3. Morena

1131 Words
Acordar no Turano é tipo abrir o olho e já estar no meio de uma novela que ninguém escreveu direito, só que todo mundo atua com convicção. Eu abri os olhos com a certeza de duas coisas: que eu tinha dormido pouco, e eu tinha mentido bem. O dossiê tava escondido na gaveta, embaixo de um monte de coisa que não devia ser importante, mas era: maquiagem, um terço, um pacote de lenço umedecido e uma foto velha que eu não olho há tempo demais. Tudo junto, porque eu sou organizada do meu jeito. Meu jeito é: "se tá tudo perto, eu finjo que tá tudo sob controle". Eu levantei devagar e fui no banheiro. A luz amarela me pegou de lado e eu fiz aquela cara de "bom dia" que eu uso pra enganar o espelho. — Bom dia, Morena — eu disse pra mim mesma, lavando o rosto. — Hoje tu vai fingir normal e não vai virar doida por causa de um papel. O espelho não respondeu. Claro. Espelho é igual homem: só devolve o que você dá. Quando eu saí, ainda de toalha, eu ouvi a voz mais temida do Turano depois do Atila: a Lili. — MORREEENA! — gritou, do corredor, como se eu fosse uma criança perdida no shopping. — Tu tá viva ou tá fazendo drama? — Tô fazendo skincare, Lili. Coisa de gente rica. A porta abriu sem cerimônia. A Lili nunca aprendeu o conceito de "privacidade". E eu nunca tive paciência pra ensinar. Ela entrou com uma sacola numa mão e um copo de café na outra, a sobrancelha já levantada no modo julgamento. — Skincare? Acordou pensando que é blogueira? — ela olhou pra mim e fez cara de quem leu meu humor antes de eu abrir a boca. — Tu tá com cara de quem sonhou com polícia. Eu congelei por um segundo. Um segundo só, porque eu não sou de dar essa alegria. — Eu sempre tenho cara de quem sonhou com polícia, Lili. A diferença é que às vezes eu sonho que eu ganho. Ela jogou o café pra mim. — Bebe. Tu fica insuportável sem cafeína. Eu peguei o copo e dei um gole. Café no Turano é quase sacramento. A gente não tem paz, mas tem cafeína. Deus dá com uma mão e o resto a gente rouba com a outra. Lili sentou na beirada da cama e começou a tirar coisas da sacola. — Trouxe pão, mortadela, e um esmalte novo. Porque se tu vai mandar no mundo, pelo menos manda com a unha feita. — Tu é uma visionária. — Eu sou realista. E realista sabe que homem respeita mais unha feita do que palavra. Eu ri, mas por dentro eu senti aquela pontada. A palavra "homem" puxava outras coisas. Atila. Carlos. E o pior: Miguel. Eu empurrei esse pensamento pra um canto do cérebro, igual eu empurro tudo que dói: com violência e piada. — Hoje eu quero ninguém falando alto perto de mim — eu falei, começando a passar creme no corpo. — Então tu escolheu morar no lugar errado — Lili respondeu, abrindo o pão com uma faca como se estivesse resolvendo guerra. — O Turano é um megafone com CEP. Eu fui até a penteadeira, sentei, e comecei a arrumar o cabelo. Meu cabelo é meu escudo. Tem dia que eu não consigo controlar nada, mas consigo controlar meu baby hair. Isso já me dá uma sensação de poder que terapia nenhuma entrega. Lili me olhava no espelho. — Tu tá diferente, Morena. — Diferente tipo "linda" ou diferente tipo "tá devendo"? — Diferente tipo "pensando demais". Tu não pensa demais. Tu age. Tu xinga. Tu manda. Eu parei de pentear por um segundo. Engoli seco. Voltei a mexer no cabelo como se nada. — Dormi m*l. Só isso. Lili não comprou. Mas ela é minha amiga. E amizade é isso: você sabe que a outra tá mentindo e decide amar mesmo assim. Ela se levantou. — Bora. O plantão não se faz sozinho e o povo tá com a língua coçando. — Que povo? — O povo. — ela fez uma cara. — Sempre tem "o povo". Hoje já vieram me falar de mulher ciumenta, homem bêbado e uma mãe querendo dinheiro de remédio. E eu nem abri a boca ainda, que é um milagre. Eu respirei fundo. Trabalho. Trabalho é bom porque ocupa. E quando ocupa, o coração não faz tanto barulho. Eu vesti um short jeans, uma blusa colada e um chinelo caro que eu comprei só pra provar um ponto: que eu posso. Passei perfume. Passei batom. E passei aquela coragem falsa que eu uso quando o mundo tá tentando me quebrar. — Vamos — eu disse. Lili abriu a porta como se fosse dona do corredor. — Hoje tu vai sorrir mais — ela falou. — Por quê? — Porque quando tu não sorri, o Atila aparece. Como se ela tivesse invocado, o rádio chiou em algum lugar perto, o som do morro respirando. E, como sempre, o nome dele chegou antes dele. — Morena. — a voz do Atila veio pelo rádio de alguém do lado de fora, firme, baixa, aquela voz que não pede espaço: toma. — Tá acordada? Eu revirei os olhos antes de responder, por esporte. — Tô dormindo, Atila. É o meu espírito atendendo. A Lili fez um "hmmm" e sorriu de lado, porque ela adora assistir a nossa palhaçada. Ela vive dizendo que a gente briga igual casal. Eu digo que a gente briga igual dois chefes que se odeiam e se querem. Que é bem pior. O rádio chiou de novo. — Desce. Quero te ver. Eu parei na porta do meu quarto e olhei pro corredor como se o corredor fosse culpado. — Ele acha que eu sou elevador? — eu murmurei. — Ele acha que ele é o sol e tu é o girassol — Lili respondeu. — Mas tu é mais cacto. Espeta. Eu desci com Lili do lado, passando pela viela onde todo mundo finge que não vê nada e, ao mesmo tempo, vê tudo. Criança correndo com pipa, mulher varrendo a porta, um senhor sentado numa cadeira de plástico comentando a vida alheia como se fosse narrador oficial do Turano. Todo mundo me cumprimentava, não com medo, mas com aquele respeito que vem de quem já resolveu problema na prática. — Bom dia, Morena. — Bom dia, Criminosa. — Morena, tua benção. — Benção nada, menina. Eu nem sou santa. Mas vem cá, como é que tá tua mãe? Esse é o meu segredo que polícia não entende: eu mando em muita coisa aqui, mas eu também cuido. Não por bondade. Por pertencimento. O Turano é meu, e quem é meu eu protejo.
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