Akin
"Estou indo deixar os meninos na casa do Carlos."
Leio a mensagem da Carla e do sorriso.
"Ok, quando voltar do compromisso, me avisa."
"Aviso, sim, amor."
Amor?
Ela me chamou de amor?
Abro um sorriso maior ainda.
— Senhor, pode vir buscar o carro na terça — o rapaz da concessionária diz, e concordo com a cabeça. Peço um Uber e volto para casa.
Bará tinha feito um estrago no sofá da casa e estou vendo que vou ter que comprar um novo ou mandar restaurar.
Passo o resto da tarde olhando o monstrinho que tenho e fico olhando o celular para ver se ela mandou algo.
— A Adriana está louca, ligando e querendo uma reunião — Bakari senta-se ao meu lado, já falando isso.
– E?
– Vai mesmo cancelar a fusão?
– O que tu achas?
– Isso é briga de família...
– A Carla vai fazer parte da minha família.
— Vocês estão juntos?
– Sim, só tenho que fazer um pedido decente para ela; ontem foi só um beijo.
– Vocês passaram a noite juntos e só foi um beijo?
– Lembra que os sobrinhos dela estavam na casa dela?
– Verdade, mas vocês dormiram tudo no mesmo quarto?
— Obviamente que não.
– Então?
– É melhor que fosse só nós dois.
– E como é a casa dela? – penso um pouco.
Para uma mulher que tem uma ótima condição financeira, a Carla vive até de modo simples.
A casa dela não é grande, mas é organizada e tem uma paz inexplicável.
– É um lar.
— Como assim?
– A sensação de lar que tem lá é enorme, nunca tinha me sentido daquele jeito.
— Não é por causa dela?
– Também, a casa não é grande, mas é perfeita.
– Casa pequena em condomínio?
– Ela não mora em condomínio.
— Não?
— Não.
– Por quê?
— Ela não quer — digo rindo.
Ficamos conversando mais algumas coisas sobre trabalho. Depois vou pro meu quarto, olho pro Bará, que está estirado dormindo, e acho de ver uma série pra passar o tempo até ela avisar que já chegou em casa.
Estou terminando a primeira temporada de From e nada dela mandar mensagem.
O que será que ela está fazendo?
Já vai dar meia-noite e nada dela.
Ligo, mas ela não me atende.
Desço para tomar água e o celular vibra no bolso. Vejo e elé ela
— Fale nesse fofoqueiro — escuto uma voz estranha, mas era da Carla.
– Alô?
– Oi, Akin?
– Sim.
– Oi, sou a Arlane, e mandaram ligar e pedir para você vir buscar a Carla.
— Ela está bem?
— Tá sim, mas o trabalho aqui hoje foi pesado e, pelo que falaram, ela vai estar exausta e não vai ter como ir dirigindo, e não tem como a gente ir com ela hoje.
– Manda a localização, que já vou pegar um Uber para ir aí.
— Já mando, obrigada! — Arlane desliga e manda a localização.
Subo correndo e bato na porta do Bakari.
– Que foi?
— Vou sair.
– Agora?
– A Carla precisa de mim.
– Aconteceu algo?
– Ainda não sei, vou ver lá.
– Qualquer coisa, avisa.
— Beleza. – Vou para o quarto e já peço o Uber para ir até onde ela estava.
Desço e o carro chega.
A Carla mora em Icoaraci e está em outro município; fico olhando a localização.
— O senhor vai para o terreiro da Mãe Maria? — o motorista me pergunta.
— Não sei, estou indo buscar a minha namorada — acabei sorrindo quando falei namorada.
Quem diria que, em menos de 24 horas no Brasil, já teria uma namorada.
– Tô indo buscar minha esposa, que é cambone lá.
– Cambone?
– Sim, quem é sua namorada?
– A Carla
– A Carla?
– Sim, conhecer?
– Sim, é a primeira vez que vejo a Carla de namorado.
– Quanto tempo conhece ela?
– Acho que já tem uns 7 anos, a gente entrou no mesmo ano.
– É um bom tempo.
– Sim, ela é uma mulher maravilhosa – estreito os olhos quando ele fala isso.
– Como é, moço?
– Calma, não estou falando em forma de interesse nela. E que Carla já ajudou muitos lá no terreiro. Primeiro foi a mãe Maria, a Carla, que conseguiu comprar onde é o terreiro agora. Esse carro em que trabalho ela conseguiu para mim. Tenho muita gratidão por ela, e as entidades dela também são maravilhosas, sabe? Não tem quem não goste dela lá no terreiro; quer dizer, tem uns lá que não gostam, como em todo canto. Ela tem uma luz própria que não tem como não ver –Ele tinha razão, e eu, i****a, nem lembrava dela– Já viu alguma entidade dela?
– Ainda não.
— Tu precisas ver, então, a vovó Maria nela, aquela preta velha — ele sorrir.
– A Carla seria o quê?
— Ela é médium de incorporação– Preciso perguntar para ela o que é isso. — Ela não te contou?
— ela comentou — minto, conversamos tanta coisa, só não chegamos nessa parte.
Fomos chegando perto e começamos a escutar uns tambores. Ele parou na frente de uma casa com várias árvores na frente.
Descemos do carro e pago ele.
Entramos e vejo logo a Carla com vestido e chapéu, cigarro e um copo na mão.
Ela me vê, vem até onde estou.
– Chegou o perneiro da minha filha! – coloco a cabeça de lado, sem entender.
– Bence, mãe! – o motorista diz.
– Pai Oxalá lhe abençoe. – Eles encostam os ombros e fico olhando aquilo.
– Oi, sou a Arlane. – A reconheço, a moça da foto. Ela passa uma fumaça em mim, por sinal, é bem cheirosa. – Vem comigo! – Ela puxa para uma sala. – Quando chegarem em casa, coloquem esse pano na cabeça dela e faça ela colocar uma roupa clara.
– Tá ok, mas o que aconteceu?
– Dona Jarina fez uma limpeza bem pesada hoje e é capaz de a Carla sentir algo. Normalmente, eu que vou com ela para casa, mas hoje não vai dar.
— Tudo bem, faço.
— Obrigada, muito obrigada mesmo! — ela sorri. Arlane tem voz calma. — Já está acabando aqui, vamos! — Saio com o pano que a Arlane me deu no ombro e voltamos para o salão, que é bem enfeitado e com algumas imagens.
Sento-me e começa a tocar algo que não entendo direito; logo a Carla solta um grito e se treme toda.
Arlene segura ela, Carla tira o chapéu da cabeça e vai até um altar e encosta a cabeça.
Eles fazem uma oração, aí ela me vê, arregala os olhos e vem até onde estou.
— O que você está fazendo aqui?
– Mandaram vir te buscar.
— Hummm — vou abraçá-la, mas ela estende a mão. — Calma, já volto. — Fiquei sem entender por que ela recusou o meu abraço.
Ela vai para a sala que antes estava, sai com uma bolsa e vai para outro lugar.
Uma senhora idosa vem falar comigo e me convida para a próxima gira; disse que iria.
Carla volta e aí ela me abraça forte e esfrega o rosto no meu peito.
— Já estava com saudade de ti — dou um sorriso.
— Eu também! — ela se despede de todos e vamos para o carro dela. — Me convidaram para a próxima gira.
– É quarta-feira.
– Eu venho
– Vem mesmo?
– Venho sim, se esse é um dos seus mundos, quero participar também – ela me olha e sorri.
— Tá bom, meu guardião — ela diz rindo.
— Tá certo, minha feiticeira — ela abre um sorriso maior ainda, aperto a ponta do nariz dela.
Ela é minha feiticeira!