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1049 Words
Minutos depois Meu celular começou a tocar. A tela acendeu. Rian. Meu corpo inteiro enrijeceu. Desliguei a ligação sem pensar. No mesmo instante ele ligou de novo. Olhei para Donovan e balancei a cabeça. — Eu não vou atender... eu não quero voltar para casa hoje. Ele permaneceu em silêncio. Respirei fundo. — O Gabriel está lá... Donovan arqueou a sobrancelha. — E daí? Minha voz saiu quase num sussurro. — Ele me bateu. O mundo pareceu parar. Donovan piscou uma única vez. — ...Ele o quê? Com as mãos trêmulas, levantei devagar a blusa até mostrar minhas costas. As marcas atravessavam minha pele. Vergões avermelhados, alguns já arroxeados. Silêncio. Um silêncio tão pesado que chegava a machucar. Donovan olhava para as marcas sem conseguir desviar os olhos. Os músculos do maxilar saltaram. As mãos dele se fecharam tão forte que os nós dos dedos ficaram completamente brancos. Seu peito subia e descia num ritmo cada vez mais acelerado. A respiração estava pesada. Perigosa. — Ele tirou o cinto... — minha voz falhou. — ...e me bateu. Donovan continuava imóvel. Mas era a imobilidade de um predador prestes a atacar. — O Rian... — continuei entre lágrimas. — disse que o Gabriel fez isso porque eu não estou obedecendo. Vi uma veia saltar no pescoço de Donovan. Ele fechou os olhos por um segundo. Quando abriu novamente... Havia algo diferente. Algo assustador. — Eles disseram... Minha garganta queimava. — Que, se eu contasse para você... e você fosse tirar satisfação... Ele continuava me olhando. Sem piscar. — ...eles iam impedir que a gente se visse. O silêncio dele era pior do que qualquer grito. — E disseram que iam me entregar para outro homem... Minha voz quebrou. — Um homem que não esqueceria o único trabalho dele... me usar... e nunca se apegar. A mandíbula de Donovan estalou. Pela primeira vez desde que o conhecia... Vi suas mãos tremerem de raiva. — Eles disseram... — sussurrei. — Que você está muito envolvido comigo... que está querendo sentir que eu sou sua... mas que não tem força para enfrentar nenhum deles. Donovan abaixou lentamente a cabeça. Respirou uma vez. Duas. Três. Quando levantou o rosto de novo, seus olhos negros estavam tomados por uma fúria que eu nunca imaginei existir. Ele abriu a porta do carro de uma vez. Desceu. Deu dois passos para longe. Passou as duas mãos pelos cabelos. Tentava se controlar. Tentava. Mas não conseguia. De repente... Acertou um soco tão forte na lateral do carro que o metal afundou com o impacto. O estrondo ecoou pelo mirante. Ele respirava como um animal encurralado. Outro soco. Mais forte. — Filho da...! A frase morreu entre os dentes. Ele virou de costas para mim. Os ombros subiam e desciam violentamente. Eu nunca tinha visto Donovan perder o controle. Nunca. Depois de longos segundos, ele voltou até mim. Ajoelhou-se diante do banco. Segurou minhas mãos com uma delicadeza que contrastava com a violência da fúria que carregava. Sua voz saiu rouca. — Olha para mim, Raja. Levantei os olhos. Ele estava à beira de explodir. — Eu aceitei esse maldito acordo porque achei que, estando perto de você, eu conseguiria garantir que ninguém encostasse um dedo em você. A garganta dele travou. — E agora eu descubro que aqueles dois covardes fizeram isso... Ele olhou novamente para as marcas nas minhas costas. Os olhos encheram de lágrimas de ódio. — Eu juro... A voz saiu baixa. Fria. Mortal. — Eles acabaram de assinar a própria sentença. Naquele instante, eu soube. Donovan não estava mais lutando apenas pelo trabalho. Nem pelo dinheiro. Ele estava lutando por mim. As lágrimas voltaram sem que eu conseguisse impedir. Eu me joguei nos braços dele. Com força. Como se, naquele instante, Donovan fosse o único lugar seguro que ainda existia no mundo. — Eu preciso de você... Minha voz saiu entrecortada pelo choro. — Por favor... não me deixa sozinha. Donovan me abraçou imediatamente. Os braços enormes envolveram meu corpo com cuidado, como se eu fosse algo precioso demais para quebrar. Ele encostou o rosto nos meus cabelos e fechou os olhos por um instante. Senti sua respiração pesada. Ainda carregada de ódio. Mas, comigo, suas mãos eram suaves. Uma delas fazia carinho nas minhas costas, desviando dos vergões para não me machucar. A outra segurava minha nuca. — Você me tem... — ele sussurrou, com a voz rouca. — Você sempre me teve. Levantei o rosto para olhar para ele. — Eu estou com medo... — Eu sei. — Eles são capazes de qualquer coisa. Os olhos de Donovan encontraram os meus. Havia algo diferente neles. Algo que ele vinha escondendo havia muito tempo. — Escuta o que eu vou dizer agora, Raja. Balancei a cabeça, ainda agarrada à camisa dele. — Eu nunca fiquei com você só pelo dinheiro. Meu coração parou por um segundo. — No começo... era um trabalho. Ele respirou fundo. — Mas faz muito tempo que deixou de ser. Minha respiração falhou. Ele acariciou meu rosto. — Cada beijo que eu te dei... eu quis dar. — Cada noite que passei com você... eu quis estar ali. — Cada abraço... cada carinho... cada vez que você dormiu no meu peito... nada daquilo foi fingimento. As lágrimas escorriam pelo meu rosto. — Eu me apaixonei por você, Raja. Ele finalmente disse. Sem desviar os olhos. Sem medo. — E essa foi a pior coisa que podia acontecer. Meu peito apertou. — Porque eu sabia que, no dia em que eles descobrissem... eles usariam você para me destruir. Ele fechou os punhos. A raiva voltou a endurecer seu rosto. — Mas hoje eles passaram de todos os limites. Ele segurou meu queixo delicadamente. — Olha bem para mim. Eu obedeci. A voz dele ficou firme. Inabalável. — Nunca mais nenhum homem vai levantar a mão para você. — Nunca mais ninguém vai decidir com quem você vai dormir. — Nunca mais você vai ser tratada como propriedade de alguém. Ele aproximou a testa da minha. — Nem que eu tenha que enfrentar o inferno inteiro... A respiração dele tocava meu rosto. — Eu tiro você das mãos deles. Custe o que custar. E, pela primeira vez em muito tempo, eu acreditei que alguém realmente estava disposto a lutar por mim.
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