Carla
Vou indicando o caminho da minha casa para o Akin e mando ele parar na frente de casa. Aperto o botão para abrir; logo ele coloca meu carro para dentro.
– Pensei que você morava em condomínio também – Akin diz e dá um sorriso.
— A titia é macumbeira e expulsaram ela do condomínio em que ela morava antes — Junior fala e olho para trás. — Desculpa! — ele sai do carro.
— Sério?
– Sim – desço do carro também e abro a porta para os meninos. – Bora banho, escovar dentes e dormir.
Não demora, o Tupã aparece correndo e começa a fazer festa com os meninos.
– Esse que é teu cachorro?
– Sim, tupã.
– Quantos meses ele tem?
– Tá com 6.
– Ele é grande.
– Ele é um filhote de fila brasileiro e logo vai começar a fazer o treino para cão de guarda.
– Legal – Akin sorri e o tupã vem cheirá-lo e logo pede carinho.
— Tia, cadê a caipora? — Miguel me pergunta.
– Já já ela aparece. – Acendo a luz e a caipora está sentada em cima da mesa com olhar de julgamento. – Tá aí ela. – Digo, e os meninos vão fazer carinho nela, que logo está ronronando.
– Por que caipora?
— Ela gosta de ficar no mato! — digo rindo. — Vão logo fazer o que mandei.
Os meninos correm para o segundo quarto.
— Onde vou dormir? — Akin me pergunta, e olho para ele dando um sorriso.
– Comigo.
— O quê?
– Comigo, aqui em casa só tem dois quartos: um em que os meninos vão dormir e outro que é meu, a não ser que queira dormir com eles.
– Tudo bem, durmo contigo.
– Imaginei. Vai pro meu quarto, que vou ter que ir aqui no quintal rápido e colocar comida pros dois.
– Tudo bem – ele entra no meu quarto e vou para o primeiro na frente de casa.
Abro a casa, meu Exu e Pombagira, bato palmas e me ajoelho.
— Façam o que vocês acharem melhor! — acendo as velas, que tinha esquecido.
Depois vou ao quintal ver se está tudo bem nos outros altares e entro em casa.
Caipora vem se esfregar nas minhas pernas, coloco a comida dela e depois do Tupã, que levanta da caminha e vem comer também.
Fico olhando-os comer.
— Tia, vou pegar água — Miguel pede.
– Pega – ele pega água e depois lava o copo, deixando-o no escorredor.
– Boa noite, tia! – ele vem, me dá um beijo no rosto e volta para o quarto.
Depois que os dois terminam de comer, ficam me olhando.
Normalmente eles dormem no quarto, mas hoje não vai rolar.
— Vão dormir com os meninos! — mando, e os dois vão para o quarto onde os meninos vão dormir.
Logo começo a escutar risos, me levanto e vou pegar gelo.
Aquela p**a me deu um tapa bem dado.
Coloco no meu rosto o gelo
— Dói? — Akin aparece no arco da porta da cozinha.
– Um pouco – Akin se aproxima e pega o pano, que está o gelo, e fica segurando.
— Posso fazer uma pergunta?
– Já fez
– Engraçadinha – dei uma risada.
– pergunta
– Por que a Adriana fez isso?
– Porque ela me odeia, ela acha que matei a nossa mãe na mesa do parto e ela me culpa até hoje.
— Mas você não teve culpa.
– Explica isso pra ela: tudo de r**m que acontece, a culpa é minha. Antes era pior.
— Como assim? — respiro fundo.
– Antes ela cortava o meu cabelo, me empurrava na piscina para eu morrer afogada. Ela só parou quando comecei a revidar.
— Não revidou hoje, por quê?
— Fui pega totalmente desprevenida, ainda estava com você na cabeça — ele sorri.
— É mesmo?
– Sim.
– Pensei que tinha ficado chateada.
— Pelo quê?
– Pelo que Bará fez
— Foi um acidente.
– Eu sei, você chegou tão séria e me tratou meio estranho.
