Carla
Chegamos em casa e parece que o meu corpo está todo quebrado. Às vezes acontece isso, mas hoje parece pior.
Vou praticamente me arrastando para o beijo social. Quero logo tomar banho para ir dormir.
Entro no banheiro e deixo a água cair pelo corpo.
— Deixei uma roupa em cima da cama, vou colocar comida para a caipora e para o Tupã. Quer comer algo? — Akin fala da porta.
Fico alguns segundos olhando para o nada, ainda assimilando o que ele disse.
– Carla?
— Não quero comer.
– Tá bom – acabei rindo, termino o meu banho e pego uma toalha dobrada que sempre deixo no banheiro do corredor.
Me enrolo e vou para o meu quarto e vejo que tem uma camisa larga branca com que sempre durmo.
Cocei a testa confusa.
Como ele sabia?
– Come algo antes de dormir! – Akin tinha cortado algumas frutas para eu comer.
Meu queixo cai quando vejo isso.
— Sério?
— Dormir com estômago vazio não é bom — fico olhando para o Akin — e desculpa, abri o seu celular e peguei o número da Arlene. Não sabia qual era a roupa que era para você. Ela me disse e disse para fazer algo para comer, mesmo não querendo, e ela disse algo que não entendi.
— O quê?
– que não era para nós fazermos nada hoje. – Sinto meu rosto esquentar.
Vou te dar um cascudo, Arlene.
— Não passa nada pela sua cabeça?
— Não — deixo a toalha cair de propósito e o queixo dele cai. — Nossa! — Ele deixa o potinho com as frutas de lado e vem se aproximando. Pego a camisa e me visto rápido.
– Hoje não.
— Tu és perfeita.
– Sou gorda.
– E daí? Eu vou amar cada segundo te tocando – o olhar de desejo dele me fez arrepiar – preciso de um banho frio – Ele vai para o banheiro e acabei rindo.
Como as frutas e depois vou para a cozinha, lavo o pote e deixo no escorredor.
Vejo se a casa está toda fechada; o Caipora está no sofá e o Tupã está na caminha dele.
Volto para o quarto, coloco a minha touca de cetim e passo um pouco de perfume de alfazema.
Ligo o ar-condicionado e me deito. Akin sai do banheiro e sorri quando o vejo passando para o outro lado da cama. Ele me abraça por trás e beija o meu pescoço.
Me aninho mais nele e começo a rir igual a uma doida.
– Que foi?
— Tá gostoso de dormir assim — ele dá um beijo no meu pescoço e a gente se ajeita para dormir.
********
Abro os olhos e o Akin ainda está deitado do meu lado, mas ele está de costas. Me viro e dou um beijo nas costas dele.
Logo ele vira para mim e passa o nariz dele no meu.
Ficamos em um chamego tão gostoso.
– Quer o quê de café da manhã? – Akin me pergunta, e na mente só veio a palavra "você".
Fico olhando o Akin e ele fica passando as pontas dos dedos no meu rosto.
— Um bolo seria bom! — Akin estava sorrindo de leve e, do nada, o rosto dele muda e ele abre um sorriso enorme.
— Eu vou comprar, só vou demorar um pouco, tá?
– Por que vai demorar?
– Vou em casa buscar mais roupa para passar o dia com você.
— Ah, sim, então vou voltar a dormir.
— Melhor ainda — ele se levanta e vai para o banheiro.
"Surpresa, titia!"
Escuto a voz da conchinha.
Surpresa?
Surpresa de quê?
Akin sai do banheiro e vem me dar um beijo.
— Vou pegar o teu carro, tá?
— Tá — ele me dá um beijo e sai do quarto, e vejo a conchinha indo atrás dele.
Essa menina vai aprontar, já estou até vendo.
Volto a me deitar e fecho os olhos.
**********
Acordo com um barulho e me levanto. Olho a casa inteira e está tudo em ordem.
Vou para o lado de fora e está tudo bem.
Dei de ombros e entrei.
Achei lavar as minhas roupas do terreiro, mas antes fui escovar os dentes e fazer o meu xixi de lei.
Coloco o sabão e o bicarbonato na água e deixo um pouco de molho; entro e vou fazer o café.
