Puxei o ar com força, sentindo o gosto amargo do charuto se misturar com a adrenalina que já tava começando a pulsar. O papo da Sara era interessante, um passatempo pro meu ego, mas os negócios da firma não podiam parar. A morte do coroa dela era um detalhe, mas o que tava trancado no quartinho dos fundos era um problema que eu precisava resolver com as minhas próprias mãos.
Tubarão deu um passo à frente, a expressão fechada, os olhos brilhando naquela luz fraca da sala de monitoramento.
— E sobre o outro assunto, chefe? O que a gente faz com o verme do policial que tentou pular o muro? Aquele que a gente pegou tentando vazar com a informação da carga nova? O desgraçado tá lá no quartinho... tá pedindo pelo amor de Deus, dizendo que tem família.
Eu soltei uma risada seca, um som que não tinha nada de alegria. Família. Todo mundo lembra que tem família na hora que sente o cano da Glock gelado na nuca.
— Família? — Repeti, caminhando até a mesa e pegando um par de luvas de couro. — Ele deveria ter pensado na família antes de tentar crescer o olho no que é meu. Aqui na Muralha, quem tenta ser esperto demais acaba sendo o exemplo pra quem tá chegando.
Ajustei as luvas, sentindo o couro apertar os meus nós dos dedos. O ódio que eu guardava, aquele que nasceu no dia em que a Monalisa e o Tico me traíram, tava implorando pra sair. E aquele rato de farda era o alvo perfeito.
— Vamos lá, Tubarão — falei, a voz saindo baixa, num tom de promessa sinistra. — Vamos dar pra esse verme a recepção que ele merece. Ele queria saber da carga? Eu vou mostrar pra ele o peso do aço que ele tentou atravessar.
Eu caminhei em direção à porta pesada de ferro que levava ao porão. Cada passo meu ecoava como uma sentença de morte. Eu não tava com pressa. O desespero da presa é o tempero do predador, e eu tava com fome de justiça, do meu jeito.
— Prepara o balde e a fiação, Tubarão — ordenei, sem olhar pra trás. — Hoje eu não quero só informação. Hoje eu quero ouvir o som do arrependimento.
Abri a porta e o cheiro de mofo e medo subiu direto no meu nariz. O policial tava amarrado numa cadeira de ferro, um saco na cabeça, tremendo tanto que a cadeira batia no chão. O som do meu coturno batendo no concreto fez ele se encolher todo.
— Bom dia, autoridade — debochei, parando bem na frente dele e puxando o saco da cabeça dele de uma vez. — Ouvi dizer que tu queria conhecer o Golias. Pois bem... o gigante chegou. E ele não tá de bom humor.
— Eu não fiz nada, patrão! Eu juro! Eu só... eu só tava passando, me perdi nas ruelas! — O verme gaguejava, a voz fina de quem já tava sentindo o cheiro da própria cova. As lágrimas faziam um rastro na sujeira do rosto dele, misturadas com o sangue seco de quando o Tubarão deu o primeiro corretivo.
Eu dei um sorriso que não chegou nos olhos, um sorriso de quem já viu essa mesma cena mil vezes e nunca cansou. Me aproximei devagar, o peso do meu corpo projetando uma sombra que engoliu o desgraçado.
— Você "só" o quê, autoridade? — Minha voz saiu num sussurro perigoso, bem perto do ouvido dele. — Você só queria ser o herói da delegacia? Ou você só queria ser o esperto que ia vender o meu esquema pra milícia e sair de bolso cheio? Hein?
Encostei o cano da Glock na bochecha dele, sentindo ele tremer como se tivesse tomado uma descarga elétrica. O metal tava gelado, mas o que vinha depois ia ser pior.
— Tu sabe o que nós, os "traficantes" que você tanto despreza, fazemos com quem tenta atravessar o meu caminho? — Perguntei, segurando o queixo dele com a mão enluvada, apertando até os dentes dele começarem a estalar. — A gente não manda pra corregedoria não, ô comédia. A gente não dá direito a advogado nem a uma ligação.
Olhei pro Tubarão, que já tava com o balde de água pronto e os fios desencapados na mão. O brilho no olhar do meu braço direito era de quem sabia que a festa ia ser longa.
— A gente ensina o que é dor de verdade — continuei, a voz saindo pesada, carregada de veneno. — Primeiro, eu vou tirar cada informação que tá guardada nessa tua mente suja. Depois, eu vou tirar o teu orgulho, pedaço por pedaço. Tu vai implorar pra que eu aperte o gatilho, mas eu vou demorar. Vou saborear cada grito, porque cada grito teu é um lembrete pros outros vermes lá fora: na Muralha, o Golias é quem dita o ritmo.
