Carla
Acordo-me, espreguiçando-me na cama, e dou um sorriso. Ficamos até tarde conversando; Akin me contou bastante da vida dele e eu contei da minha, coisas que só as meninas sabem e agora ele está sabendo também.
Passo a mão do lado da cama em que ele dormiu e não tinha ninguém; sento-me na cama e nada dele lá.
Levanto-me e corro para o banheiro, porque a minha bexiga não iria aguentar mais. Faço o xixi e escovo os dentes, lavo meu rosto e depois saio do quarto.
Escuto logo uma algazarra na cozinha e respiro fundo.
– Tem que virar agora, tio! – escuto a voz do Junior.
— Assim?
— Isso! — fico olhando os três na cozinha e acabo achando graça.
Os três estão em uma operação fazendo tapiocas.
Aproximo-me e os meninos vêm me dar um abraço. Coloco a minha cabeça no braço do Akin e ele dá um beijo na minha testa.
– Que operação é essa?
— Café da manhã para você! — Akin diz e acho graça.
Olho a frigideira e não era minha.
— Essa não é minha frigideira.
— Ele queimou a sua tia, ele queimou muitas tapiocas também, agora que ele está acertando — Miguel diz, passando margarina e colocando um pedaço de queijo na tapioca.
— Desculpa, sou péssimo, mas, com a ajuda dos dois, estou conseguindo. — Seguro o rosto dele e dou um selinho.
– Pelo menos você está tentando e estou feliz com esse esforço – Akin sorri.
Akin nunca precisou cozinhar na vida dele, então fico feliz em ver que ele está se esforçando para me agradar.
— Então senta, que acho que é o suficiente para nós quatro. — Olho para a mesa e tem várias coisas, e algumas não estavam na minha geladeira.
– Vocês saíram para comprar isso?
– Sim, os meninos foram comigo. Aproveitei, enchi o tanque do seu carro e mandei ver o óleo e a água. Se quiser, segunda levo para fazer uma revisão.
— Sério que faria isso?
– Sim, sua segurança em primeiro lugar.
— Vou amar, obrigada. — Odiava ter que ir fazer revisão no carro.
— Então senta que já terminei aqui. — Sentamos e o Akin e os meninos me servem.
Pelo que percebi, tudo que envolvia o fogão, quem fez foi o Akin; as outras coisas foram os meninos.
Junior já tem 11 anos e o Miguel vai fazer 10.
Tomo um gole de café e está super forte.
— Quem fez o café? — pergunto, me levanto e, pegando uma jarra de água, misturo a água e coloco leite.
– Como é cafeteira, deixei os meninos fazerem – Akin diz.
— Coloquei 4 colheres bem cheias, tia — Miguel diz.
– Meu amor, da próxima vez coloca duas, tá?
– Tá r**m?
— Não, está muito forte. Aí vai me dar um pico de energia e vocês vão ter que me ajudar a limpar tudo.
– Quero ajudar a limpar o congar! – Miguel diz.
— Prefiro dar banho de ervas nos animais — Junior diz.
— E eu vou fazer o quê? — acabei rindo da cara que o Akin faz.
— Vou ver algo para você fazer — Akin sorri e dá um selinho nele.
Tomamos café entre risadas e conversas.
Depois do café da manhã, botei cada um para fazer algo.
Akin foi organizar os quartos e a sala, Miguel foi limpar o meu congá e fiz banho de ervas para os meus animais.
Caipora adorou a massagem que recebeu do Junior; os pelos negros da Caipora ficariam até mais brilhantes. Quem choramingou um pouco foi Tupã; Arco, como sempre, adorou ficar no sol depois do banho.
Akin ficou impressionado como ela era calma e brilhava as escamas dela.
Expliquei para ele como ela é uma jiboia arco-íris; as escamas dela davam essa impressão. Ele achou lindo.
Ele lembrou do Bará e ligou pro Bakari pra saber dele, e, pela cara, algo o Bará fez que deu prejuízo.
E eu fiquei com a cozinha, fiz o almoço e coloquei a roupa na máquina.
Depois de tudo organizado, dei banho de ervas em cada um e, depois que os três comeram e organizamos a cozinha, os três dormiram no sofá, acabei rindo.
Fui limpar e conversar com os meu exu e pombagira. Não deixei o Miguel vir limpar aqui, até porque faz pouco tempo que fiz corte e ainda estava sujo de menga, e não seria bom para ele limpar aqui.
Converso com os dois.
Seu tranca-rua é um anjo perto da dona Maria Mulambo.
Mas foi com ela que descobri o amor de mãe. Lembro que, quando a Adriana fazia algo e eu ficava chorando porque o papai não fazia nada, era nos braços dos dois que sentia paz.
Podem falar o que for de Exu e Pombagira, que eles são demônios e tudo mais, mas em certos casos foram eles que me deram colo, eles que ajudaram. Devo muito a eles.
Depois que limpei e organizei tudo que precisava, voltei para dentro de casa.
Akin estava arrumado, com celular na mão.
— Vai pra onde?
– Preciso ir em casa.
– Quer o carro emprestado?
– Vou de Uber e dou jeito e compro um carro ainda hoje.
– Tudo bem, já pediu?
– Já, tenho 5 minutos! – ele me abraça e me dá um beijo. – Vou voltar depois, tá?
— Mais tarde não vou estar em casa — ele franze a testa.
— Posso saber para onde vai?
— Vou te levar lá no momento certo, mas assim que chegar te aviso — ele fica sério e respira fundo.
– Tudo bem, ah, coloca aqui logo teu número. – Era verdade que não tinha pego o número dele.
Pego o celular, coloco meu número salvo e mando um oi no meu w******p para salvar o número dele.
O Uber dele chega e ele me dá beijo na porta.
– Vou ficar esperando.
– Aviso quando sair e quando chegar.
— Tudo bem! — ele me dá outro beijo e entra no carro.
Fecho o portão e entro para descansar um pouco; tenho que estar no terreiro às 18 horas para começar os trabalhos.