"Tia fica bonita."
Conchinha chega berrando na minha cabeça.
– Como assim, conchinha?
"Flor, bambolê, oferenda, titia."
Acabei dando uma gargalhada.
Se Akin quiser fazer alguma surpresa para mim, primeiro ele tem que combinar com a conchinha.
– Ele vai demorar?
"Não, titia."
Do sorriso, vou até um pote de doce, pego alguns e vou deixar nos pés da conchinha.
— Obrigada, minha criança — entro e vou tomar um belo banho.
Lavo os cabelos, hidrato rápido.
Depois saio e passo um óleo corporal enfeitiçado.
Pego um vestido estilo blusão azul-claro, coloco um par de brincos e passo um gloss. Vou à penteadeira para pegar os meus anéis.
"Sem bambolê, titia."
Deixo os anéis lá mesmo.
"Tá linda, titia, cheirosa."
Passo um pouco de perfume e saio do quarto. Assim que chego à sala, Akin chega com um buquê de rosas e três sacos.
Meu queixo cai quando vejo o buquê.
– Akin? – ele fica me olhando.
— Você está linda! — dou um sorriso. Ele deixa os sacos no sofá e se aproxima, ajoelhando-se. Meus olhos começam a encher de lágrimas. — Carla, eu pensei em 10 mil coisas para falar, mas não vieram palavras para falar o que esses três dias significaram para mim, sei que parece precipitado demais, mas eu só vejo o meu futuro com você. — Ele tira uma caixinha do bolso e o meu coração vem na garganta. Ele abre e um anel com uma pedra azul. — Acho que devia ter te perguntado, mas eu acho que combina muito com você. — "Eu disse para ele comparar, titia", mordo os lábios para não rir da vozinha de indignação da conchinha. — Aceita namorar comigo?
— Óbvio que aceito, Akin! — ele sorri, levanta-se, entrega-me o buquê e depois coloca a aliança no meu dedo anelar da mão esquerda.
– Pensei que namoro Akin.
– E o que tem?
– Essa é mão de noivado.
– Mas a gente vai casar, porque iria te pedir para ficarmos juntos se estava pensando em separar? – Ele tinha um ponto. Akin segura o meu rosto com as duas mãos. – Daqui para frente vai ser até que a morte nos separe. – Dou um sorriso e o coração vem na garganta de novo, disparado. – Ngiyakuthanda. – Franzi a testa.
– Que?
— Eu te amo! — Akin acha graça, acho que minha cara de surpresa foi demais para ele. — Falei em Zulu. — Mesmo ele falando português de Portugal e eu achando o sotaque um charme, ainda não tinha visto ele falar em Zulu.
– Me ensina?
— O quê?
– Zulu.
– Porque quer aprender?
— Porque é seu idioma, faz parte de você e, como você disse, só a morte pode nos separar. Vão vim os filhos, e eles vão ter que saber a parte dos dois — ele sorri.
– Filhos? – ele sorri. Abraço-o pela cintura e fico olhando para ele, sorrindo.
Akin ainda está segurando o meu rosto.
– Sim, uma garotinha com esse tom de pele lindo, com cachinhos e...
– E, como a cor dos seus olhos, vou ficar louco – ele diz, sorrindo.
– Por quê?
– Meu coração já está fora do peito por causa de você. Se tiver uma miniatura de você – ele sorri –, não quero nem pensar. Acabei rindo. – Já pensei até no nome.
— Sério?
– Sim.
— Qual seria o nome da nossa filha hipotética? — ele sorri.
– Adenike-Ife – meu primeiro nome, meu coração dispara, ele lembra? – gosto do significado.
– E qual é?
– E como se fosse A coroa, tem carinho e amor – me dá vontade de chorar. Eu que tinha falado para ele o significado do meu nome quando ele disse que era estranho.
— Você lembra? — ele coloca a cabeça de lado, confuso.
– Do quê? – ele não lembrava.
– Nada, prefiro outro nome.
– Qual?
– Potira, que significa a flor mais bela.
– Pode ser os dois, vai ficar perfeita na nossa menina. – Dei um sorriso, com os olhos brilhando do Akin, para uma criança hipotética.
Meu guardião é um máximo.