Eclipse começa dentro de 8 horas.
CHASE
Não consigo dormir. O eclipse está prestes a começar. Por esta altura, a equipa de assalto à Capital já lá deve ter chegado. Como estarão, não faço ideia. São uma equipa forte e, analisando pelos últimos treinos de Félix com eles, aqui no acampamento, conseguem sobreviver a umas quantas guerrilhas. Mas tudo será diferente na Capital. Naquele redemoinho de areias movediças, tudo pode acontecer. Nada é certo, e tudo pode mudar num piscar de olhos. Mesmo que o eclipse aconteça dentro de poucas horas, não deixo de dar ordem ao acampamento para que funcione normalmente. Afinal, se tudo correr conforme o plano de Zun Lin, o Governador passará à história em menos de minutos assim que os anis descobrirem o último m****o da sua estirpe e arrasarem com Sua Graça da face de Arstrik.
Por momentos, a mente divaga-se-me para o plano que ela construiu numa questão de horas, à prova de qualquer falha. Se há coisa que nos valha são os seus planos. Entre toda a incerteza que nos rodeia, a sua mensagem e pergaminhos são a única coisa em que me posso encostar e apoiar.
A sua cabana dos pergaminhos permanece intocável. Mais ninguém além de mim se sente confortável a entrar. Pode não ser muito poderosa do ponto de vista energético, mas Zun Lin tem autoridade suficiente no Cabo da Serpente para pôr alguns dos amarelos a tremer à sua passagem. Afinal, a sua estirpe nunca lhe foi impedimento para fazer o que quer que fosse.
Assim que coloco um pé dentro da cabana dos pergaminhos, a porta fecha-se atrás de mim, levantando um manto de pó que me faz quase espirrar. Se não soubesse, diria que já não vem aqui ninguém há meses.
– Devias manter este sítio limpo. – Rodo a cabeça em direção a uma voz que não me é desconhecida, enquanto os meus punhos se tornam brilhantes, refletindo o pó que ainda faz por assentar. Movo-me para longe da silhueta que se mantém na penumbra das estantes dos livros, enquanto brinca com um pedaço de metal. – Bons reflexos, Chase.
– Mostra-te. Ou eu fá-lo-ei.
Não preciso de mover os meus punhos na sua direção para ele sair das sombras. E assim, sem mais nem menos, uma calma desce sobre mim, fazendo-me sentir algo que não sentia há algum tempo – tranquilidade. Kurt emerge das sombras, e, enquanto me aproximo dele, não extingo as faíscas que se desenham nos meus dedos. Ele é indutor de emoções. Consegue facilmente entrar na minha cabeça e projetar qualquer emoção e tornar-me vulnerável aos seus desejos. Luto contra o que sinto e faço por desenhar uma expressão contraditória à calma que me invade.
– Não te preocupes. – Ele desfaz o efeito do seu poder sobre mim. Agora, é apenas o seu sorriso tranquilizante que me transmite confiança, apesar de não estar a utilizar a sua capacidade. A adaga ainda lhe roda nos dedos, o pedaço de metal cortante ameaçador. – Acho que precisas de ver uma coisa.
Arquejo as sobrancelhas.
– O que é tão importante para saíres da Cidade Luz e vires até aqui em pessoa?
– Temos novidades sobre a invasão à Capital. – O seu olhar torna-se sério, fazendo-me engolir em seco. – Preciso que venhas comigo até Celton. – Ele enfia a faca num pedaço de cobre, cortando o seu discurso com ela.