Capítulo 1
Ponto de Vista de Maria
Abro os olhos lentamente.
A primeira coisa que sinto é a claridade.
Ela invade minha visão de maneira dolorosa, obrigando-me a apertar os olhos. Por alguns segundos, não consigo entender onde estou. Há um teto branco acima de mim, uma luz forte e um cheiro estranho impregnado no ar.
Éter.
Hospital.
Meu coração dispara.
Tento me mexer, mas uma dor profunda atravessa meu abdômen.
Levo a mão até a barriga.
Meu filho.
A lembrança volta de uma vez.
A dor.
O sangue.
O desespero.
A ambulância.
As vozes distantes.
E então aquela sensação terrível de que alguma coisa estava errada.
Olho para o meu braço.
Há um acesso preso à minha mão, com uma bolsa de soro pendurada ao lado da cama.
Minha respiração fica presa.
— Meu bebê...
Minha voz sai tão baixa que quase não consigo ouvi-la.
Olho ao redor.
Estou sozinha.
A porta do quarto está fechada.
Meu coração começa a bater ainda mais rápido.
Onde está o médico?
Onde está alguém para me dizer que tudo está bem?
Talvez tenha sido apenas um susto.
Talvez meu bebê esteja vivo.
Talvez...
A porta se abre.
Um homem de jaleco entra.
Ele segura uma prancheta nas mãos e tenta sorrir.
Mas é um sorriso estranho.
Forçado.
Um sorriso que não combina com seus olhos.
Meu coração afunda antes mesmo de ele dizer qualquer coisa.
— Doutor...
Ele se aproxima da cama.
— Como está se sentindo?
Engulo em seco.
Não quero saber como estou.
Quero saber do meu filho.
— Doutor, me diga...
Minha voz treme.
— E o meu filho?
O médico para.
Por um instante, seus olhos encontram os meus.
Depois desviam.
Ele respira fundo.
Aquela pequena hesitação é suficiente para fazer o pânico tomar conta de mim.
— Doutor?
Ele coloca a prancheta sobre a mesa ao lado da cama.
— Sinto muito, senhora.
Não.
Não.
Eu já conheço aquelas palavras.
Conheço aquele tom.
Conheço aquele silêncio que vem antes da notícia que destrói uma pessoa.
— Não...
Minha cabeça começa a balançar sozinha.
— Não, doutor. Por favor.
Ele se aproxima.
— Seu bebê não resistiu.
Tudo ao meu redor parece desaparecer.
Não ouço mais o barulho dos aparelhos.
Não ouço os passos no corredor.
Não ouço nem mesmo minha própria respiração.
Apenas aquelas palavras.
Seu bebê não resistiu.
Fecho os olhos.
Uma lágrima escapa.
Depois outra.
E, quando percebo, estou chorando.
Não é um choro bonito.
É um choro desesperado.
Aquele tipo de choro que vem de um lugar tão profundo que parece rasgar o peito.
Levo a mão à barriga.
— Não...
Minha voz se quebra.
— Não pode ser.
O médico permanece ao meu lado.
— A senhora sofreu um aborto espontâneo.
Aborto.
A palavra parece c***l.
Fria.
Definitiva.
— Mas eu...
Tento respirar.
— Eu estava bem.
— Algumas gestações podem apresentar complicações sem sinais muito claros.
— Eu senti...
Minha voz falha.
— Eu senti meu bebê.
O médico baixa os olhos.
— Eu sei.
— Ele estava aqui.
Aperto a barriga.
— Ele estava aqui dentro de mim.
As lágrimas aumentam.
— Eu já tinha escolhido o nome.
O médico permanece em silêncio.
Eu não sei se ele realmente está ouvindo.
— Eu podia sentir...
Minha voz desaparece.
Olho para ele.
— Eu perdi meu filho?
Ele assente lentamente.
— Sim.
Fecho os olhos novamente.
Meu corpo inteiro treme.
O médico tenta me consolar.
— Mas não precisa ficar assim. Com o tratamento adequado, a senhora poderá engravidar novamente. Ainda é jovem.
Abro os olhos.
