capitulo 3 sofrimento da Sara ...

1383 Words
Eu estava colada ao peito dele, tentando passar o calor do meu corpo para aquele mármore gélido que ele tinha se tornado. O cheiro de suor e serragem da camisa dele, o cheiro do meu pai, era a única coisa que me mantinha consciente. — SAI DA FRENTE, SARA! — O grito veio da porta. Marcos entrou no quarto como um furacão. Ele ainda vestia o jaleco branco do hospital, o rosto pálido e suado. Ele não esperou por explicações. Ele se jogou no chão ao meu lado, me empurrando com o ombro para ter espaço. — Marcos, faz alguma coisa! Você é médico, p***a! Salva ele! — Eu berrava, minhas mãos agarrando o jaleco dele, manchando o branco impecável com a sujeira do chão e o meu desespero. Ele não respondeu. Os dedos dele foram direto para a carótida do meu pai. Ele pressionou, mudou a posição, tentou o pulso radial. O silêncio do Marcos era pior que qualquer grito da Tia Zuleide. Ele abriu a pálpebra do meu pai, iluminando com a lanterninha do celular. — Não... Antônio... — Marcos sussurrou, a voz falhando pela primeira vez. Ele começou a compressão torácica. O som das costelas estalando sob a pressão das mãos fortes do Marcos ecoava no quarto como tiros. Um, dois, três... Ele soprava ar nos pulmões sem vida do meu pai e voltava para as massagens. — VAMOS, ANTÔNIO! REAGE! — Marcos gritava, o suor pingando do rosto dele sobre o meu pai. — NÃO ME DEIXA AGORA, VELHO! REAGE! Eu olhava para aquela cena em choque. Minha visão estava turva, o quarto parecia estar se contraindo. Eu via o esforço do Marcos, via os músculos do braço dele saltando, via a Tia Zuleide desmaiada num canto da parede, e o que eu sentia era uma agulha em brasa atravessando o meu cérebro. Depois de minutos que pareceram séculos, Marcos parou. As mãos dele ficaram repousadas sobre o peito estático do meu pai. Ele abaixou a cabeça, os ombros subindo e descendo numa respiração pesada e sofrida. — Marcos? Por que você parou? — Eu perguntei, a voz saindo fina, infantil. — Continua! Você tem que continuar! Ele tá voltando, eu sei que tá! Marcos se virou para mim. O olhar dele estava carregado de uma tristeza tão profunda que eu senti o resto da minha alma se estraçalhar. Ele esticou a mão e tocou no meu rosto, limpando uma lágrima com o polegar. — Sinto muito, Sara... — ele disse, com a voz embargada. — Ele já se foi há horas. O coração dele... ele não aguentou. Foi um infarto fulminante. — NÃO! — O meu grito rasgou o ar, um som gutural que nem eu reconheci. — VOCÊ TÁ MENTINDO! VOCÊ TÁ DIZENDO ISSO PORQUE TÁ COM RAIVA DE MIM! PORQUE EU TE TRATEI m*l ONTEM! ELE NÃO MORREU! PAI! PAI, ACORDA! DIZ PRA ELE QUE É MENTIRA! Eu tentei me atirar sobre o corpo de novo, mas o Marcos me segurou pela cintura, me tirando do chão. Eu me debatia, chutava, arranhava os braços dele, possuída por uma loucura de dor. — ME SOLTA! ELE TÁ VIVO! ELE TÁ ME ESPERANDO PRA PEDIR DESCULPAS! — Eu urrava, minhas unhas cravando na pele do Marcos. — EU MATEI ELE, MARCOS! EU MATEI O MEU PAI! ELE FICOU ME ESPERANDO E EU TAVA FALANDO m*l DELE! EU SOU UM MONSTRO! — Calma, Sara! Pelo amor de Deus! — Marcos tentava me conter, as lágrimas dele agora descendo livremente. Eu desabei. Minhas pernas perderam a força e eu caí nos braços dele, chorando de um jeito que eu achava que ia vomitar os meus próprios órgãos. A dor era física, era um peso no peito que parecia que ia me esmagar. Eu olhava para o corpo do meu pai ali no chão, tão pequeno, tão frágil, e a culpa me chicoteava. Cada palavra agressiva que eu disse na noite anterior voltava como um eco: "Me deixa em paz!", "Santo sofredor!", "Peso de cadáver!" — Eu quero morrer... — eu soluçava, o meu rosto enterrado no peito do Marcos. — Por que não fui eu, Marcos? Por que ele? Eu não valho nada... eu não sou nada sem