus homens, chefe. O que tem de diferente agora pra tu me chamar na madruga? — O leve sotaque da comunidade transparecia na fala de Miron, uma cadência que trazia a realidade das ruas para o jardim silencioso.
— Ela mudou tudo, Miron. Zafira mudou tudo o que eu acreditava que era sólido e imutável — Cael confessou, e a gravidade em sua voz fez Miron ficar rígido. — Eu queria te contar primeiro porque não quero esconder nada. Não quero começar minha relação com ela baseada em mentiras ou sombras. Você é a única família dela, e achei que era minha obrigação te dizer o que sinto.
Miron ficou em silêncio.
Um silêncio pesado, carregado de uma mistura complexa de sentimentos que ele não conseguia decifrar de imediato.
Houve medo, sim, e uma angústia profunda que apertou seu peito ao pensar que sua irmã, a pessoa que ele mais amava, pudesse passar pelos mesmos traumas novamente.
Miron nunca ouviu boatos sobre Cael com mulheres; o Espectro era um mistério completo nessa área. Ele não sabia como o chefe tratava quem amava, não tinha certeza se Zafira seria bem tratada ou se seria apenas mais um alvo em uma guerra de poder.
Esse desconhecimento o assustava muito mais do que qualquer fuzil inimigo.
Ele sentia o peso da culpa. No passado, Miron esteve sempre ocupado demais com a hierarquia do tráfico, com a sobrevivência e com as obrigações da "firma".
Foi negligente como irmão, errou diversas vezes ao não perceber as dores que Zafira escondia atrás de seus silêncios. Mas agora era diferente. Ele via naquela conversa a oportunidade de corrigir os erros do passado e garantir que ela tivesse, finalmente, uma esperança real.
— Tu sabe do passado dela, né, chefe? — Miron finalmente falou, a voz um pouco mais rouca, o sotaque marcando as palavras com uma preocupação legítima. — Sabe como ela se sente, que é fechada pra tudo, que não aceita ajuda nem por decreto. Ela insiste em carregar o mundo nas costas sozinha pra não incomodar ninguém. Tem certeza que tu vai aguentar o tranco? Vai saber lidar com os traumas que ela guarda?
Cael virou-se para Miron, e pela primeira vez, o subordinado viu uma chama de humanidade absoluta nos olhos do Espectro. Não era o olhar de um líder, mas o de um homem determinado.
— Eu sei tudo sobre ela, Miron. E quero me aprofundar ainda mais em cada detalhe, em cada cicatriz que ela carrega. Zafira vai ser cuidada, vai ser amada e vai ser protegida como ninguém nunca fez. Nada mais vai fazer ela chorar de tristeza novamente enquanto eu estiver por perto. Dou a minha palavra que, comigo, ela vai estar segura.
Receber a palavra de Cael era como presenciar um pacto de sangue. No morro, a palavra do chefe era a lei, uma promessa selada sem volta.
Miron percebeu ali, na firmeza daquele olhar, que poderia confiar. Ele não tinha o poder de escolher pela irmã, Zafira era uma mulher feita, dona de suas próprias escolhas e de sua vontade, mas o fato de Cael ter tido o respeito de ser o primeiro a lhe contar, de não agir pelas costas, trazia um alívio imenso.
— Se tu tá dando tua palavra, então eu tô contigo, chefe — Miron disse, soltando o ar que parecia preso em seus pulmões. — Começou do jeito certo, sem caô, sem esconder o jogo. Minha irmã merece ser feliz, de verdade.
Miron assentiu levemente, voltando seu olhar para as estrelas. O céu escuro deixava a noite ainda mais bonita, dando um contraste magnífico ao brilho dos astros que pareciam vigiar o morro.
Ele pensou em tudo o que Zafira passou, em toda a solidão que ela enfrentou fingindo ser forte, e sentiu uma pontada de esperança.
Pela primeira vez em sua curta e turbulenta vida, Miron sentia que o destino estava sendo generoso. Ele finalmente teria a chance de ver sua irmã sendo feliz, protegida pelo homem que todos temiam, mas que para ela, estava se tornando um escudo impenetrável.
Cael apagou o cigarro, sentindo que um peso havia sido retirado de seus ombros. A honestidade com Miron foi o primeiro passo.
Agora, ele precisava enfrentar o maior desafio de todos: convencer Zafira de que ela era digna de todo aquele cuidado, e que o amor dele não era uma prisão, mas o solo fértil onde ela poderia, finalmente, florescer sem medo.
Zafira, enquanto isso, em sua casa agora clara e arejada, sentia um arrepio inexplicável. Ela olhava para as próprias mãos, ainda sujas com um pouco da terra do jardim de Cael que ela trouxera sob as unhas, e sentia que sua vida estava mudando de uma forma irreversível.
A conversa com Ravena ainda ecoava em sua mente, mas era a imagem de Cael, o homem que se despia de sua autoridade para ajudá-la na cozinha ou para organizar uma mesa simples, que mais a perturbava.
Ela sempre se viu como alguém que precisava ser invisível para ser segura. Se ninguém a notasse, ninguém poderia machucá-la.
Mas Cael a notou. Ele não apenas a viu, como a colocou sob um holofote de cuidado que ela não sabia como retribuir. "Eu sou insuficiente para esse nível de dedicação", ela sussurrava para o escuro do quarto.
O trauma sussurrava que tudo aquilo era bom demais para ser verdade, que o tombo seria proporcional à altura da subida.
No entanto, o que Zafira não percebia era que sua própria resistência era o que mais atraía Cael. Para um homem que tinha tudo o que queria com um comando, a conquista da confiança de Zafira era o prêmio supremo.
Ele não queria apenas o corpo dela; ele queria o direito de protegê-la. Ele queria que ela olhasse no espelho e visse a mulher que ele via: alguém cuja força não vinha da dureza, mas da capacidade de continuar cuidando da vida, mesmo quando a vida fora c***l com ela.
A noite continuou seu curso silencioso, unindo os pensamentos de dois mundos que, contra todas as probabilidades, estavam colidindo.
De um lado, o Espectro que aprendia a ser homem; do outro, a sobrevivente que aprendia a ser amada.