Eclipse começa dentro de 52 horas.
CHASE
Quando ouço o motor do Guardian a trabalhar, pela primeira vez em algum tempo, não deixo de sentir apreensão. Eles vão para a Capital. Todos eles. Os anis, Zun Lin e Félix. Consigo perceber porque é que a estirpe do Kyle vai para a Capital. Afinal, um tal de Martin avisou-os de que têm de lá estar por algum tipo de visão que teve. Tanto quanto sei, um poder como o dele é bastante perigoso. Por saber o futuro, pode manipular quem encontra à sua volta, tal como os telepáticos ou qualquer outra pessoa que tenha um poder mental suficientemente forte para o fazer. Mas, se ele é anil e Kyle confia nele, tenho esperanças de que tudo acabe bem.
Resisto à ânsia de correr atrás deles. Pela primeira vez, não estou com Zun Lin ou Kyle numa missão desta amplitude. Preferia estar até com Félix ou Alya do que ficar aqui, no acampamento. Sei que sou o único que nos pode manter encobertos, mas não me agrada a ideia de uma invasão à Capital com um bando de miúdos m*l treinados, com capacidades poderosas o suficiente para aniquilar batalhões de observadores – e a eles próprios, no processo. Mas não temos opção. Temos de o fazer. Tudo por Arstrik.
O Guardian vai desaparecendo por entre a vegetação, deixando poeira por onde passa. Juntámo-nos todos à saída do Cabo da Serpente para nos despedirmos dos anis, até mesmo daqueles que ficaram pouco mais de uns dias. Tento encontrar Zun Lin no meio desta algazarra, mas tudo o que consigo ver – e ouvir – são enchentes de pessoas aplaudindo e dando força aos que se afastam a olhos vistos. Afasto-me da multidão e tento subir uma pequena árvore, na tentativa de ter uma melhor visão. Consigo ver o Guardian, agora muito mais pequeno, enquanto arrasta folhas, criando uma cauda acastanhada ao veículo.
Ainda assim, um feixe de luz brilha ritmicamente, vindo do início do Guardian, para lugar nenhum em específico. O pequeno brilho é pausado e pulsante, seguindo uma ordem que só eu poderia decifrar – eu e uma certa aerocinética. Fico preso à mensagem que Zun Lin me envia através dos seus sinais de luz. Pela sua quantidade de brilho, deve estar a utilizar os vidros foscos das janelas do Guardian para refletir a luz dos últimos raios do sol, antes que a lua tome conta do céu. Do cimo da árvore, apenas consigo encadear-me, não sabendo ao certo de onde vem a luz. O veículo está distante e, à luz do pôr-do-sol, cada vez mais esbatido por entre a floresta. Mas repito o padrão da mensagem, com pequenos rasgos de luz que me saltam dos dedos. Talvez ela possa captar a minha mensagem também.
Voltaremos a ver-nos. Custe o que custar.