CAPÍTULO UM
KYLE
Esquerda.
Direita.
Frente.
Caminho por entre trilhos de terra, infindáveis. A minha única companhia são paredes pretas e o som do palpitar do meu peito. Entre a confusão do silêncio que se instala por aqui, o que mais faz barulho são os meus pensamentos acelerados. Sei onde estou, ainda que não acredite bem. E, apesar de nada mais me mover além de sair deste maldito sítio, sei bem o que acontecerá se me mantiver aqui. Não pretendo ser uma marioneta nas mãos do Governador. De qualquer forma, sairei daqui. Dê por onde der, sairei do Labirinto.
Os pés latejam-me de cansaço. Existe luz, mas, por mais que olhe, não encontro o sol em parte alguma. Já não estou na Capital. Não consigo sentir a presença de nenhum outro anil. Tento procurar por acontecimentos, mas tudo o que me posso lembrar é de um clarão. Desse clarão e de um monte de paredes altas, sem fim. Não sei há quanto tempo estou aqui. Só sei que aqui estou, finalmente. Sou como os pássaros que prendia nas gaiolas, em Gren. Só que desta vez, sou eu o preso na armadilha para que saltei.
Nada mais consigo sentir do que a minha própria energia mística. Estou rodeado de cristal opaco, preto, que se torna nas paredes deste Labirinto. Entre toda a basicidade dos vidros, ver a minha aparência é tudo menos agradável. Nada me ressoa na mente, e tudo o que me pode cobrir agora são pequenas bombas de desespero. Não sei como cheguei aqui. Não sei como estão os outros anis e como está toda Arstrik neste momento. As minhas roupas cheiram a sangue. Sangue que não é meu. Sangue dos observadores, de laranjas da corte e de todos os que se puseram no meu caminho. Todos, menos do único ser de quem gostaria de poder cheirar a morte – o Governador.
Não se ouve nada. O silêncio é total e completamente abafado pelos meus próprios pensamentos. As minhas luvas estão manchadas de escarlate, mas isso não me impede de as utilizar. Os meus dedos estão engelhados, mas não porque estão mergulhados em água. Estico-os sobre a perfeita e lisa parede que me acompanha os passos, suave ao toque. Os pequenos, mas profundos, cortes, que se plantam ao longo deles, não deixam de largar algumas gotas de sangue, enquanto a crosta das feridas se liberta da pele. Mas mesmo assim, não deixo de pressionar as mãos contra os cristais negros. É a única coisa que sinto, à parte de uma inexplicável falta de rumo.
Estou no Labirinto. Este é o meu destino. O destino de qualquer anil. Ser invocado pelo controlador do Labirinto e derrotá-lo. Derrotá-lo, não. Derrotar quem o controla. Pelo menos, é o destino da nossa geração, segundo a sensorial que detinha o meu Agnei. Custa-me crer que um de nós – um dos anis – traiu a própria estirpe. Pela primeira vez, os vinte anis juntaram-se. Os vinte anis, toda uma estirpe, encontrou-se passados séculos. Pela primeira vez, uma centelha de esperança acendeu-se e fez-nos mover até ao nosso único inimigo – o nosso último m****o. O Governador. O sugador de energia mística que pensámos extinto. O monstro que partilha da mesma estirpe que nós. Uma esperança que nos fez cegos e nos liderou até este engodo.
Balanço o corpo, sem pinga de energia. Devia estar habituado a não a sentir. Afinal, toda a minha vida passei sem ela. Nunca dependi do que quer que fosse, sem ser de mim próprio, para sobreviver. Não preciso dela, mesmo que me possa vir a fazer falta. Batalhei todos os dias da minha vida para apenas respirar. Agora não será diferente. O ardor no peito não me demoverá. Não me impedirá de andar, mesmo que não saiba para onde vou. O meu destino é uma incógnita. Se sobreviverei ao Labirinto, também não sei. Mas não vou morrer sem antes levar o deus que o controla comigo.
