CARLA
Akin sai para buscar o meu carro. Não vou mentir que eu amei ele com ciúmes.
Meu preto é maravilhoso.
Tomo meu banho de descarrego e visto uma roupa branca para começar a organizar os meus altares.
Sei que não podia, mas eles vão me entender.
Faço a minha limpeza energética e começo a separar as minhas coisas e as coisas para levar para a mãe.
Começo a sentir um peso, e esse peso é do seu tranca-rua.
– O que houve, meu velho?
Pergunto, mas ele não me responde.
Será que vou ter que esperar para fazer isso?
Tocam a campainha e vou verificar quem é. Vejo pela câmera que tem na campainha e até achei que demorou muito para um deles vir atrás de mim.
Aperto no portão de destrava e o Carlos entra em casa, e vou até a porta recebê-lo.
— Bom dia, Carlos.
— Bom dia, Carla.
— Senta! — digo, apontando para a cadeira que tenho na varanda de casa. Ele senta e eu me sento na outra cadeira. — O que devo a honra?
– Conversa com o Akin – respiro fundo.
– Sobre?
— Você sabe, Carla!
– Refresque minha memória, tem muitas coisas que posso conversar com o Akin. Tipo o papai me humilhando na frente dele, a Adriana me batendo na frente de todos e você não fazendo nada. Nossa, muitos assuntos! — digo com deboche. Carlos respira fundo.
— Carla, pelo que o papai me disse, ele não falou nada de mais. — Olho bem na cara do Carlos.
– O que foi que ele te disse?
— Que ele disse que sentia que você gosta da família, que você faz tudo para prejudicar a gente — fico olhando para o Carlos, incrédula.
— Ele te falou isso? — começo a rir, incrédula.
– Carla, tu sabe que papai tá velho, é...
– Primeiro, ele disse coisa pior; segundo, por ele, nem estaria aqui, como ele mesmo disse que está cansado de fingir, e eu também cansei de tentar me encaixar nessa p***a de família.
– Carla, tens que entender que...
— Não tenho que entender nada, Carlos. Eu estou cansada de fazer tudo certo e ainda sair como errada, estou cansada de ser internada e passar 8 meses na p***a de uma clínica psiquiátrica sem ter nada, estou cansada de apanhar só pelo fato de respirar um pouco mais fundo e a dona Lindeza ficar com raiva. p**a QUE PARIU, VOCÊS TÊM QUE ENTENDER QUE EU NÃO TIVE CULPA DA MAMÃE MORRER – berro. – Não tive culpa, faço tudo que está ao meu alcance para me tornar invisível nessa p***a de família. – Sinto o choro na garganta, mas não vou dar o gostinho dele ver chorar. – Tento ser uma boa tia para seus filhos, coisa que tu nunca foste um bom irmão para mim, Carlos.
– Carla, você sabe se, caso o Akin tente falir a gente, os meus filhos vão sofrer?
– Nem no Brasil tu querias estar, Carlos, e eles não vão sofrer, até porque eles conseguem se adaptar muito bem às coisas.
– Então tu vais deixar?
— Não vou fazer nada, quem vai fazer é ele.
— Mas tu consegues fazer ele mudar de ideia? — Carlos se levanta e vem até onde estou e fica me olhando. — Se não for fazer isso pela gente, mas pelos teus sobrinhos. — Filho da p**a, pegou logo no meu ponto fraco.
– Atualizar o teu currículo vai precisar
– Sério que não vai ajudar a gente?
— Não vou mexer um único dedo, Carlos; cada um com seus B.Os.
– A gente é irmãos, Carla – me levanto.
— Não, a gente não é. Podemos compartilhar o mesmo DNA, mas irmãos nunca fomos, graças a você mesmo. Agora pode ir embora. — Ele fica me olhando. Vou até o portão e abro para ele sair.
Carlos se aproxima de mim e fica me olhando.
– Está decidida?
– Sim.
– Vai deixar os seus sobrinhos sofrer?
– Espero eles fazerem 18 anos e converso com eles, relaxa – Carlos fecha a cara e dou um sorriso. – Pode sair da minha casa – dou um o sorriso.
— Você está demitida.
– Isso já sabia.
– Por justa causa – deu de ombros.
— Tudo bem — ele sai puto e fecha o portão.
Olho para a casa dos meus exus, que estão na porta.
Agora entendi por que o seu Tranca-rua está perto.