A curandeira

922 Words
Chego ao Benin um dia antes do dia marcado com essa tal curandeira; ela é bem famosinha, pelo que li sobre ela. Chego no hotel e vou tentar dormir; tinha vindo com Dayo. Bakari tinha ficado em Joanesburgo para terminar os últimos detalhes para nossa viagem. Algo dentro de mim me fez querer ir logo ver essa mulher. Saio do quarto em que estou e vou até o quarto do Dayo, bato e espero um pouco. – Senhor? – Leva-me logo onde essa mulher atende. – Mas, senhor, é só amanhã. – Leva-me logo, quero resolver isso o mais rápido possível. Se precisar, pago logo ela e resolvo isso. – Ok – ele entra no quarto e pega a carteira e a chave do carro que tínhamos alugado. Descemos e fomos para o carro. Fomos para um lado um pouco mais afastado de Benin. Parece que já estive nesse lugar, mas está muito diferente. Chegamos a uma casa simples, com várias plantas na frente. Dayo bate na porta e uma senhora vem abrir. Ela olha para nós dois e fixa o olhar em mim. — Ótimo, veio antes, entra! — ela manda com bastante autoridade. Entramos e sentamos em um sofá velho. Ela puxa uma cadeira, deixa-a à minha frente e senta. Ela fica me olhando dentro dos meus olhos. — Demorou, guardião! — franzi a testa e ela sorriu. — Depois que viu, ela que começou os sonhos, né? — ela diz, levantando-se e indo até uma mesa, onde mexe em algumas ervas. — Ela quem? — ela olha e sorri. – Pelo jeito, m*l lembra do rosto dela. – Quem mulher? – já estava ficando nervoso, não tinha conhecido ninguém importante para me deixar tendo sonhos estranhos. — Primeiramente, meu nome é Karabá. Segundo, você não conheceu uma mulher há alguns meses? — Franzi a testa, não lembrava de conhecer ninguém. — Não. — A senhorita Leal, senhor! — Dayo diz. Aí lembro da brasileira, mas nem lembrava do rosto dela. Olho para o rosto da velha, que sorri e vem até onde estou e senta na minha frente. Ela passa algo no meu rosto. — Você é descrente pelo que aconteceu no passado, mas isso vai passar assim que você ficar com ela. Uma vez vocês foram separados por intrigas, violência e morte — ela continua passando aquela coisa fedorenta no meu rosto. — Uma risada vai fazer muitas coisas despertarem em você. Você não volta — ela para e me olha séria. — Seu destino não é aqui — ela continua olhando dentro dos meus olhos. — Você vai voltar a acreditar quando você a ver. Ela está forte agora, está mais centrada e um pouco mais corajosa. Você vai ter que ser a base que você não foi para ela. – Ela quem? — Você vai saber na hora certa, as lembranças vão vir, vai lavar o rosto. — O que foi isso que passou? – Algumas ervas vão te fazer dormir melhor hoje. Venham amanhã à noite, que vou preparar um banho e uma oferenda para você fazer antes de viajar. As lembranças vão ficar ocultas por enquanto, mas vão voltar quando chegar perto dela. Ela já sabe, mas não vai poder falar muita coisa; você tem que lembrar sozinho. – Por que não posso lembrar logo essa baboseira toda? — Você não vai aguentar. Se você tivesse preparado, não apareceria só a parte em que ela morria nos seus braços! — arregalou os olhos. Como ela sabia disso? Só Bakari e Imani sabiam desses meus sonhos. — Você falou com eles? — Não preciso falar com ninguém, eu vi tudo. Agora vai lavar o seu rosto e volta para o seu hotel. Amanhã, às sete da noite, te quero aqui! – Onde lavo? – Pode ser na pia da cozinha – ela aponta para uma pia. Levanto-me e vou até a pia. Lavo meu rosto e olho pela janela e fico surpreso quando vejo uma hiena deitada dentro de uma casinha de cachorro. — A senhora tem uma hiena? — digo, virando-me para ela. – Ela é meu animal de poder; o seu chega amanhã. – O meu? Nem de bicho eu gosto. – Se você quiser continuar tendo o que tens, vai ter que gostar dele. – Como é? — Você vai ver amanhã, vai ter que levá-lo para todo lado que for. Vou encantá-lo; ele vai ficar mais sereno. – Que bicho que é? — Você vai ver e vai conseguir levá-lo para sua viagem. — Essa mulher está sabendo de muita coisa, não estou gostando disso. — Não adianta gostar ou não, você vai fazer o que está mandando. Olhei para ela, sério. Agora essa mulher lê mentes? Ela revira os olhos. — Vão logo, amanhã o ritual vai ser bem demorado e quero você bem descansado. — Quanto lhe devo? — Dayo diz, e ela n**a com a cabeça. — Não me devem nada, só vão, pois o sono dele vai bater e você não vai conseguir levantá-lo. Abro a carteira e deixo algumas notas em cima da mesa dela. Uma coisa que aprendi é que sempre é bom pagar essas pessoas; elas sabem de coisas que é melhor deixar pago. Fomos para o carro e voltamos para o hotel. Mal entro no quarto e tranco a porta, e o sono vem forte. Vou praticamente me arrastando para a cama e me jogo. Minha consciência vai se esvaindo à medida que os olhos vão fechando. Não lembro de mais nada.
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