A saliva da boca já me é pouca. A força abandona o meu corpo, a cada passo em direção ao vazio. As memórias começam a voltar, mas perco tudo o resto que me deixa em pé. Paro e encosto-me à parede que me suporta agora. Estava perto da morte, quando estávamos na Capital. Agora convivo com ela, a cada momento que passo aqui. Sinto a energia mística a esvair-se de mim, aos poucos. Não é muita a afluência que se escapa das minhas veias, mas algo me suga o poder. Algo nas paredes, no chão, no ar que percorre este sítio. Não me admiro. Afinal, é o Governador que o controla. Ele é o anil quimera. E faz jus ao seu nome. Não é só o vigésimo anil. O anil por que esperámos para mudar Arstrik definitivamente. É também um Psoc. É uma quimera, uma junção entre o nosso povo e aquelas bestas. Ele faz parte da raça de sanguessugas que drenavam as aptidões matriarcais do nosso povo. É uma aberração. Pode ser anil, mas não passa de um vampiro. Um vampiro que sempre nos sugou horas de trabalho, toneladas de vitalidade e milhares de almas, roubando-nos até à última gota de energia mística.
Como pode ele ser Psoc quando toda essa raça está extinta não consigo dizer. A Guerra Parasitária deveria ter terminado com todos eles. Mas, mais uma vez, é tudo mentira. Ainda me admiro que consiga pensar que alguma coisa que os comunicados e a propaganda falseada diziam era verdade. Não posso confiar em nada do que aprendi. E agora sei disso perfeitamente. Nada do que sei sobre o Governador é verdade. À parte da sua voz me acompanhar, é ódio que me enche o peito sempre que o seu nome se desenha na minha mente. É o anil quimera. Um traidor. Estive a poucos metros dele e ainda assim não o consegui ver bem. As sombras acompanhavam-no, mesmo quando se mexia. Não sei se foi o melhor, mas arrependo-me de não lhe ter pregado um soco na cara. Não o vou deixarei escapar impune com o que faz.
Passo uma mão pelos cabelos. Respiro fundo e endireito as costas, sentado. Cruzo as pernas. O ar que me enche os pulmões desgasta-os, mas também os enche. Preenche-me, mas também me deixa um vazio no peito. Fecho os olhos e deixo que o silêncio me invada. Nada me deixa mais calmo do que o pulsar do meu coração consistente. A impaciência não me levará a lado nenhum. Sei que estou no Labirinto, e essa é a única informação que tenho do meu lado. Não me posso arriscar a cair em nenhuma armadilha que este sítio tenha para mim. Não me vergarei à criação do anil quimera – a uma criação do próprio Governador. Não me curvarei aos seus desejos. Nunca.
Boom. Boom. Boom.
Mergulho por mim adentro. A cada respiração ofegante, mais me deixo invadir pela calma que me forço a sentir. Sinto o meu peso contra o trilho de terra. Sinto as mãos nas minhas pernas. Sinto o peito a expandir-se e a contrair-se. Deixo que a mente divague e sou vazio. Assim, de um momento para o outro, retorno às sessões de meditação. Sigo a voz de Félix, bem no fundo da minha cabeça, e persigo o seu som até ao infinito. Sem barreiras, afasto tudo o que não me serve agora. As paredes, o Labirinto, o clarão que ainda divaga na minha mente. Nada me tinge os pensamentos agora, porque os afasto com toda a minha força.
Algo começa a ganhar vida na minha mente.
Jaulas.
Sangue.
Presas.
E uma sombra de uma forma que ainda me é desconhecida.
Tudo me volta, de um momento para o outro. Pedaço a pedaço, cada imagem começa a tornar-se lúcida. Cada movimento recria-se em sintonia com quem os desfere. Cada sensação percorre-me a pele uma segunda vez. Não estou a reviver o momento, mas é como se estivesse. O meu corpo sente-o, e eu também. Estar aqui, uma segunda vez, é tudo menos agradável. E então, lembro-me plenamente.
Todos os anis estavam reunidos. Eu conduzi-nos até àquele momento. Mesmo contra todas as tropas, chegámos ao Governador. Derramámos sangue, em busca de um destino que foi selado assim que o sol e a lua se conectaram. Fiz-nos saltar da panela, para o fogo. O eclipse revelou o último anil, tal como era sabido. Mas também revelou algo que nenhum de nós esperava, partilhamos algo em comum com o Governador; no entanto, Sua Graça irá perecer perante o nosso poder. Para nossa sorte, o fogo do Governador não é suficientemente poderoso para nos deixar completamente queimados. Antes de sermos invocados pelo quimera, conseguia senti-los. Todos e a cada um dos anis. A nossa energia mística estava como nunca a senti. Todos estávamos fortes, unidos, guiados por uma única força – a da nossa estirpe. Mesmo que um de nós se tenha revelado uma sanguessuga de almas. Era apenas um gume de uma faca pronta a ser utilizada e a cravar o coração de um demónio.