– Eu te falei que estaria com a personalidade
— Verdade, você disse. — Acabei rindo.
– Quer ficar um pouco lá fora?
– Quero, sim.
— Vou tomar banho e pegar uma rede.
— Vou ficar te aguardando — concordo com ele. — Se quiser comer algo, só abrir a geladeira, e tem pão no armário. AH, sujou, lavou.
– Ok! – ele bate continência e vou para o meu quarto tomar um banho.
Lavo meu rosto, mesmo não usando maquiagem, sempre faço um skincare noturno.
Abro meu guarda-roupas e pego uma rede de casal. Saio do quarto e escuto umas gargalhadas na cozinha.
Deixo a rede no sofá e vou para a cozinha. Os três estavam fazendo brigadeiro, tinha suco em jarra e pipoca.
Enquanto o Akin estava no fogão com Miguel falando o ponto do brigadeiro, Junior lavava louça; Tupã estava destruindo algo.
– Tem que cair em blocos, tio – Miguel diz.
— Assim?
— Não, continua mexendo — puxo a cadeira devagar e me sento, vendo os três bagunçarem a minha cozinha. A airfryer faz barulho.
Quanto tempo fiquei no banheiro?
Junior vai ver a airfryer e pega um susto comigo sentada olhando.
– Tia! – Miguel e Akin viram para mim.
– Bonito, hein? O que vocês estão fazendo?
— A gente ficou com fome e pedimos pro tio fazer brigadeiro — Junior diz.
– Mentira, tia, a gente pediu pro tio fazer brigadeiro porque é sua comida de conforto – Miguel diz. – Junior queria fazer surpresa, a gente fez brownie também na airfryer porque é mais rápido. – Miguel olha pra panela. – Já tá bom, tio. – Akin desliga o fogo.
Fiquei olhando para os três.
— É sério que vocês estão fazendo isso para mim? — Deu-me uma vontade enorme de chorar.
Akin se aproxima e limpa meu rosto.
– Por que está chorando? – olho para ele.
— Eu não sei — Junior e Miguel me abraçam.
— A senhora sempre faz algo quando estamos tristes, tia. Depois que aconteceu com a senhora e a tia Adriana, queríamos deixar a bem também — Junior diz e abraça os dois.
Akin coloca a cabeça no meu ombro.
— Obrigada, não estava esperando.
— Surpresa, então, tia! — Miguel diz.
— A gente vai pro quarto, tio tira o brownie e coloca uma bola de sorvete que tem no congelador, a titia gosta! — Junior puxa o Miguel, e Tupã e Caipora vão atrás dele.
Akin faz o que Junior disse.
– O brigadeiro vai para a geladeira.
– Com a panela e tudo?
— Não! — digo rindo.
Mexo o brigadeiro e ele vai ficar duro de uma forma não boa.
– O que vocês colocaram aqui?
– Chocolate, leite condensado e margarina.
– Esqueceram do creme de leite.
– Os dois não me falaram isso. – Abro o armário e pego um creme de leite.
— Abre pra mim? — dou pro Akin, que abre e me entrega.
Akin me abraça por trás e fica olhando o que estava fazendo.
– Isso lembra o Qumbe.
– Seria um doce?
– Sim, leva coco ralado.
– Aqui a gente chama de beijinho.
— Mas nosso leva farinha de trigo — olho para ele.
— Sério?
– Sim, gosto de comer ele – assopro um pouco o brigadeiro.
– Prova – ele come um pouco, fico olhando para os lábios grossos de Akin e me passa uma maldade na cabeça.
– Gostei, não fica tão doce.
– Depende de como é feito, mas normalmente gosto de fazer com chocolate 100% cacau.
– Fica muito bom – ele diz, sorrindo.
Coloco o brigadeiro em prato, cubro-o com papel filme e coloco na geladeira. Akin tira o brownie da airfryer e coloca o sorvete que o Junior disse.
Fomos para o lado de fora, armamos a rede e deitamos um de frente para o outro com pirex, com o brownie e o sorvete.
Hoje vai ser uma boa noite!