ele... O desespero tomou conta do meu ser de uma forma que a razão sumiu. Eu me soltei do Marcos com uma força que eu nem sabia que tinha e corri para fora daquele quarto. Eu não conseguia respirar ali dentro. O cheiro da morte estava impregnado no meu vestido vermelho, o vestido que eu usei para humilhar o homem que deu a vida por mim. O desespero me cegou. Eu atravessei a sala como um furacão de dor, meus pés descalços ignorando os cacos de vidro de algum copo que eu mesma quebrei na noite anterior. Eu só queria distância daquele silêncio, daquele corpo gelado, daquela culpa que subia pela minha garganta como ácido. Corri para fora, a luz do sol de meio-dia agredindo meus olhos inchados. O asfalto da ladeira estava fervendo, queimando a sola dos meus pés, mas eu não sentia nada. Minha mente era um rastro de gritos internos. Eu não olhei para os lados, não ouvi o som do motor roncando alto, nem o cantar de pneus que se aproximava com velocidade. Eu só queria sumir. — SARA! NÃO! — O grito do Marcos veio logo atrás de mim, carregado de pânico. Eu estava no meio da rua quando o clarão do sol refletiu no para-brisa de um carro que descia o morro desgovernado. Eu paralisei. Meus pulmões travaram. Eu vi a morte vindo de frente e, por um segundo c***l, eu desejei que ela me levasse. Eu merecia o impacto. Mas o choque não veio do metal. Marcos se atirou contra mim com o peso de todo o seu corpo. O impacto foi bruto, seco. Ele me envolveu num abraço desesperado enquanto rolávamos juntos pelo asfalto áspero, escapando por milímetros do carro que passou como um raio, buzinando e deixando o cheiro de borracha queimada no ar. Nós caímos na calçada, o impacto roubando todo o meu fôlego. O asfalto ralou minha pele, rasgando o tecido do meu vestido vermelho, mas o vazio dentro de mim era maior que qualquer ferimento. Marcos estava por cima de mim, arfando, as mãos tremendo enquanto ele tentava segurar meu rosto. — VOCÊ FICOU LOUCA?! — ele berrou, a voz embargada pelo choro e pela adrenalina. — Você quer se matar, Sara? É isso?! — MEU PAI, MARCOS! MEU PAI! — O meu grito foi um estalo, um som gutural que parecia rasgar meu peito ao meio. Eu comecei a me debater de novo, minhas unhas arranhando os braços dele, tentando me soltar daquela proteção que eu agora odiava. — ME SOLTA! ELE MORREU SOZINHO! EU MATEI ELE! EU NÃO QUERO FICAR AQUI! ME DEIXA IR! Eu estava em pleno surto psicótico. Eu chutava, mordia, tentava escapar para me atirar em qualquer outro lugar que me tirasse daquela realidade. Minha cabeça batia contra o chão enquanto eu soluçava o nome do meu pai repetidamente, num transe de agonia pura. Eu era uma ferida aberta, exposta para todo o morro ver. — Sara, olha para mim! Calma! — Marcos tentava me imobilizar, mas eu estava possuída por uma força doentia. Ele percebeu que eu não voltaria por conta própria. A dor era grande demais para o meu cérebro suportar. Com as mãos trêmulas, mas precisas, ele buscou algo no bolso do jaleco que ainda vestia. Ele sacou uma seringa pequena, que trazia para emergências no plantão. — Me perdoa, Sara... é pro seu bem — ele sussurrou, as lágrimas pingando no meu rosto. Senti a picada rápida e ardida no meu braço. Eu ainda tentei gritar mais uma vez, mas o som morreu na garganta. O mundo, que antes girava em chamas, começou a ficar cinza. O peso nos meus membros ficou insuportável. Minha visão do céu azul sobre o Complexo da Muralha foi se fechando, transformando-se num túnel escuro e silencioso. A última coisa que senti foi o calor das mãos do Marcos me segurando contra o peito dele e o som abafado do meu próprio choro sumindo na escuridão química do sedativo, mas não mudava o fato de que, quando eu acordasse, o meu mundo não teria mais chão.
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