O policial começou a chorar desesperado, o som abafado pelo pavor.
— Por favor... eu tenho filhos... — ele soluçou.
— E eu tinha uma família que o seu sistema me tirou, e um primo que o seu tipo corrompeu — rebati, a frieza tomando conta de cada célula do meu corpo. — Teus filhos vão saber que o pai deles era um rato que tentou roubar o leão. Tubarão, começa o batismo. Molha bem o chão, quero que ele sinta a voltagem percorrer até a alma.
Eu me afastei um pouco, cruzando os braços, assistindo o Tubarão jogar a água gelada sobre o corpo do verme. O desespero dele era música pros meus ouvidos. Enquanto o primeiro estalo da fiação ecoava no quartinho abafado, minha mente voou por um segundo pra Sara.
Ela tava lá em cima, sofrendo por um pai morto. Esse aqui ia sofrer por estar vivo. A vida é um contraste f**a, e eu sou o mestre que rege essa sinfonia de horror.
— Grita, autoridade! — Eu ri, o som se misturando ao barulho do choque. — Grita que o morro todo precisa saber quem é que manda aqui!
Afastei o Tubarão com um movimento de braço, sem tirar os olhos do verme que se contorcia na cadeira. Meus dedos, protegidos pelo couro, formigavam. Eu não queria só ver o serviço ser feito; eu precisava sentir o impacto, precisava descarregar o ódio que tava acumulado desde que aquela memória da Monalisa voltou a me assombrar.
— Sai da frente, Tubarão. Esse aqui é meu — rosnei, pegando os fios desencapados.
O policial arregalou os olhos, a respiração vindo em soluços curtos. O chão tava encharcado, a água refletindo a luz fraca da lâmpada pendurada. Encostei o metal na pele molhada do peito dele. O estalo foi seco, seguido por um cheiro de carne queimada e um urro de dor que fez as paredes do porão vibrarem.
Ele esticou o corpo todo, os músculos travando na voltagem, a língua enrolando enquanto a baba escorria pelo queixo.
— FALA, RATO! — gritei na cara dele. — Quem mais tá no esquema? Quem te deu o caminho da carga?
— Chefe! —Tubarão deu um passo à frente, segurando meu braço com uma firmeza que poucos ousariam ter, mas ele sabia que se eu atravessasse aquela linha, o custo pro morro ia ser alto. O vapor da carne queimada ainda subia e o cheiro de ozônio misturado com o suor do medo empestava o ar do quartinho.
— Chefe, pensa com a cabeça, não com o fígado — Tubarão mandou o papo reto, a voz baixa pra só eu ouvir. — Se a gente manter esse verme vivo, a gente tem uma peça de ouro dentro da central. Um informante que não vai ter escolha. Se a gente apaga ele, o B.O. vem pra cima de nós. Mas se a gente quebra o espírito dele aqui, ele vira nosso boneco lá dentro. O que o senhor prefere? Um corpo pra sumir ou um par de olhos e ouvidos na delegacia?
Eu parei, sentindo o recuo da descarga elétrica ainda vibrando nos meus dedos. Olhei pro policial; ele era um trapo humano, tremendo tanto que o barulho dos dentes batendo parecia uma metralhadora. Eu soltei um riso seco, jogando os fios desencapados no chão molhado, fazendo um último estalo de eletricidade ecoar.
— Tu tem razão, Tubarão. Um rato morto não fala, mas um rato com medo trabalha dobrado — falei, limpando o suor da testa com as costas da mão enluvada.
Me aproximei do policial de novo, prendendo o queixo dele com uma força que quase deslocou a mandíbula do desgraçado.
— Presta atenção, autoridade. Tu quer viver? Quer ver teus filhos crescerem ou quer que eu mande o que sobrar de você num saco de lixo pra tua mulher? — Perguntei, a voz saindo carregada de uma crueldade que fez ele fechar os olhos de pavor.
Ele só conseguiu balançar a cabeça num "sim" desesperado, as lágrimas lavando o sangue no rosto.
— Então a visão é essa: Tu agora é meu. Tu respira por minha causa, tu come por minha causa. Tubarão, faz o seguinte: puxa o levantamento completo desse verme. Quero foto dos filhos na escola, o endereço da mãe, a rota que a mulher faz pro trabalho. Quero tudo. Se ele respirar fora do compasso lá na delegacia, se ele omitir um vírgula do que a civil planejar contra a Muralha, ele não vai sofrer... quem vai pagar a conta é a família dele. Entendeu, rato?