As presas daquela b***a rasgam-me os olhos fechados, e consigo senti-las a cravarem-se no pescoço daquela menina que nunca tive oportunidade de honrar com um funeral digno. As cores difusas da minha imaginação misturam-se com as minhas memórias. Não consigo ver bem as caras dos anis nas minhas memórias, mas lembro-me de cada sensação, cada arrepio que ainda se esconde por debaixo da minha pele. Eles vivenciaram-no comigo. Todos estávamos unidos. Todos, menos o vigésimo anil – o traidor que nunca será um de nós, sendo anil. Ele deliciava-se com a energia mística daquela menina. Toda mesmo, até a última gota esvair-se do seu corpo, tornando-a numa carcaça moribunda. Sem piedade nem dó, o Governador tornou-a num saco de carne, sem pinga de vida. Roubou-lhe a sua energia mística, levando a vida da pobre alma com ela. Tudo para seu próprio júbilo.
As jaulas prendem-me os pensamentos. Ecoam-me os gritos cansados dos cadáveres ambulantes que esperneavam pela morte, tais corpos sem pinga de humanidade. Não sei se vi fantasmas ou se vi corpos sem alma. Apenas sei que os seus vultos a que chama de corpos vagueiam pela minha mente, assombrando-me de novo. Uma e outra vez, as suas lamúrias da morte suplicam ao Governador para que acabe de vez com a sua miséria. Maya e Zho passam-me pela mente o tempo suficiente para que me afogue ainda mais no que aconteceu naquela arena. Não sei há quanto tempo estou aqui. Não sei onde estarão agora. Não sei se estarão vivos. Não sei se eu estou completamente vivo. Não sei de nada.
A memória do som abafado de uma explosão lança-me em direção às únicas pessoas que acompanharam os anis à Capital. Implodo de remorsos e não consigo deixar de sentir o peito estilhaçar-se sobre as suas expressões para mim. As últimas, tanto quanto sei. Eram de dor. De raiva. De rancor. De ódio. Não só pelo Governador, como pelas suas tropas e regente. Um, em específico. O regente geocinético e os seus lacaios pessoais – os observadores pirocinético e blaster, que o seguiam que nem cães, para a batalha. Zun Lin. Félix… Não sei como estarão. Onde estarão. Ou se se encontram em pedaços chamuscados, após terem desaparecido para combaterem o pirocinético e o blaster, às portas do palácio de Sua Graça. A sua determinação pode tê-los conduzido à batalha ou, então, ao abismo das suas mortes. Entre as duas, não sei qual é a mais reconfortante. Sozinhos, nunca teriam dado conta do recado. Mas, sem a sua intervenção, os anis nunca teriam chegado tão longe. Afogo o que não quero acreditar e deixo que estes pensamentos se enterrem.
Ainda assim, respiro fundo, emergindo um pouco mais na minha própria mente.
Um pequeno r***o de esperança cintila-me no peito, quando vou transportado para uma imagem que me enche o peito. Os anis.
Nem sequer preciso de pensar muito para saber que estão aqui. A sensorial avisou-me. Ela disse que a sua geração não derrotaria o Labirinto e o seu controlador. Pelos vistos, o anil quimera era o controlador do Labirinto, tanto naquela geração de anis, como na nossa. Quem foi o antecessor do Governador, não sei. Apenas sei que partilhavam algo em comum – ambos são traidores e sedentos de sangue. Sangue da estirpe anil. Da sua própria estirpe. Ambos são bestas que tudo farão para aniquilar os seus próprios irmãos. O seu antecessor fez o mesmo há quinhentos anos. Dizimou a sua própria estirpe. Será que terei o mesmo destino do meu antecessor?
Saber que todos nos encontramos aqui deixa-me agoniado, por algum motivo. Posso não ser o mais forte entre nós, mas consigo sobreviver. À parte da falta e da drenagem de energia mística que sinto a cada segundo, sei como me manter vivo. Toda a minha vida foi passada na rua como um rato de esgoto. Pelo menos, até John me encontrar. John. Por momentos, deixo-me levar pela fantasia de que o meu mestre poderia estar numa das jaulas do Governador. Por momentos, tenho a pequena esperança de que John ainda possa estar vivo, mesmo sendo um dos cordeiros de Sua Graça. Mas resigno-me à verdade. Ele morreu nos meus braços, longe de ouvir a voz do Governador ou até ver uma silhueta da sua verdadeira forma. Viveu toda a sua vida a lutar contra um ser que nunca viu. Suspiro, quando me apercebo que teve sorte. Qualquer coisa seria melhor do que acabar como o seu gado.