Ritual

1299 Words
— Chefe? Chefe? — abro os olhos devagar e tento focar a pessoa que está na minha frente. — O senhor está vivo, que bom — Dayo diz. — O que houve? — pergunto, esfregando os olhos. – Já é quase 5 horas da tarde e nada do senhor aparecer; já estava preocupado. – 5 horas da tarde? – me sento na cama. — Sim, pensei que aquela velha tinha matado o senhor, estava preocupado e pedi a chave extra do hotel para ver como o senhor estava. — Dormi mais de 24 horas, voltamos para o hotel às duas horas da tarde e, assim que chegamos, dormi. — Como o senhor está se sentindo? – Muito bem! – digo, dando um sorriso. Realmente estava bem. Estava me sentindo super descansado, sentia-me revigorado. – Que bom, deu certo. – E como deu certo – digo sorrindo. – O senhor ainda vai? – Vou sim. – Então vou pedir um serviço de quarto para o senhor. — Não precisa, vou lavar o rosto e descer. – Ok, vou devolver a chave para a recepção. — Tá bom! — Dayo sai e vou pro banheiro, aproveito e tomo um banho e faço tudo que preciso. Coloco uma roupa e saio. Vem um cheiro de um perfume; olho para os lados e não tinha ninguém no corredor. Balanço a cabeça e vou ao elevador. Saio na recepção e vejo o Dayo andando de um lado para o outro com telefone no ouvido. Quando ele me vê, desliga. – O senhor vai comer fora ou aqui no restaurante do hotel? — No restaurante, o que houve? — ele respira fundo. – Tava falando com minha mãe. — Me conta o que houve enquanto como, estou morrendo de fome — ele concordou e vamos para o restaurante do hotel. Fizemos o pedido e depois fico olhando para ele. — Ela não vai ficar com meu filho enquanto vou para o Brasil com senhor . — Dayo iria comigo e com o Bakari para o Brasil, e fiquei surpreso; não sabia que Dayo tinha filho. – Por quê? – Ela ficaria com ele se fosse um mês, mas não 6 meses. – Então o leva. – Senhor? – ele me olha surpreso. – Leva-o; pelo menos ele vai conhecer uma nova cultura e pode ficar próximo de você. unico problema você vai ter que resolver é com a mãe dele. – A mãe dele é uma perdida que, depois que teve o menino, deixou comigo e sumiu no mundo. – Então não tem problema, quantos anos tem? – 5 anos. – Melhor, aprende as coisas rápido. A casa que vamos alugar é em um condomínio. É, pelo que vimos, é grande, então dá para ter uma criança lá. — É sério? – Sim, é. Como vamos em um jato particular, dá pra ele ir com a gente. — Obrigado, senhor. Eu não sei nem como agradecer. — Você é um bom funcionário, não me custa nada fazer isso. — Obrigado mesmo, fico até mais calmo. – Tudo bem! – A nossa comida chega, comemos em silêncio. Depois de tudo, pegamos o carro e chegamos uma hora antes do combinado, já que ela sabe de tudo, ela iria saber que iria antes do combinado. Assim que batemos na porta, ela olha para a gente e sorri. — Dormiu bem? – Sim, dormi. – Que bom, agora entre, já está tudo preparado. — Mas não era só às 7 da noite? — Dayo pergunta. Ela me olha com cara de deboche. — Já sabia que iriam vir antes — acabei bufando. Entramos e ela me leva para a parte de trás, me entregando uma calça branca. — Troca, que já deixei tudo pronto. – Cadê o bicho? — Vou pegá-lo, os dois vão fazer o ritual juntos. — Franzi o rosto, mas fui me trocar. Assim que saio do pequeno banheiro que tinha do lado de fora, aquela bruxa vem com pano com algo enrolado; ela me faz sentar em um banquinho. – Ele ainda é pequeno, perdeu os pais de uma forma que ainda não sei, até porque eles são bem resistentes – ela coloca o pano nos meus braços. – Pensei em colocar dois animais para você, como ela tem, mas em todos os jogos que fiz para você, só deu um e sendo ele! – ela apontou para o pano e abri, arregalei os olhos quando vi aquela miniatura de texugo-do-mel. – Um texugo? – Ele é igual a você. – Não é, não. – E sim. Ele é m*l-humorado e um incômodo – levanto uma sobrancelha –, mas também é destemido, corajoso, bate de frente com os problemas. Fiquei olhando para o pequeno nos meus braços. Ele abre aqueles olhos negros e fica me olhando. – Ele está calmo. – Ele está encantando; se não fosse por isso, ele já tinha mordido o seu braço – continuo olhando para aquele pequeno. Ele vai se levantando, coloca as patinhas no meu peito e depois lambe o meu maxilar e depois volta a se aninhar nos meus braços. – Vamos logo começar. Ela pega alguns galhos e começa a passar pelo meu corpo; meus olhos ficam pesados e acabo fechando-os. Vejo uma mulher de véu azul com algo dourado nas pontas. O rosto dela está coberto; só consigo ver os olhos dela, que são castanho claro, claros como mel. Ela se levanta de onde está e vem até mim, estendendo a mão. – ACORDA!!! Abro os olhos e vejo aquela bruxa. – Ótimo, já acabou. – Já? Você disse que iria demorar. — Já são 3 da manhã, chefe. — olho para o Dayo, surpreso. – Mas acabei de sentar aqui. — Você estava em transe, mas ocorreu tudo bem. Lave as mãos com cuidado e passe o óleo que dei pro seu funcionário! — olho para Karabá e depois olho para minha mão, e tem um corte razoavelmente profundo. O pequeno ainda está nos meus braços e na patinha dele também tem um corte. – Machucou ele? — Foi preciso, mas ele vai ficar bem, como você também! — me levanto, deixando o pequeno no banquinho em que estava sentado, e fui me trocar pelas minhas roupas limpas. Senti um incômodo na costa e olhei no espelho. Vejo uns cortes em cada lado das minhas costas, olho nos braços e também tem, e o meu também. Conto os cortes e vejo que há 7 de cada lado. Termino de me trocar, saio e vou perguntar a Karabá por que aquilo. – Por que tenho esses cortes? – E o seu Odu? — Odu? — ela respira fundo. – E o odu de Ogum e Bará? — E você precisava fazer isso? – Sim, agora podem ir. Não se esqueçam do pequeno. – Peguei o pequeno. – Quando te devo? — Já paguei, chefe? — Dayo diz e faço um sinal positivo de cabeça. Já estávamos na porta quando Karabá segura o meu braço e me faz abaixar um pouco. Ela segura o meu rosto e fica olhando dentro dos meus olhos. — Não acredite em tudo que ver, acredite nas palavras dela. Vão querer separar vocês de novo. Quando tiver dúvidas, converse com ele — ela aponta para o pequeno nos meus braços. Ele vai saber, sempre confie nele, ele tem extintos que você não tem — ela solta meu rosto —. Aproveita e dá um nome para ele — ela fecha a porta praticamente na minha cara. Vou pro carro e seguro o pequeno, que parece ainda estar dormindo, mas, na verdade, ele abre um olho e depois fecha. Acabei rindo. – Espertinho. — Qual vai ser o nome, chefe? — fico olhando para o pequeno nos meus braços. – Bará
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