O policial soluçava, um som patético de homem quebrado. Eu não resisti ao nojo que senti daquela fraqueza. Antes de me afastar, descarreguei o resto da minha raiva física.
O primeiro soco foi direto no estômago, um golpe seco que fez ele expelir o pouco de ar que ainda tinha. Quando ele se dobrou pra frente, eu acertei um cruzado de direita que explodiu o supercílio dele, o sangue quente espirrando na minha luva de couro. Não parei. Meti a mãozona aberta na cara dele, um tapa estalado que fez a cabeça dele chicotear, e terminei com um soco curto no nariz, sentindo a cartilagem se estraçalhar debaixo dos meus nós dos dedos.
— Isso é pra tu nunca esquecer o gosto do meu soco quando pensar em me trair — rosnei, limpando o sangue da luva na camisa dele. — Solta esse lixo amanhã, Tubarão. Joga ele num terreno baldio qualquer e deixa ele se virar pra explicar os hematomas pros colegas de farda. Ele que invente uma história de assalto, eu não quero saber. Só quero que ele esteja na atividade quando eu ligar.
Saí do quartinho sem olhar pra trás, sentindo o peso do meu comando. O policial tava garantido pelo medo, a forma mais pura de lealdade que existe no meu mundo. Agora, minha mente tava livre pra voltar pro que realmente importava: a decadência da Sara.
Subi as escadas pro meu centro de monitoramento, já imaginando a cara dela quando o efeito do remédio passasse e ela se desse conta de que o mundo dela virou um deserto. O gigante tava de volta pro trono, e a próxima peça a ser movida no tabuleiro era a doutorinha órfã.
Puxei a cadeira de carvalho n***o pra perto da mesa de vidro, o peso do meu corpo fazendo a estrutura estalar no silêncio do escritório. O zumbido dos coolers dos servidores era o único som, além da minha respiração pesada. No centro da mesa, um prato de mármore com uma trilha generosa da branca, purinha, vinda direto da fronteira sem mistura.
Passei a mão no rosto, sentindo o formigamento do sangue seco do puliça nas minhas cutículas. Enrolei uma nota de cem dólares, sentindo o papel áspero. Abaixei a cabeça e dei um tiro só. O pó subiu rasgando, queimando a mucosa e explodindo no meu cérebro como uma supernova. Me joguei pra trás na poltrona, sentindo o coração martelar contra as costelas, o mundo ficando nítido até demais.
— Que vida desgraçada... — sussurrei, a voz saindo metálica, carregada pela química. — Mas é a única que vale a pena viver.
Dei uma risada seca, encarando o teto. n**o olha de fora e acha que o Golias é só força bruta. Não entendem que pra manter o Complexo da Muralha de pé, tu tem que ser mais monstro que o monstro que mora debaixo da cama deles. O Gabriel que tinha pena, que amava, morreu naquele quarto com a Monalisa. O que sobrou foi esse gigante de gelo, movido a ódio e adrenalina.
Mudei o foco dos monitores. Meus olhos, agora com as pupilas dilatadas e brilhando no escuro, pararam na câmera que vigiava a rua da Sara. O brilho da tela refletia no meu rosto suado.
— A doutorinha se achou demais... — Falei sozinho, um sorriso torto surgindo enquanto eu sentia o "back" da droga me deixando elétrico. — Achou que o diploma de medicina era um passaporte pra fora da realidade. Achou que podia morar no morro e fingir que a gente era invisível.
Dei mais um soco na mesa, a euforia tomando conta.
— O pai dela era o único freio. Sem o coroa, ela é só uma folha seca no meio da tempestade. Ela desprezava o meu mundo? Agora ela vai ter que lamber o chão da Muralha pra não passar fome. Quero ver se o latim dos livros dela vai servir pra explicar pro estômago o que é a miséria.
Puxei o ar com força, sentindo o peito estufar. Eu tava no topo. Tinha um policial quebrado no meu porão pronto pra ser meu informante, e tinha a garota mais arrogante do estado pronta pra ser quebrada na minha mão.
— É isso que é vida, p***a! — Gritei, a voz ecoando pelas paredes blindadas. — É ter o controle. É ver quem se acha diamante virar cascalho no meu sapato. A Sara vai descobrir que a faculdade não ensina a sobreviver ao Golias.