Olho para ele sem acreditar.
— Jovem?
Ele parece confuso.
— Tenho vinte e oito anos.
— Vinte e oito ainda é uma idade muito favorável para uma nova gestação.
Solto uma risada fraca.
Mas não existe humor nela.
— Uma nova gestação...
Olho para o teto.
— O senhor fala como se fosse tão simples.
Ele fica em silêncio.
— Não é a primeira vez.
O médico me observa.
— Eu sei que é difícil.
— Não.
Minha voz aumenta.
— O senhor não sabe.
Ele não responde.
— É a terceira vez.
As palavras saem entre soluços.
— Terceira.
Minha mão treme sobre o lençol.
— Três vezes.
O médico abaixa a cabeça.
— Eu sinto muito.
— Três filhos.
Engulo o choro.
— Três vezes eu imaginei que seria mãe.
Olho para a barriga.
— Três vezes eu acreditei que finalmente teria alguém para amar.
O médico respira profundamente.
— Precisamos investigar as causas dos abortos recorrentes. Podemos solicitar alguns exames e acompanhar a senhora com mais cuidado em uma próxima gestação.
— Próxima?
Ele me olha.
— Sim.
— E se não existir uma próxima?
Ele não responde imediatamente.
Essa ausência de resposta dói mais do que qualquer palavra.
— Descanse — ele diz finalmente. — Seu corpo precisa se recuperar.
Ele pega a prancheta.
— Vou deixar as orientações com a equipe.
Caminha até a porta.
Antes de sair, olha para mim.
Há tristeza em seu rosto.
Então vai embora.
A porta se fecha.
E eu fico sozinha.
Sozinha com o silêncio.
Sozinha com a terceira perda.
Sozinha com o medo.
Porque existe uma coisa que o médico não sabe.
Uma coisa que ele não poderia imaginar apenas olhando para os meus exames.
Eu não estou com medo apenas porque perdi meu bebê.
Estou com medo do homem que está esperando por mim do lado de fora daquele hospital.
Meu marido.
Ricardo.
O homem mais rico da cidade.
O homem que todos admiram.
O empresário que aparece em revistas, jornais e eventos importantes.
As pessoas o consideram um homem brilhante.
Elegante.
Poderoso.
Generoso.
Algumas mulheres chegam a dizer que eu sou uma mulher de sorte.
Elas não conhecem o homem que fecha a porta de casa.
Não conhecem o homem que controla meus horários.
Que escolhe minhas roupas.
Que verifica meu celular.
Que decide com quem posso conversar.
Não conhecem o homem que segura meu braço até deixar marcas.
O homem que me faz pedir desculpas por coisas que não fiz.
O homem que olha para mim como se eu fosse uma propriedade.
E, acima de tudo, não conhecem a obsessão dele por um herdeiro.
Um filho.
Nosso filho.
Ou melhor...
O filho que ele acredita que eu tenho obrigação de lhe dar.
Na primeira vez que perdi o bebê, ele ficou furioso.
Eu estava destruída.
Mal conseguia levantar da cama.
Mas Ricardo entrou no quarto, olhou para mim e perguntou:
— Você sabe quanto tempo perdemos?
Eu não entendi.
— O quê?
— Tempo.
Ele ficou parado diante da cama.
— Poderíamos ter um filho agora.
Comecei a chorar.
— Eu perdi nosso bebê.
— Você vai ter outro.
Ele falou como se fosse fácil.
Como se eu tivesse perdido apenas uma oportunidade.
Na segunda vez, foi pior.
Ele me acusou.
Disse que eu não me cuidava.
Que eu era fraca.
Que talvez meu corpo não servisse para aquilo.
Depois começou a dormir em quartos separados.
E passou a sair ainda mais.
Eu sabia que havia outras mulheres.
Todo mundo sabia.
Mas ninguém dizia nada.
Afinal, ele era Ricardo Moreira.
O homem poderoso.
O homem rico.
O marido perfeito das fotografias.
Agora eu estava ali.
Sozinha.
Com vinte e oito anos.
E havia perdido meu terceiro bebê.