indo buscar

1318 Words
Akin "Estou indo deixar os meninos na casa do Carlos." Leio a mensagem da Carla e do sorriso. "Ok, quando voltar do compromisso, me avisa." "Aviso, sim, amor." Amor? Ela me chamou de amor? Abro um sorriso maior ainda. — Senhor, pode vir buscar o carro na terça — o rapaz da concessionária diz, e concordo com a cabeça. Peço um Uber e volto para casa. Bará tinha feito um estrago no sofá da casa e estou vendo que vou ter que comprar um novo ou mandar restaurar. Passo o resto da tarde olhando o monstrinho que tenho e fico olhando o celular para ver se ela mandou algo. — A Adriana está louca, ligando e querendo uma reunião — Bakari senta-se ao meu lado, já falando isso. – E? – Vai mesmo cancelar a fusão? – O que tu achas? – Isso é briga de família... – A Carla vai fazer parte da minha família. — Vocês estão juntos? – Sim, só tenho que fazer um pedido decente para ela; ontem foi só um beijo. – Vocês passaram a noite juntos e só foi um beijo? – Lembra que os sobrinhos dela estavam na casa dela? – Verdade, mas vocês dormiram tudo no mesmo quarto? — Obviamente que não. – Então? – É melhor que fosse só nós dois. – E como é a casa dela? – penso um pouco. Para uma mulher que tem uma ótima condição financeira, a Carla vive até de modo simples. A casa dela não é grande, mas é organizada e tem uma paz inexplicável. – É um lar. — Como assim? – A sensação de lar que tem lá é enorme, nunca tinha me sentido daquele jeito. — Não é por causa dela? – Também, a casa não é grande, mas é perfeita. – Casa pequena em condomínio? – Ela não mora em condomínio. — Não? — Não. – Por quê? — Ela não quer — digo rindo. Ficamos conversando mais algumas coisas sobre trabalho. Depois vou pro meu quarto, olho pro Bará, que está estirado dormindo, e acho de ver uma série pra passar o tempo até ela avisar que já chegou em casa. Estou terminando a primeira temporada de From e nada dela mandar mensagem. O que será que ela está fazendo? Já vai dar meia-noite e nada dela. Ligo, mas ela não me atende. Desço para tomar água e o celular vibra no bolso. Vejo e elé ela — Fale nesse fofoqueiro — escuto uma voz estranha, mas era da Carla. – Alô? – Oi, Akin? – Sim. – Oi, sou a Arlane, e mandaram ligar e pedir para você vir buscar a Carla. — Ela está bem? — Tá sim, mas o trabalho aqui hoje foi pesado e, pelo que falaram, ela vai estar exausta e não vai ter como ir dirigindo, e não tem como a gente ir com ela hoje. – Manda a localização, que já vou pegar um Uber para ir aí. — Já mando, obrigada! — Arlane desliga e manda a localização. Subo correndo e bato na porta do Bakari. – Que foi? — Vou sair. – Agora? – A Carla precisa de mim. – Aconteceu algo? – Ainda não sei, vou ver lá. – Qualquer coisa, avisa. — Beleza. – Vou para o quarto e já peço o Uber para ir até onde ela estava. Desço e o carro chega. A Carla mora em Icoaraci e está em outro município; fico olhando a localização. — O senhor vai para o terreiro da Mãe Maria? — o motorista me pergunta. — Não sei, estou indo buscar a minha namorada — acabei sorrindo quando falei namorada. Quem diria que, em menos de 24 horas no Brasil, já teria uma namorada. – Tô indo buscar minha esposa, que é cambone lá. – Cambone? – Sim, quem é sua namorada? – A Carla – A Carla? – Sim, conhecer? – Sim, é a primeira vez que vejo a Carla de namorado. – Quanto tempo conhece ela? – Acho que já tem uns 7 anos, a gente entrou no mesmo ano. – É um bom tempo. – Sim, ela é uma mulher maravilhosa – estreito os olhos quando ele fala isso. – Como é, moço? – Calma, não estou falando em forma de interesse nela. E que Carla já ajudou muitos lá no terreiro. Primeiro foi a mãe Maria, a Carla, que conseguiu comprar onde é o terreiro agora. Esse carro em que trabalho ela conseguiu para mim. Tenho muita gratidão por ela, e as entidades dela também são maravilhosas, sabe? Não tem quem não goste dela lá no terreiro; quer dizer, tem uns lá que não gostam, como em todo canto. Ela tem uma luz própria que não tem como não ver –Ele tinha razão, e eu, i****a, nem lembrava dela– Já viu alguma entidade dela? – Ainda não. — Tu precisas ver, então, a vovó Maria nela, aquela preta velha — ele sorrir. – A Carla seria o quê? — Ela é médium de incorporação– Preciso perguntar para ela o que é isso. — Ela não te contou? — ela comentou — minto, conversamos tanta coisa, só não chegamos nessa parte. Fomos chegando perto e começamos a escutar uns tambores. Ele parou na frente de uma casa com várias árvores na frente. Descemos do carro e pago ele. Entramos e vejo logo a Carla com vestido e chapéu, cigarro e um copo na mão. Ela me vê, vem até onde estou. – Chegou o perneiro da minha filha! – coloco a cabeça de lado, sem entender. – Bence, mãe! – o motorista diz. – Pai Oxalá lhe abençoe. – Eles encostam os ombros e fico olhando aquilo. – Oi, sou a Arlane. – A reconheço, a moça da foto. Ela passa uma fumaça em mim, por sinal, é bem cheirosa. – Vem comigo! – Ela puxa para uma sala. – Quando chegarem em casa, coloquem esse pano na cabeça dela e faça ela colocar uma roupa clara. – Tá ok, mas o que aconteceu? – Dona Jarina fez uma limpeza bem pesada hoje e é capaz de a Carla sentir algo. Normalmente, eu que vou com ela para casa, mas hoje não vai dar. — Tudo bem, faço. — Obrigada, muito obrigada mesmo! — ela sorri. Arlane tem voz calma. — Já está acabando aqui, vamos! — Saio com o pano que a Arlane me deu no ombro e voltamos para o salão, que é bem enfeitado e com algumas imagens. Sento-me e começa a tocar algo que não entendo direito; logo a Carla solta um grito e se treme toda. Arlene segura ela, Carla tira o chapéu da cabeça e vai até um altar e encosta a cabeça. Eles fazem uma oração, aí ela me vê, arregala os olhos e vem até onde estou. — O que você está fazendo aqui? – Mandaram vir te buscar. — Hummm — vou abraçá-la, mas ela estende a mão. — Calma, já volto. — Fiquei sem entender por que ela recusou o meu abraço. Ela vai para a sala que antes estava, sai com uma bolsa e vai para outro lugar. Uma senhora idosa vem falar comigo e me convida para a próxima gira; disse que iria. Carla volta e aí ela me abraça forte e esfrega o rosto no meu peito. — Já estava com saudade de ti — dou um sorriso. — Eu também! — ela se despede de todos e vamos para o carro dela. — Me convidaram para a próxima gira. – É quarta-feira. – Eu venho – Vem mesmo? – Venho sim, se esse é um dos seus mundos, quero participar também – ela me olha e sorri. — Tá bom, meu guardião — ela diz rindo. — Tá certo, minha feiticeira — ela abre um sorriso maior ainda, aperto a ponta do nariz dela. Ela é minha feiticeira!
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